Folha promove encontro com 11 eleitores de Alckmin


A Folha convidou 11 moradores de São Paulo, entre neta de metalúrgico do ABC paulista e empresários da capital, para falarem por que votarão no tucano em outubro

Anna Virginia Balloussier e Thaiza Pauluze - Folha.com

Debate com eleitores de Geraldo Alckmin (PSDB) na Redação da Folha, no dia 3 de maio - Gabriel Cabral/Folhapress

Picolé de Chuchu, apelido que acompanha Geraldo Alckmin (PSDB) desde sua campanha ao governo paulista em 2002, tem sua razão de ser. Agora resta ver se o jeitão pacato será um bônus ou um ônus para o pindamonhangabense que tenta pela segunda vez ser eleito presidente do Brasil.

Convidados pela Folha para contar por que pretendem ajudar Alckmin a materializar esse sonho, 11 de seus eleitores podem ver certo sentido —às vezes até graça— na alcunha salpicada no tucano pelo colunista da Folha José Simão. Mas se dividem sobre quão eficaz será o discurso mais sereno do tucano, num pleito polarizado como promete ser o de 2018.

Que bom que o ex-governador "é uma pessoa equilibrada", diz o engenheiro aposentado Fernando Magnani, 63. "Temos que tomar cuidado, escolher um candidato que não seja Antônio Conselheiro ou Capitão Marvel, que grita 'shazam', estala o dedo e resolve os problemas do Brasil."

Será que a mansidão se traduz em votos? O microempreendedor Luiz Fernando Ferreiro, 47, desconfia que não. "Ele é muito inerte, sobretudo quando fala dos falsos companheiros [como a falta de uma palavra mais dura sobre Aécio Neves]. Isso é muito ruim pra imagem dele. É o famoso picolé de chuchu, não quer ficar mal com ninguém", diz o dono de pizzaria.

As críticas levam a gerente de mídias sociais Isabella Catharina Campos Ribeiro de Siqueira, 23, a questionar se Luiz Fernando não seria um petista infiltrado no grupo —e ele, de camisa vermelha da Nike, brinca que a cor é mero acaso. "Sou avesso aos petistas!"

Não é o único racha da manhã da última quinta-feira (3). Espelhando a fragmentação interna do PSDB, o grupo diverge em vários tópicos. 

Há quem lamente que João Doria não seja o presidenciável tucano, e há quem só falte sugerir que Alckmin cante ao afilhado político versos famosos na voz de Beth Carvalho, "você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão".

Uns contam que pensariam duas vezes antes de votar nele caso prospere uma dobradinha PSDB-MDB, outros veem a eventual aliança como pragmatismo político. Idem sobre a manutenção de Aécio, o ex-presidente do PSDB feito réu, no quadro partidário.

Num ponto, ao menos, a trupe alckmista está de acordo: o ex-governador é a alternativa de político honesto nas urnas. Investigações contra ele, que envolvem um cunhado tido como seu braço-direito, não balançam a crença em sua integridade. 

"É um cara contra quem você só vê indícios: ele talvez esteja na planilha da Odebrecht, talvez tenha algo com Paulo Preto. É sempre no talvez. Ao passo que com outros do PSDB não existe a palavra talvez, exemplo do nosso querido Aécio Neves", ironiza Luiz Fernando.

O perfil dos entrevistados é tão diverso quanto as opiniões do grupo. O professor da rede pública Marcelo Bittencourt, 46, se declara liberal na economia e "francamente favorável às privatizações". 

Ex-funcionário da Embraer e da Vale, desafia alguém a dizer que tem saudades do tempo em que as ex-estatais não eram privatizadas. Nesse ponto, afirma, "me afasto de qualquer partido dito de esquerda".

Por outro lado, se diz entusiasta de ações sociais. "E a verdade é que o Lula trouxe isso para um patamar que o PSDB talvez não teria levado." Marcelo é pai de dois negros gays, filhos seus com a ex-mulher. "Costumo dizer que um cara branco de classe média, como eu, tem enorme dificuldade de entender [a urgência de ações afirmativas]." Diz esperar que "que quem quer que assuma a Presidência tenha preocupação com isso".

No debate, há dois homossexuais que militam por direitos LGBTQ, o auxiliar administrativo Erik Henrique da Silva, 29, e o estudante de direito Ari Gonçalves da Silva, 26.

Erik se vê como "ovelha negra da família, de maioria petista". Para ele, "a esquerda assume algumas pautas que talvez não sejam dela e consegue vender isso muito bem".

Esquerdistas, diz, "usam camisa do Che Guevara como se fosse herói, mas ele foi um dos que mais assassinou LGBTQ na história. Não só ele como o pessoal de Cuba. Esse negócio de vender PSDB como de direita, como partido que não olha para pobres, negros, homossexuais, é uma falácia".

"Sou nordestino [do Ceará], minha família é toda petista, tenho irmão Bolsominion [fã de Jair Bolsonaro]", conta Ari. Já ele é admirador do PSDB, no qual diz votar "por questões de direitos humanos". Mas nada de brigas por política na festa de Natal com parentes "porque sou ateu, graças a Deus", ele brinca.

Isabella também desvirtuou das preferências partidárias de seu clã. É neta de metalúrgicos de São Bernardo do Campo, berço político do ex-presidente Lula. "Meu avô me abomina. Ele tem aquela visão que o PT sempre fala, de que o PSDB é partido elitista, de empresário, distanciado das bases, rótulo que não é verdadeiro."


PICOLÉ DE CHUCHU

Dos 11, 5 concordam que a pacatez de Alckmin é um ativo eleitoral, 4 veem como problema e 2 não opinam.

"Ele não é picolé de chuchu, isso está engasgado", diz Márcia Marinho da Silva, 35, após repetidas menções na roda ao apelido. Alckmin, é, isso sim, "calmo, tenta achar soluções para que não haja confronto. Não estimula gritaria o tempo todo", afirma.

Se a alcunha colou, por que não usá-la a seu favor?, indaga o empresário Denys Alves, 43, que faz parte do Política Viva, grupo "contra a corrupção" liderado pela socialite e empresária Rosangela Lyra.

"Picolé de Chuchu acaba sendo favorável nesta questão de nós contra eles, coxinha vs. petralha. O que vai se destacar é ter um político calmo e equilibrado. [O jogador] Messi também é picolé de chuchu, não tem carisma, é um cara fechado. O Cristiano Ronaldo é o oposto. Mas tem que treinar todos os dias. Messi, não. Messi é um gênio", exemplifica Denys.

Para Fernando, o que falta a Alckmin é um bom banho de marketing político. "A forma como a carreira dele foi vendida em 2006 não foi eficaz."

Isabella diz que o pré-candidato "não precisa ter essa pinta de líder populista para ser um bom gestor púbico". Erik compara: "Veja [a chanceler alemã] Angela Merkel". A são-bernardense continua: "Ele não vai ser Lula e muito menos Bolsonaro, que chega com várias frases de efeito."
CORRUPÇÃO

Alckmin tem "lisura comportamental", segundo Silvia Horikawa, 45, "integridade", no parecer de Rodolpho Tamanini Netto, 66, e "reputação ilibada, mesmo com o cunhado envolvido em falcatruas", diz Luiz Fernando.

Duas opiniões que espelham um dos raros consensos no grupo: o benefício da dúvida que dão quando o tucano é associado a corrupção.

"Superior Tribunal de Justiça tira Alckmin da rota da Lava Jato em São Paulo", dizia manchete da Folha de 11 de abril.

A reportagem apontava como a corte superior enviou investigação aberta em 2017 contra o tucano —que perdeu foro especial ao abdicar do governo para disputar a eleição— para a Justiça Eleitoral de São Paulo. Com a decisão, o caso sai da alçada da força-tarefa paulista da Lava Jato.

Delatores da Odebrecht disseram ter acertado com Alckmin o repasse de mais de R$ 10 milhões por meio de caixa dois, para suas campanhas ao governo em 2010 e 2014.

Outro investigado no inquérito: Adhemar Cesar Ribeiro, um dos 11 irmãos de dona Lu, a mulher do ex-governador.

No ano passado, três correligionários de Alckmin disseram à Folha que seu cunhado é "um aliado fiel" e só faria algo com autorização expressa dele. Segundo delatores, Adhemar recebeu pessoalmente parte do dinheiro que a empreiteira teria dado à campanha do tucano.

Para os simpatizantes do presidenciável, as denúncias contra ele não passam de indícios nunca comprovados.

Há uma diferença cabal entre PSDB e PT, segundo Erik. "Todos os casos que chegaram [contra tucanos] foram isolados, a maioria das vezes era um secretário, um carguinho ali. Com o PT teve institucionalização da corrupção."

A Lava Jato, contudo, também atingiu grão-tucanos como José Serra e Aloysio Nunes.

Pode até ser que Alckmin não escape à regra, diz Isabella. "Vou falar uma verdade que dói, quebrar a ilusão de todo mundo", alerta antes de argumentar que a corrupção, infelizmente, está entranhada no sistema. "Não creio em alguém eleito que não esteja envolvido em caixa dois. Não existe santo, mas acredito que Geraldo está disposto a arregaçar as mangas para fazer reforma política no país."

Alguém lembra que "santo" era justamente o codinome que chegou a ser vinculado ao ex-governador em planilhas da Odebrecht que listam pagamento de propina (o apelido nunca foi comprovado).

Para Isabella, é preciso distinguir. "Não se trata de pegar para si [enriquecimento próprio], mas para se eleger. Não estou dizendo que é menos pior..." Ela acha que quem se aventurasse a abrir mão de esquemas como o caixa dois seria ejetado da política. 

Vem de Marcelo a autocrítica: o grupo falou de muita coisa espontaneamente, mas o assunto corrupção precisou ser estimulado pelas repórteres.

"Não veio como preocupação nossa. Há um grande dilema: o que acontece se descobrirmos que inclusive o governo do estado tem práticas análogas aos esquemas de corrupção [do PT]? Que mesmo sem beneficiar o próprio bolso, Alckmin tenha feito vista grossa [para eles]?A gente vota no PSDB assim mesmo?"

"Sim!", brada Isabella do outro lado da mesa.


AÉCIO NEVES

"Criticamos o PT por ter corrupto de estimação. Será que a gente é igualzinho a eles? Só sai do vermelho para o azul?" Agora Marcelo fala do senador mineiro que presidiu o partido até 2017 e virou réu no Supremo Tribunal Federal.

Enquete feita pela Folha há duas semanas revelou que Aécio ainda tem o apoio da cúpula do PSDB, que evita falar em sua expulsão. Um dos 41 membros da Executiva Nacional da sigla, Alckmin foi questionado e preferiu não responder. Publicamente, disse: "É claro que o ideal é que não seja candidato [à reeleição]".

"Se o PSDB se tornar tolerante com um Aécio da vida, vai ser muito ruim", afirma Marcelo. "Costumo dizer na roda de amigos que [Alckmin] é o famoso gato, não sai do muro", conta Luiz Fernando. Para o dono de pizzaria, foi felino também ao deixar "de ser mais enfático" sobre Aécio. "Precisa cortar na carne."

Márcia pondera: será que "essa ruptura às vésperas da eleição" seria uma estratégia inteligente? "Ele tem força interna [no PSDB] talvez não seja feito isso [afastá-lo] agora." 
ALIANÇA COM MDB

MDB é outro tópico que racha os participantes da conversa. Fernando levanta a bola quando elogia o governo Michel Temer. A oposição "disse que o presidente atual ia cortar o Bolsa Família, e muito hábil, muito bem assessorado, o que ele fez? Deu aumento para o Bolsa Família. Essas respostas reativas, com interesse de criar um ambiente favorável, são necessárias", afirma.

Correligionários do ex-governador veem uma aliança com Temer, também ele pré-candidato ao Planalto, como um abraço dos afogados, dada a alta rejeição de ambos no primeiro turno —29% e 64% respectivamente, segundo pesquisa Datafolha de abril. 

Temor compartilhado por alguns dos eleitores convidados pela Folha. A união seria um "equívoco" que o levaria a desistir de Alckmin, afirma Marcelo. "O MDB é tóxico."

Luiz Fernando está com ele. "O politico que se aliar a esses caras... Não tem um salvo de corrupção: [José] Sarney, Eunício [Oliveira], Jader [Barbalho], sobretudo o nosso presidente. Se Alckmin se aliar a esse câncer, é derrota certa."

Erik acha que "não tem jeito": parcerias afins são "inevitáveis num presidencialismo de coalizão". Mas diz preferir uma chapa puro-sangue. 

Como vice aprovaria o senador Tasso Jereissati (CE) e o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto --insatisfeito com a eleição interna que escolheu o presidenciável do PSDB, ele já disse que "Geraldo assumiu todo o seu lado de mediocridade, o lado de uma pessoa limitada, que até as piadas que conta são meio jeca" ("a única verdade que ele falou é que eu sou meio jeca", devolveu o ex-governador).

Mas a política dá voltas, disse Erik. "Ontem até postei a Manuela [D'Ávila, pré-candidata do PC do B] abraçada com Paulinho da Força." Presidente da Força Sindical, o deputado adaptou "Para Não Dizer que Não Falei das Flores" ao votar pelo impeachment de Dilma em 2016 ("Dilma, vai embora que o Brasil não quer você/Leve o Lula junto e os vagabundos do PT"). Dois anos depois, assinou manifesto pró-Lula.

Não dá para ignorar que o MDB tem capilaridade no país e uma bancada ainda expressiva no Congresso, lembra a "turma pragmática" da mesa. 

"Precisamos de programa de governo. Todos que se adequarem a ele, vamos aceitá-los. Não vamos discriminar essas pessoas. Enquanto [Temer] não estiver julgado e condenado, é considerado inocente", diz Fernando.


JOÃO DORIA

A menção ao ex-prefeito desperta paixões. Para o bem ou para o mal. Parte acha que Alckmin deve manter um pé atrás com o apadrinhado político que ensaiou tomar seu lugar como presidenciável do PSDB.

Para Fernando, o tucano caçula deveria ter a humildade de esperar sua vez —ainda lhe faltaria cacife político para um cargo presidencial. "Acredito que tenha sido mal assessorado quanto teve ego inflado e se achou gabaritado para pleitear a Presidência."

Isabella é pragmática. "Não acho que o Alckmin confia nele mais, mas aí não é questão de confiança." Eles precisam caminhar juntos caso queiram ser bem-sucedidos em seus projetos eleitorais, afirma. 

Doria, para ela, "representa o que a maioria almeja ser: empresário, rico". Mas derrapou algumas vezes, como ao brigar com Alberto Goldman, velha guarda do tucanato, chamando-o de "velho de pijama".

"Como uma pessoa da envergadura dele, de elite, de educação, pode ter tido desrespeito tão grande com um senhor do PSDB? Mostrou que não tem equilíbrio", diz. 

Na mesma toada vai Marcelo. "Que ligasse e dissesse dez mil impropérios pro Goldman, mas tornar público... Quem quer alguém a seu lado que a qualquer momento passa a perna em você? Ele é um desagregador político."

Para Ari, Doria cometeu "o pior erro da vida ao sair da prefeitura", movimento que assombra outro tucano, José Serra, desde 2006. "E ele não tem história política dentro do PSDB", acrescenta Erik.

Silvia trabalha com saúde, na área administrativa do município, e vê o ex-prefeito com maus olhos nesse campo. "Ele tem o marketing dele, que é muito bom. Conseguiu uma grande economia [nas contas públicas], mas a altos custos. Vejo quem deixamos de atender por corte [de recursos]. Pra mim, Doria pode ser ótimo gestor, mas da empresa privada dele."

Luiz Fernando se diz "fã incondicional" de Doria, que para ele deveria ter sido o candidato do PSDB à Presidência. Se Doria "é oportunista"? Sim, é. "Mas no bom sentido da palavra", diz —de ver uma oportunidade e lutar por ela.


ESQUERDA VS. DIREITA

Há certa alergia, no grupo, à ideia de que o PSDB possa ser enquadrado como direita. "Tenho muito medo do maniqueísmo, bom contra mau é muito perigoso", afirma Marcelo.

Para Renata, "o brasileiro está cobrando posição, alguém que fale o que pensa e que não fique jogando pra plateia". Alckmin tentaria fugir dessa armadilha generalizante. "Acho que ele não quer se colocar como direita nem esquerda." 

Emenda Fernando: "A gente tem que sair da questão jacobinos vs. girondinos, esquerda vs. direita".

Faz sentido falar em lado x e lado y? É o que questiona Erik, com credenciais que o senso comum gruda no campo progressista: é homossexual e integra o Esquerda Pra Valer, movimento interno do PSDB. "Digo que, se tiver que me colocar num potezinho, falo centro-direita, mas não me vejo em nenhum pote." 


POR QUE ELES QUEREM ALCKMIN

1 Lisura, reputação ilibada e honestidade são as principais características que os eleitores atribuem a Alckmin. É a opção de político honesto nas urnas, dizem

2 Denúncias contra o presidenciável são dribladas por eles com o argumento de que não passam de indícios, nunca comprovados 

3 Alckmin leva parte do crédito, na opinião dos eleitores, por São Paulo ser a principal metrópole econômica do país. É o estado que funciona e, nos últimos anos, graças ao tucano, afirmam

4 Eles apoiam privatizações, principalmente para gerar novos empregos num cenário de crise. No tucano, buscam o candidato que vai empunhar a bandeira 

5 Em tempos de polarização e discursos inflamados, Alckmin é o equilíbrio, defendem. A aparente calma, que lhe rendeu o apelido de Picolé de Chuchu, é, para alguns eleitores, um ativo eleitoral

6 Capacidade administrativa e experiência também são apontadas como vantagens do tucano no pleito. Sua suposta falta de carisma seria superada pela imagem do bom gestor 

7 Eleitores rejeitam a pecha de que o partido tucano seja elitista, de ricos. E defendem que Alckmin olha sim para o lado social, os direitos humanos e as minorias

8 Eles querem que o PSDB, na figura de Alckmin, volte às raízes da social democracia: liberal na economia, mas com programas que diminuam injustiças sociais


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