Perfil do ex-governador de SP teria baixo rendimento eleitoral hoje, dizem pesquisadores
Filho do tucano diz acreditar que seu pai, em 2026, votaria em Lula contra Flávio Bolsonaro
Gustavo Zeitel - Folha.com
Tucano de hirsuta plumagem, Mário Covas, morto há 25 anos, encarnou os princípios formadores do PSDB, delineados no "Manifesto ao Povo Brasileiro", publicado em 25 de junho de 1988. Era uma plataforma social-democrata, como sugere a sigla, que continha em si o espírito do processo de redemocratização do país, combinando justiça social ao apoio à iniciativa privada.
O partido que ele ajudou a fundar hoje perdeu protagonismo, e o perfil ideológico do engenheiro que ocupou os cargos de deputado federal, senador, prefeito e governador de São Paulo parece não ter se perpetuado, segundo pesquisadores e antigos aliados de Covas.
A avaliação deles é de que o PSDB não conseguiu, na última década, reafirmar a sua identidade e absorveu um pensamento antipolítica, sem renovar as lideranças. Em paralelo, a diminuição do número de integrantes fez o partido perder relevância, um contraste com a era Covas, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Afonso Arinos na cerimônia de lançamento do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) - Luciano Andrade - 24.jun.88/Folhapress
"Covas dizia: ‘Os homens e mulheres públicos podem ser um pouco mais à direita, mais à esquerda, mais alto, mais baixo, mais magro. Mas o que diferencia os homens e mulheres na vida pública é quem tem apreço pela democracia e quem não tem’", diz o vice-presidente Geraldo Alckmin (hoje no PSB), que assumiu pela primeira vez o cargo de governador de São Paulo em 2001, após a morte de Covas, vítima de um câncer na bexiga.
Filho de Covas, Mário Covas Neto, que é formado em direito, ex-vereador pelo Podemos e candidato ao Senado em 2018, avalia que, se estivesse vivo, seu pai votaria, neste ano, no presidente Lula (PT), no caso de um hipotético segundo turno entre o petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
"Não tem nem o que pensar. Não só por uma questão ideológica, mas de experiência. O que Flávio se compromete para o futuro? Só anistiar o pai dele", afirma Covas Neto.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está preso na Papudinha, em Brasília, onde cumpre pena por tentativa de golpe de Estado. Em 1989, Covas apoiou Lula no segundo turno contra Fernando Collor de Mello, que saiu vitorioso da eleição.
Para Covas Neto, o PSDB perdeu os seus princípios ao chegar ao Planalto, quando teve de acomodar diferentes linhas políticas. Ele próprio saiu do partido, em 2018, brigado com João Doria, eleito governador de São Paulo com a ajuda do bolsonarismo.
Nesse ínterim, acompanhou a ascensão à Prefeitura de São Paulo de seu sobrinho Bruno Covas, que morreu em 2021, também vítima de câncer. Na eleição municipal passada, a família dividiu-se: Covas Neto apoiou o candidato do PSDB, José Luiz Datena, enquanto Tomás Covas, 21, seu sobrinho-neto, preferiu atuar na campanha de reeleição de Ricardo Nunes (MDB).
Tomás é cotado agora para ser candidato a deputado federal. Procurado, ele não respondeu aos contatos da reportagem.
"Eu não sei se ele vai ser candidato. Você falava com o seu tio-avô? Eu vi o Tomás em algumas ocasiões. Ele poderia ter o meu voto, mas, se não for pelo PSDB, não faria campanha", afirma Covas Neto, que voltou a integrar o partido em 2024, esperando reconstruí-lo.
Na campanha das Diretas Já, em 1984, Covas dividiu palanque com Lula no comício da Sé e, quatro anos depois, ainda como senador do PMDB, foi uma das lideranças na Assembleia Constituinte. Nos dois mandatos como governador, de 1995 a 2001, destacou-se pela sanitização das contas públicas.
Também atuou na reestruturação da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), encampando o projeto da Sala São Paulo, até hoje um ninho tucano. Ao mesmo tempo, entrou em conflito com os professores em meio às reivindicações da classe por reajuste salarial. Covas chegou a ser agredido por manifestantes acampados na sede da Secretaria da Educação.
Na mesma área, sofreu críticas ao implementar o ensino de progressão continuada, eliminando a repetência. Ao longo de sua carreira política, foi o principal opositor de Paulo Maluf.
Covas viveu o auge do PSDB. Em 1998, a sigla elegeu 99 deputados, 16 senadores e quatro governadores. Já em 2022, foram 13 deputados, três senadores e três governadores —de lá para cá, os governadores trocaram, cada um deles, de partido para liderar seus respectivos estados.
"Ninguém leva mais em conta o que o PSDB diz. As criações humanas acabam, a bancada minguou. Alckmin é um sobrevivente, sobreviveu muito bem", diz Aloysio Nunes, ex-senador e deputado pelo PSDB, que foi aliado de Covas.
Para o cientista político Henrique Curi, da FespSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), autor de tese de doutorado sobre a história do PSDB, uma série de motivos explica a derrocada tucana.
Curi afirma que o partido não deu continuidade ao ideário da social-democracia europeia, tal como propalado pelos covistas, e acabou reduzido à tarefa de fazer oposição aos governos petistas. Com a ascensão do bolsonarismo, abriu-se a um pensamento antissistema.
"Doria gostava de dizer que não era político. Acontece que os tucanos históricos eram políticos e estavam dispostos a serem bons políticos. Como um partido se abre a esse pensamento? Hoje, inclusive, você tem vários partidos que são contra o PT, então o PSDB passou a não se diferenciar mais", afirma o pesquisador, acrescentando um episódio central, segundo ele, para o esvaziamento da sigla: a postura no segundo turno das eleições de 2014.
Na época, o PSDB entrou com um pedido no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para verificar a lisura da eleição presidencial. O candidato tucano daquele pleito, Aécio Neves, havia perdido para Dilma Rousseff (PT) por uma margem apertada —51,6% a 48,4%.
Procurado pela reportagem, Aécio, hoje deputado federal e presidente do PSDB, não concedeu entrevista. Em dezembro, ele minimizou a derrocada dos tucanos. "Passamos por uma lipoaspiração e estamos voltando mais esbeltos", disse, em referência à diminuição do tamanho da legenda.
Na época, Aécio disse que organizaria um movimento para a retomada do ideário centrista, visando o pleito deste ano.
Covas Neto, por seu turno, diz que o episódio de 2014 é "menor e pontual". Professor de ciência política da Uerj, Fernando Guarnieri, que foi assessor de Covas, afirma que o partido se desvirtuou com a saída de seus fundadores. Diz ainda que o pensamento centrista de Covas teria baixo rendimento eleitoral na conjuntura de agora, dividida entre lulistas e bolsonaristas.
"As pessoas cansaram da política, e o partido criado na luta pela redemocratização passou a questionar as urnas", afirma Guarnieri. "O PSDB perdeu sua inserção social, de uma classe média que tinha ligações com os movimentos sociais."
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