'Investimento inteligente no esporte', artigo de Felipe Sigollo e Pedro Trengrouse


Recursos no Brasil podem ser mais bem alocados

Prédio em construção do Centro de Iniciação ao Esporte (CIE), em Praia Grande (SP) 
Foto: Adriano Vizoni - Folhapress

A retração do esporte brasileiro depois que o país sediou a Copa e os Jogos Olímpicos deixa claro que é preciso repensar toda política de investimento público no esporte. Além de aumentar o financiamento de clubes, confederações e atletas, é preciso compreendê-lo como instrumento de políticas públicas transversais para o desenvolvimento integral da pessoa humana, principalmente na educação de crianças e adolescentes.

Sob a ótica do alto rendimento, o Brasil, sem dúvida, está entre os países com maior investimento esportivo nos últimos anos. Foram R$ 8,3 bilhões nos estádios da Copa, R$ 7,2 bilhões nas arenas dos Jogos Olímpicos e, desde 2001, quase R$ 10 bilhões das loterias destinados ao Ministério do Esporte, Comitê Olímpico do Brasil, clubes de futebol, Comitê Paralímpico Brasileiro, Comitê Brasileiro de Clubes e Federação Nacional de Clubes.

A soma corrigida de incentivos fiscais, Jogos Pan-Americanos, Mundiais Militares, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Paralímpicos —com os valores destinados anualmente ao esporte olímpico pelas loterias e empresas estatais— passa de R$ 100 bilhões. Mas, afinal, há um bom retorno sobre esse investimento público no esporte? 

Na Islândia, por exemplo, investimento público maciço no esporte tem gerado resultados positivos que vão muito além do sucesso em competições internacionais. Lá, o poder público financia diretamente as atividades esportivas da população. A colaboração entre municípios, clubes e famílias tem sido fundamental para a construção do caráter de crianças e adolescentes.

A prática de esportes com treinadores qualificados melhora a saúde física e mental, aumenta o desempenho acadêmico e diminui a evasão escolar, reforçando o tecido social das comunidades com valores positivos, reduzindo a criminalidade e melhorando a qualidade de vida em geral.

Em 20 anos, o percentual de islandeses entre 14 e 16 anos que dizem ter bebido nos últimos 30 dias despencou de 42% para 5%; os que fumam cigarros diariamente, de 23% para 3%; e os que usaram maconha, de 17% para 7%. A média na Europa é de 47%, 13% e 7%, respectivamente. Na América Latina, 35% dos jovens na mesma idade dizem ter consumido álcool no último mês e 17% fumam diariamente, segundo dados da Unicef. 

Nos EUA, calcula-se que cada dólar investido em esporte resulte numa economia de US$ 3,20 em custos médicos. No Canadá, estima-se que o esporte aumente a produtividade em US$ 513/ano por trabalhador. O investimento público inteligente no esporte é aquele que o potencializa como ferramenta para educação, saúde, segurança pública e bem-estar social, com resultados concretos e mensuráveis na diminuição de evasão escolar, melhora do desempenho acadêmico, prevenção de doenças, redução do consumo de drogas, declínio dos índices de criminalidade etc.

Há 30 anos a Constituição Federal determina que o Estado deve fomentar o esporte, incentivando-o como forma de promoção social, destinando recursos públicos prioritariamente ao esporte educacional. 

O desafio é otimizar os recursos públicos em articulação com diversos setores do governo e da sociedade, principalmente nas áreas de esporte, cultura, educação, saúde e segurança pública, garantindo o maior retorno possível dos investimentos que o povo faz e permitindo sonhar com um mundo onde todos possam ser estudantes e atletas, aprendendo e se desenvolvendo por toda a vida.


*Felipe Sigollo - Secretário-executivo do Ministério da Educação

*Pedro Trengrouse - Advogado e professor da Fundação Getulio Vargas

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