"Ciência sem critérios", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


Como tanta coisa no governo Dilma Rousseff (PT), o investimento no programa Ciência sem Fronteiras revelou-se uma ideia não de todo má posta em prática de modo canhestro —se não irresponsável.

O resultado, pífio diante das expectativas propagandeadas, aí está: apenas 3,8% dos estudantes beneficiados com bolsas para estudo no estrangeiro frequentaram universidades de primeira grandeza.

Já se sabia que o programa tivera muito de turismo e pouco de excelência acadêmica. Pôr cifras na prodigalidade sem critérios, como fez reportagem desta Folha, traça um panorama ainda mais desanimador do que muitos supunham.

O levantamento tomou por base as 25 universidades mais bem colocadas no ranking internacional Times Higher Education (THE), como Harvard (EUA), London School of Economics (Reino Unido) e Universidade de Toronto (Canadá).

Meros 4.084 dos 108.865 bolsistas do Ciência sem Fronteiras conseguiram vagas para estudar nessas universidades. Nem de longe se poderia dar por alcançado o objetivo do programa de treinar brasileiros "nas melhores instituições e grupos de pesquisa disponíveis (...) de acordo com os principais rankings internacionais".

Graças às bolsas pródigas, mais brasileiros estudaram em Portugal do que nas 25 campeãs da lista THE. Só para a Universidade de Coimbra —classificada no grupo das 401-500 melhores, enquanto a USP figura entre as 201-250– foram 952 subsidiados, talvez por não dominarem outros idiomas.

Em valores aproximados, as bolsas variam de US$ 1.000 a US$ 3.000 mensais, conforme o nível acadêmico (de graduação a pós-doutorado). Há um acréscimo anual de US$ 3.400 com auxílios para moradia e livros, por exemplo.

A relação entre custo e benefício, tomando em consideração tanta liberalidade acadêmica, não parece favorável. Gastar R$ 3,5 bilhões anuais (valor orçado para 2015) com poucos milhares de estudantes no exterior, a maioria de graduação e sem perspectiva de absorver conhecimentos e técnicas úteis para o país, equivale a uma boa definição de desperdício com o dinheiro do contribuinte.

Nada de novo, porém. Gastar sem discernimento foi o que mais se fez no governo Dilma —com o BNDES, com o Fies, com as desonerações, com o Pronatec–, e agora temos todos de pagar a conta com um dos maiores retrocessos econômicos que o país já viveu.

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