Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, aposta na diversidade como potência cultural e econômica

Em entrevista exclusiva à VEJA SÃO PAULO, economista defende uma orquestração entre educação, cultura e tecnologia para enfrentar os desafios contemporâneos

Eduardo Saron

Alice Granato e Laura Pereira Lima - Veja São Paulo

As salas e corredores da Fundação Itaú são uma primeira fonte de inspiração, repletos de obra de arte. Peças de artistas como Ângelo Venosa, Beatriz Milhazes e Carlos Prado enchem os olhos dos visitantes. O caminho para o escritório do presidente, Eduardo Saron, 53, é um prenúncio da conversa que teremos a seguir, destacando a importância máxima da integração entre arte e educação.

Há mais de duas décadas, Saron circula entre o universo da cultura, da educação e das políticas públicas. À frente da Fundação Itaú desde 2022, depois de dirigir o Itaú Cultural por dezesseis anos, o economista pós-graduado em filosofia coordena instituições que atuam em áreas aparentemente distintas — da alfabetização ao ensino técnico, da formação de professores ao apoio à classe artística. Na prática, porém, esses temas são parte de uma mesma equação: a preparação do Brasil para as transformações que já estão em curso.

Extremamente preparado, Saron discursa com propriedade e destreza sobre os temas e apresenta seus apontamentos para o futuro. Na sua visão, existem três grandes mudanças. A primeira é a revolução tecnológica impulsionada pela inteligência artificial. A segunda são as emergências climáticas, que produzem impactos sociais e econômicos em escala global. A terceira, menos presente no debate público, é a transformação demográfica brasileira. “A partir de 2030, deixamos de ser um país jovem. Vamos ter mais gente com mais de 60 anos e menos gente com idade abaixo de 14”, destaca.

Para ele, essas três forças — revolução tecnológica, emergência climática e mudança demográfica — exigem uma revisão das respostas construídas até agora. “Tem um futuro que está se formando e que nos faz revisitar o que nos trouxe até aqui. Mas só reverberar ou continuar executando não será suficiente para atingir o futuro que a gente necessita”, diz Saron.

É a partir dessa leitura que a Fundação Itaú organiza sua atuação em três frentes: educação pública, por meio do Itaú Social; formação profissional e empregabilidade, pelo Itaú Educação e Trabalho; e cultura, com o Itaú Cultural. Saron argumenta que as áreas são cada vez mais interdependentes. “Não há como dissociar arte, cultura e educação em tempos de transformações tão profundas.”

Ele defende uma escola mais conectada aos jovens, alerta para a necessidade de recuperar a aprendizagem em matemática e sustenta que a diversidade cultural do país pode se tornar o nosso grande diferencial em um mundo cada vez mais orientado por algoritmos. “É a hora do Brasil”, afirma.

Confira os principais trechos da conversa.

Inteligência Artificial

Ao contrário de parte do debate público que trata a inteligência artificial como ameaça, Eduardo Saron defende outra leitura: a tecnologia precisa ser entendida e incorporada de forma crítica e produtiva. Para ele, o desafio não é resistir à IA, mas aprender a usá-la bem. “Precisamos incorporar nossa criatividade e nossa capacidade de oferecer soluções a partir da IA, mas sempre com uma perspectiva humanística.”

Para além dessa colaboração entre os humanos e as máquinas, o presidente da Fundação Itaú defende que há dimensões da experiência humana que nunca estarão ao alcance da tecnologia. “Tem um lugar que a IA nunca vai ocupar, que é o lugar da presença, do vínculo, da convivência. Esse lugar é do ser humano”, afirma.

Essa popularização da inteligência artificial generativa, no fim, propôs um interessante debate à humanidade. Diferente de revoluções anteriores, como a eletricidade, a máquina a vapor ou a internet, que alteraram modos de produção e comunicação, a IA também desloca o debate para a própria condição humana. “É uma mudança ontológica. Nunca se discutiu tanto o que é ser humano neste tempo de tecnologia de propósito geral”, diz o economista, que acredita que o novo cenário destacará ainda mais a criatividade intrínseca à humanidade.

O reencantamento da escola

A cada dia letivo, 35 milhões de crianças e jovens brasileiros vão à escola — “um Canadá inteiro”, nas palavras de Saron. É um equipamento público de proporções realmente impressionantes, mas que ainda precisa de muitos ajustes, segundo o presidente da Fundação Itaú. E todos eles passam pelo que ele chama de reencantamento da escola.

Uma pesquisa conduzida pelo MEC em parceria com a fundação mostrou que, conforme os alunos avançam nos anos escolares, o vínculo com a instituição diminui. “A escola precisa ser compreendida não só como um processo de aprendizado por meio das disciplinas, mas também como um espaço de construção de vínculo e de presença.”

Para ele, a formação dos estudantes vai além do conteúdo curricular e também inclui o fortalecimento das relações entre alunos, professores, famílias e a conexão com o território onde a escola está inserida, o que significa ampliar o diálogo com a cultura local, com o esporte, com as artes e com outros espaços de convivência que despertem interesse nos jovens.

Esse processo de reencantamento, segundo Saron, também depende de uma valorização maior dos profissionais da educação. Além da formação pedagógica e da formulação de materiais didáticos de qualidade, ele defende melhores condições de trabalho e atenção à saúde mental dos educadores. “O professor é o centro dessa revolução”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele avalia que o país precisa enfrentar gargalos históricos de aprendizagem, especialmente em matemática. Hoje, de cada 100 estudantes que concluem o ensino médio, apenas sete alcançam o nível de conhecimento esperado na disciplina. “Dominar a matemática é dominar a forma de raciocinar, de pensar de forma lógica. Menos matemática é mais desigualdade”, defende.

Diversidade como ativo

Se a inteligência artificial obriga o mundo a discutir o que há de singular na experiência humana, Saron acredita que o Brasil tem uma vantagem ainda pouco explorada nessa conversa: sua diversidade cultural.

Para ele, a pluralidade que marca a formação do país deve ser encarada não apenas como um valor simbólico, mas também como um ativo econômico estratégico em um cenário global cada vez mais moldado pela inteligência artificial. “Precisamos olhar para nossas ancestralidades e para a constituição deste país, sem naturalizar as tensões que fazem parte dessa diversidade, mas entendendo-a como um diferencial competitivo para enfrentar estes novos tempos, marcados pela padronização da IA”, afirma.

A principal força da IA está justamente na sua capacidade de identificar e repetir padrões, explica Saron. “A força do ser humano e, especialmente do brasileiro, é ampliar perspectivas por meio de saberes diversos e plurais”, diz. Por isso, ele acredita que o país pode ocupar uma posição relevante no desenvolvimento de aplicações e soluções baseadas em inteligência artificial.

Em vez de competir apenas na infraestrutura tecnológica ou no processamento de dados, o Brasil teria condições de se destacar na criação de usos mais contextualizados e conectados às necessidades humanas.

Conheça os três braços que compõem a Fundação Itaú

Itaú Cultural

Criada em 1987, a instituição desenvolve atividades nas áreas de arte, cultura e economia criativa. Além de manter uma programação de exposições, shows, cursos, debates e mostras de cinema, atua na pesquisa e documentação da produção cultural brasileira. Entre seus principais projetos estão a Enciclopédia Itaú Cultural, que reúne informações sobre artistas, obras e movimentos culturais do país, e a plataforma gratuita Itaú Cultural Play, dedicada à exibição de produções audiovisuais brasileiras.

Itaú Educação e Trabalho

Voltada à relação entre educação, juventude e mercado de trabalho, a organização desenvolve pesquisas, projetos e parcerias para a formação profissional de jovens. Entre suas frentes de atuação estão o apoio à expansão do ensino técnico e profissionalizante, estudos sobre empregabilidade juvenil e iniciativas voltadas à transição da escola para o mercado de trabalho. A instituição também participa de debates sobre educação profissional e tecnológica e colabora com governos, redes de ensino e organizações da sociedade civil na formulação de políticas para a qualificação de estudantes.

Itaú Social

Com foco na educação pública, atua em parceria com governos, universidades e organizações da sociedade civil para apoiar políticas educacionais e reduzir desigualdades no ensino. Entre suas iniciativas estão programas de fortalecimento da alfabetização, formação de gestores e professores, apoio à educação infantil e projetos voltados à primeira infância. A organização também produz pesquisas e estudos sobre temas como evasão escolar, equidade racial na educação e aprendizagem, além de apoiar municípios e estados na implementação de políticas públicas educacionais.

2025 na Fundação
  • 322,1 milhões de reais investidos
  • 147 cursos gratuitos na Escola da Fundação
  • 469 107 visitas à sede do Itaú Cultural
  • 72 milhões de acessos à Enciclopédia Itaú Cultural
  • 11 programas de pós-graduação (8 mestrados, 2 doutorados e 1 especialização), com bolsas integrais para profissionais de todo o Brasil
  • 25 pesquisas em escala nacional
  • 70ª edição do projeto Ocupação celebrou Ailton Krenak
  • 2,3 milhões de visualizações na plataforma IC Play

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