Presidente quer vice como ponte com empresários, com a Faria Lima e com o agro, com atuação no interior de paulista
Geraldo Alckmin
Vera Rosa - Estadão
Em reuniões com aliados e coordenadores de sua campanha desde domingo, quando foi ultrapassado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou muitas mudanças de rota. Mas não foi só isso. A portas fechadas, ele também fez uma autocrítica: admitiu que o PT errou ao não se aproximar da frente ampla que o apoiou nas eleições de 2022 contra Jair Bolsonaro.
Munido do discurso de defesa da democracia, Lula conseguiu, naquele ano, firmar uma aliança no segundo turno com vários políticos, economistas e intelectuais que não tinham avalizado sua candidatura na primeira rodada da disputa.
À época, integraram a frente ampla nomes como Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Cláudia Costin, ex-ministra da Administração Federal e Reforma do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Passada a eleição, a maioria desses apoiadores foi ignorada. Alguns deles dizem até hoje que, após votar em Lula, nunca mais receberam nem mesmo uma mensagem cumprimentando pelo aniversário.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que serviu como fiador de Lula naquela campanha, tenta agora, novamente, a aproximação com setores da centro-direita. Ex-governador de São Paulo, o ex-tucano Alckmin tem conversado com empresários, com a Faria Lima e com o agro, na tentativa de mostrar o que o governo tem chamado de “perigo” de uma vitória de Flávio.
Alckmin também vai percorrer o interior de São Paulo, onde o senador ficou muito à frente de Lula, com o objetivo de virar votos. O problema é que, embora seja hoje muito mais próximo do petista do que naquela época, Alckmin enfrenta dificuldades. Em conversas reservadas, alguns integrantes da antiga frente ampla perguntam: como o governo vai fazer em 20 dias o que não fez em quatro anos?
Além disso, partidos do Centrão – que comandam ministérios no governo Lula – pulam agora para o barco de Flávio, com a expectativa de vitória do senador e a eleição de uma maioria bolsonarista no Congresso.
Dono de estilo discreto, Alckmin não adianta como pretende cumprir essa missão. “Existem dois ansiosos na vida: os políticos e os jornalistas”, costuma repetir o vice, que carrega o apelido de “picolé de chuchu”.
Enquanto o vice-presidente adota a linha mais light, o PT promete investir na estratégia do medo contra Flávio, como mostrou o Estadão.
A ideia é mudar radicalmente a comunicação da campanha, sobretudo nas redes sociais, para desconstruir a imagem do senador. Na propaganda eleitoral, o programa do presidente vai dizer que, se Flávio for eleito, o reajuste real do salário mínimo e das aposentadorias estarão com os dias contados, assim como programas sociais.
“O segundo turno não faz ninguém acreditar em Deus, mas faz ter medo do diabo”, afirmou o cientista político Carlos Melo, numa adaptação da frase do filósofo Jean-Paul Sartre.

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