"Um rei filósofo", artigo de José Renato Nalini

Ainda precisa ser cuidadosamente examinado e ser objeto de meditada reflexão, o conjunto da obra intelectual e política desse ‘Rei Filósofo’, nosso Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, um ‘Rei Sociólogo’

Fernando Henrique Cardoso

José Renato Nalini* - O Estado de S.Paulo

Platão, em “A República”, afirmava que para bem governar uma cidade, o governante precisaria ser sábio. Na verdade, um filósofo. Para ele, gerir os interesses da complexa sociedade precisaria de uma união íntima entre o poder político e a sabedoria. Só um filósofo, por amar o saber e buscar a ideia do bem, governaria com justiça e com vistas ao bem de todos. A ideia essencial é a de que governar exige preparo técnico e intelectual.

Nada mais distante do que a realidade brasileira? Nem tanto. Já tivemos um exemplar que atendeu a esses requisitos. Ainda assim, seu caminho pelo campo minado da política partidária não foi róseo ou sem sobressaltos. Seu nome é Fernando Henrique Cardoso.

Não mergulhou na política tal como aventureiro atraído pela volúpia do poder ou da fama. Nem surgiu por acaso. Até os 37 anos, construíra sólida carreira acadêmica. Trilhou todos os passos da graduação e pós-graduação. E num nicho de excelência que é a melhor Universidade do país – a USP – e uma das mais cotadas em todo o planeta.

Nunca deixou de se abeberar junto às mais confiáveis e límpidas fontes do pensamento universal. Prova disso é o seu livro “A Arte da Política – A história que vivi”, plena de relatos que as novas gerações precisam conhecer, para não se conformar com a indigência cultural que parece predominar em nosso ambiente político.

Ele cita inúmeros pensadores que forjaram a sua lúcida concepção de mundo. Tem plena consciência sobre os requisitos que habilitam alguém a aspirar um cargo público de mando. Tanto Platão como Aristóteles abordaram as qualidades requeridas para alguém ser líder. O primeiro fala do guardião do Estado como alguém que, além de sua disposição natural, se prepara, pela educação, para mandar. Aristóteles sublinha os atributos naturais e aceita a ideia, hoje inaceitável, que alguns nasceram para obedecer, outros para mandar.

Explora os conceitos de “fortuna” e “virtu” em Maquiavel, que não “renega a moral cristã, apenas mostra que a política obriga, em circunstâncias dadas, a agir guiado por outros valores”. São ideias depois intuídas por Vico na “Scienza Nuova”, posteriormente exploradas por Isaiah Berlin, “como a incomensurabilidade e mesmo a incompatibilidade de valores que convivem na mesma cultura e entre os quais não existem padrões racionais de escolha”.

É o cerne da análise de Max Weber, ao distinguir entre a ética da responsabilidade e a ética das convicções. Se o político vai ser julgado pela história pelas consequências de seus atos, isto não significa que sua ação dispense convicções.

Um intelectual com densa produção bibliográfica e contínuo estudo, era detentor de um conhecimento excepcional, considerada a média dos políticos brasileiros. Exauriu a obra de Merleau Ponty, de Hegel, de Hugo Grócio e, embora sociólogo, não jurista, hauriu lições de Montesquieu, a quem considera “o mestre das formas de governo” e cujo “monumental livro, ‘O espírito das leis’, publicado em 1748, tão criticado na época, estabeleceu a clássica distinção entre o regime tirânico, o monárquico e o republicano”. Para FHC, “deixando de lado a distinção aristotélica entre governo de um, de poucos e de muitos, Montesquieu explica o modo de funcionar das três formas a partir dos ‘princípios’ que os regem: o medo, a honra e a virtude. Essas seriam as paixões humanas que moveriam cada uma das modalidades básicas de governo”.

Ele escolheu a valorização da democracia e a escolha de métodos de ação consentâneos com ela. É o seu espírito ou os princípios que o inspiraram em sua trajetória. Abeberou-se em dois autores que enfatizaram o patrimonialismo tupiniquim e o papel do Estado e da Sociedade: Oliveira Vianna, seguido e atualizado por Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil”.

Foi preocupado com a democracia e com a luta por maior igualdade entre os brasileiros, que escreveu sua dissertação de Mestrado e seu Doutorado sobre a sociedade escravocrata do sul do Brasil.

Ainda precisa ser cuidadosamente examinado e ser objeto de meditada reflexão, o conjunto da obra intelectual e política desse “Rei Filósofo”, nosso Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, um “Rei Sociólogo”, por sua consistente formação acadêmica.

*José Renato Nalini - Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo. 

Comentários