Líder na disputa pelo governo de São Paulo, Doria pilota seu helicóptero em campanha


SILVIA AMORIM - ÉPOCA

A imagem pode conter: 17 pessoas, pessoas sorrindo, multidão
João Doria em Caraguatatuba

Assim que o helicóptero preto e dourado de prefixo PP-JDJ com as iniciais do nome do proprietário concluiu a decolagem na noite de 29 de junho, em São José dos Campos, São Paulo, o ocupante da poltrona do copiloto avisou aos demais passageiros: “A partir daqui eu levo”. Seriam 20 minutos de voo até São Paulo. João Doria Júnior, do PSDB, estava a caminho de casa. Seus compromissos da pré-campanha tinham transcorrido sem imprevistos e ele queria relaxar. Pediu, então, o controle da aeronave. Estar no comando, seja do que for, é o vício do tucano, que largou há três meses a cadeira de prefeito de São Paulo depois de apenas um ano e três meses no cargo, para tentar ser governador.

A três meses da eleição, Doria é o líder, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. Contudo, sua performance é a pior de um tucano desde a eleição de 2006. Suas intenções de voto variam de 19% a 29%, de acordo com um instituto de pesquisa, enquanto seus antecessores José Serra e Geraldo Alckmin tinham patamares acima de 44% a esta altura. Ele e sua campanha enxergam como maior adversário no momento Márcio França, do PSB, o atual governador de São Paulo. Até o final do ano, França controla um orçamento de R$ 217 bilhões e divide com Doria o apoio de Geraldo Alckmin, candidato à Presidência pelo PSDB.

Desde que França assumiu o cargo, em abril, o clima é ruim entre eles. Em maio, assessores colocaram os dois para conversar. França chegou ao encontro, na casa do tucano, com um presente: um charuto cubano. Dias antes, Doria havia chamado o adversário de “Márcio Cuba”, por ser ele do PSB, identificado com a esquerda, algo que Doria considera negativo. O ex-prefeito, que não fuma nem bebe, aceitou bem a brincadeira. No encontro, França pediu a Doria que os dois lados não tumultuassem a campanha com denúncias à Justiça.

A conversa de hora e meia terminou num acordo — que não durou 24 horas. “A coisa polarizou de um jeito que não tem como voltar atrás. Acho quase impossível ter qualquer tipo de entendimento com o PSB”, afirmou o presidente da Assembleia Legislativa e articulador do encontro, Cauê Macris (PSDB). No dia seguinte à reunião, França soube que o PSDB havia protocolado contra ele mais um pedido de investigação no Ministério Público. Acusava o governador de constranger prefeitos aliados de Doria com a suspensão de repasses de recursos. “Ficou claro que era difícil a manutenção de um acordo porque o exército embaixo não respeitaria”, disse um integrante da campanha.

De lá para cá, Doria passou a dar jantares secretos a prefeitos para arregimentar apoio. Sem foto, vídeo nem registro nas redes sociais — algo antes impensável para ele —, mais de 20 encontros com cerca de 15 políticos cada um foram organizados ora no restaurante Rubaiyat, ora na casa do ministro Gilberto Kassab, do PSD, que faz a ponte entre Doria e outros partidos. “Foi o jeito para falar reservadamente com os prefeitos do PSDB e de outros partidos sem que eles corram o risco de sofrer represália por parte do governo”, justificou um dos organizadores.

Pelo menos duas vezes por semana, Doria viaja para algum encontro político regional. No início da tarde do sábado dia 7, ele vestia jeans escuro no mesmo tom da camisa polo azul-marinho e mocassim e cinto de camurça na cor camelo quando embarcou em seu helicóptero em São Paulo e foi até Caraguatatuba, Litoral Norte do estado. Pousou ao lado da Marina Juqueriquerê (do tupi-guarani “planta dorminhoca”), onde foi cercado por jornalistas. Ali perto, o ex-prefeito Antonio Carlos da Silva, do PSDB, estava nervoso. “Você vai colocar as pessoas para dentro? Termina logo”, disse a uma assessora de Doria. Ele estava aflito porque alguns de seus cabos eleitorais estavam indo embora, decepcionados porque o apresentador de televisão José Luiz Datena, do DEM, que seria candidato ao Senado, dera o cano no evento. Doria estava um pouco constrangido, mas contornou. “Datena é o candidato da coligação ao Senado federal. Está confirmado, e ele estará em campanha a partir desta terça-feira.” Na segunda-feira dia 9, no entanto, o imprevisível Datena surpreendeu o detalhista Doria e desistiu da candidatura.

Num tablado de uns 15 centímetros de altura, Doria subiu em uma cadeira amarela de plástico — “assim consigo olhar melhor vocês” — para discursar. Repetiu a fórmula da campanha de 2016. “Sou gestor, não sou político” foram suas primeiras palavras. Ao lado de Kassab, do deputado Rodrigo Garcia, do DEM, e de outros deputados, prefeitos e vereadores, consertou: “Quero salvaguardar aqui que muitos dos que estão na política já fazem a boa política”.

Destacou seu currículo pessoal, falou da infância de dificuldades financeiras que contrasta com sua atual condição de milionário, de valores como a família e, não raro, apelou a mantras de autoajuda. “As pessoas que não tiveram nenhum sofrimento não são completas”, afirmou ele, para depois engatar uma pausa dramática e pedir às pessoas que não desistam de mudar a política e que apareçam para votar em outubro. “A única atitude que vocês não podem aceitar nem promover é anular o voto, não votar ou viajar no momento do voto. Esse gesto não marca protesto, mas ajuda a eleger os piores”, disse. Os altos índices de abstenção e de intenção de votos brancos e nulos preocupam tanto sua equipe quanto a possibilidade de ter de disputar um segundo turno.

Doria pode repetir esses slogans onde quiser, menos na capital paulista. Na cidade que governou por um ano, onde está um quarto do eleitorado do estado, ele tem dificuldades. As pesquisas mostram que sua rejeição entre os paulistanos é de 55%, em comparação a 39% em todo o estado — os dois índices são os maiores entre todos os pré-candidatos. Analistas atribuem o desempenho ruim na cidade ao abandono precoce do cargo, em abril, e a promessas não cumpridas. Seu plano de desestatização, com a venda do complexo do Anhembi e do autódromo de Interlagos e a concessão do estádio do Pacaembu, ainda não passou da fase burocrática. Zerar o déficit de vagas em creches no primeiro ano de gestão foi outro compromisso não cumprido. No meio do caminho, a meta foi alterada para a criação de 65 mil vagas, das quais foram entregues menos de 30 mil.

Ainda assim, em tese, Doria tem uma situação invejável ante seus concorrentes. Tem a maior coligação de partidos até o momento — PSDB, PSD, DEM, PP, PRB e PTC. Mais três siglas serão anunciadas em breve — PHS, PTC e PRP. Dono de um patrimônio declarado de cerca de R$ 180 milhões, ele tem algo escasso entre 95% dos candidatos: dinheiro. Desde que deixou a prefeitura, viaja para o interior de helicóptero ou em seu avião, um Legacy prefixo PR-JDJ. Nele, ao estilo Doria, não há espaço para a informalidade dos políticos. Os passageiros são convidados dias antes, recebem uma programação por WhatsApp e ganham pantufas para cobrir os sapatos e não sujar o carpete.

Sua estrutura de campanha é de dar inveja a adversários e até ao presidenciável Geraldo Alckmin. Doria despacha de um imóvel de dois andares na Rua Estados Unidos, uma das mais caras de São Paulo. Um outro imóvel está prestes a ser inaugurado na capital para abrigar um centro de assistência aos candidatos a deputado. Doria promete a todos os apoiadores material de campanha e assessoria para as redes sociais gratuitos. Dessa forma, seu palanque nunca fica vazio. Os eventos de sua pré-campanha são trabalhados como superprodução. Nos jogos do Brasil na Copa, ele tinha um par de camisas oficiais da Seleção — a amarela e a azul — com o nome e o bordão do pré-candidato, “Acelera”, para acompanhar as partidas. Em qualquer região do estado onde Doria esteja há colaboradores devidamente uniformizados com camisetas azuis personalizadas e adesivos distribuídos com o slogan “João trabalhador”. Em Caraguatatuba, ÉPOCA presenciou um militante ligado ao ex-prefeito Antonio Carlos da Silva, que trabalha pela candidatura de uma filha a deputada estadual, distribuindo adesivos com o número 45 do PSDB, o que é proibido por lei. Até 15 de agosto, pré-candidatos podem fazer reunião, promover atos públicos, mas não podem pedir voto nem promover candidaturas. A assessoria de Doria disse que os adesivos não eram de sua campanha.

Ainda se especula sobre o nome de Doria como alternativa a Geraldo Alckmin na eleição presidencial. Um jantar com o presidente Michel Temer neste mês, em Brasília, reavivou as especulações e obrigou o tucano a divulgar, na sexta-feira dia 6, uma nota pública reafirmando apoio a Alckmin. Sua postura estimula os rumores. Em seus discursos, ele fala muito do Brasil. Na marina da “planta dorminhoca” em Caraguatatuba, referiu-se ao país 12 vezes em 26 minutos de pronunciamento, enquanto as menções a São Paulo foram apenas três. Alckmin foi lembrado pelo pré-candidato faltando três minutos para o final, quando defendeu que a opção à extrema-direita, sem citar o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), não é saída para o Brasil. “Quero afirmar que o meu candidato à Presidência da República chama-se Geraldo Alckmin. É por ele que trabalho e por ele que peço que trabalhem também.”

Parte do eleitorado de Doria declara voto em Jair Bolsonaro, do PSL, um dos candidatos que tiram votos de Alckmin em São Paulo. O endurecimento do discurso na segurança pública — e a promessa de distribuição de mais dinheiro para a saúde — aproxima Doria dos simpatizantes do ex-capitão. “Vamos retomar a colocação da polícia nas ruas. É polícia na rua e bandido na cadeia”, disse, numa frase que lembra o “Rota na rua” de Paulo Maluf na década de 1980. Desconfianças insuperáveis à parte, Alckmin e Doria fizeram um acordo no fim de maio. Numa sala comercial que o PSDB aluga como escritório político do presidenciável no bairro do Itaim, em São Paulo, definiram que, a partir de agosto, Alckmin participará de eventos públicos com Doria — e com Márcio França.

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