No Nordeste, Alckmin defende Bolsa Família, mas faz ressalvas a programa


Pré-candidato tucano recorreu ao mantra de emprego e renda em viagem pelo Maranhão e pelo Piauí

Thais Bilenky - Folha.com


Geraldo Alckmin (PSDB-SP) durante evento de sua pré-campanha em São Luís (MA) 
Wagner Ramos/Divulgação

Na metade do percurso, ele olhou pela janela e anunciou: “Estamos no Piauí”. Todos o encararam surpresos. “As nuvens sumiram. Mudamos de bioma. Em São Luís é amazônico, chove muito. Teresina é caatinga”, explicou.

O pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin (PSDB) voava em um King Air de 1983, avião com capacidade para nove pessoas fretado para levá-lo da capital do Maranhão à do Piauí no sábado (5) à tarde. No colo, um mapa da região com anotações a caneta.

“Estamos preparando um grande projeto para o Nordeste”, contou. “Tasso [Jereissati, senador pelo PSDB-CE] que vai pilotar. Cada estado está mandando as suas propostas.”

Em sua primeira visita à região desde que deixou o governo paulista, há um mês, Alckmin começou por dois dos estados mais pobres do país.

Em ambos, elogiou, sempre com ressalvas, o Bolsa Família, programa lançado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que ajudou a tirar o Brasil do mapa da fome e, de quebra, alavancou a popularidade do petista.

“O Bolsa Família é importante. Vamos manter e, tendo necessidade, até ampliar. Agora, você tem que fazer crescer a atividade econômica. O agronegócio vai crescer”, afirmou.

Em terras onde Lula lidera as pesquisas com folga —apareceu com 50% no último Datafolha, quatro posições à frente do tucano, com 3%—, Alckmin manteve o estilo.

Questionado inúmeras vezes sobre como atrairia o eleitorado petista, repetiu: “Emprego e renda, emprego e renda, emprego e renda”.

Como reverterá a rejeição do PSDB no Nordeste, indagou um jornalista piauiense. “Verdade, verdade, verdade”, respondeu. “Mentira tem perna curta. Segundo, coragem. Só não vou chegar ao exagero que ouvi em São Luís de que é preciso ter coragem de mamar em onça parida”, brincou.

Nos dois dias de viagem, o ex-governador falou de São Paulo diversas vezes por discurso, citou as referências costumeiras (o ex-governador Mario Covas, especialmente) e lembrou sua cidade natal, Pin-da-mo-nhan-ga-ba. Assim, pausadamente.

Teve o cuidado de tentar não soar paulistamente arrogante. “São Paulo é igualzinho ao Brasil. Tem regiões muito ricas e outras muito pobres. É investir em infraestrutura, hospital, universidade, tudo nas regiões que precisam mais. Nas mais ricas, você faz com o setor privado.”

Em Teresina, no diretório do PSDB, um homem quis saber “a receita de tucano para não ser preso”. “Não sei se entendi bem a pergunta”, reagiu Alckmin. A investigação que corria contra ele na Operação Lava Jato foi enviada à Justiça Eleitoral. Nessa nova condição, as punições, se houver, serão mais brandas.

“A rigor, a Justiça não tem cor. É para todos. Não desacreditamos da Justiça nem passamos a mão na cabeça de criminoso”, respondeu o ex-governador, recorrendo a mais um de seus bordões.

Depois de 40 minutos de voo, duas latas compridas de Coca-Cola, dois sanduíches de pão de forma com frios e alguns tabletinhos de doce de leite, o pré-candidato tirou um cochilo.

Acordou dez minutos depois, já em procedimento de descida. Na saída do avião, afivelou o cinto (não o de segurança, o da calça), sacudiu migalhas da camisa e se despediu do piloto.

“Parabéns, comandante.” O voo havia sido tranquilo.

Em São Luís, na véspera, a chegada em avião de carreira, como costuma viajar, fora pacata se comparada às imagens de seu adversário Jair Bolsonaro (PSL) em aeroportos país afora.

No caso do pré-candidato de posições controversas, simpatizantes se aglomeram para recebê-lo aos gritos de “mito”. Tudo é exibido em tempo real nas redes sociais.

Alckmin foi saudado por duas dezenas de aliados políticos maranhenses. Jornalistas foram convocados para uma coletiva lá mesmo no aeroporto, mas muitos não chegaram a tempo.

Em um debate com universitários, o ex-governador abusou do linguajar técnico, o que frustrou até aliados.

Ao final, o empresário Mauro Fecury —amigo de José Sarney, figura da elite local e dono do grupo educacional Ceuma, que promoveu o encontro— fez seu diagnóstico.

“Muito bom, ele é professor. Professor de cursinho. Só falta dançar mais no palco”, disse Fecury, rindo.

A falta de gingado foi notada quando dançou o bumba meu boi com índias maranhenses em um centro de convenções, no dia seguinte. Fixou um semblante alegre, balançou a cabeça sem que o corpo a acompanhasse e bateu palmas ritmadas.

Boa parte da claque, atraída do interior do estado pelo almoço grátis, deixou o evento antes do encerramento, sem ouvir Alckmin falar.

Mas o presidenciável não perde o rebolado, esse seu tipo de rebolado.

“Eu vou encerrar”, disse a estudantes no Ceuma, “porque contam lá em São Paulo de um crítico literário que foi apresentado a um jornalista e comentou: ‘Nós já dormimos juntos’. [E o outro:] ‘Dormimos?’ ‘Sim, na conferência do professor Calmon.’ Então, eu vou encerrar para não ter o risco de ninguém cochilar.”

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