Haddad deixa alunos sem lápis, caderno e uniforme escolar


PAULO SALDAÑA - FOLHA.COM


Quase três semanas depois do início das aulas, milhares de alunos ainda não receberam da gestão Fernando Haddad (PT) os uniformes e os materiais escolares básicos da rede municipal de São Paulo, como lápis, caneta e caderno.

O atraso da prefeitura na entrega das roupas e calçados atinge cerca de 124 mil crianças. Com os kits escolares, materiais pedagógicos essenciais para atividades em classe, a demora prejudica ainda mais alunos –541 mil, dois terços da rede municipal.

E a própria gestão Haddad prevê mais três semanas para regularizar a situação.

A falta do material escolar tem levado famílias a comprar artigos por conta própria para aproveitar as aulas.

Um exemplo é a dona de casa Aline Valadares, 32, mãe de Fábio, 7, que não recebeu nem uniforme nem kit escolar. "Comprei caderno e lápis, mas não tinha condição de comprar tudo. Estamos nos virando com alguns materiais que sobraram do ano passado."

Zanone Fraissat/Folhapress 
Filho de Aline Valadares (ao fundo), Fábio, 7, mostra tênis que a mãe precisou comprar depois do atraso no uniforme 

Fábio estuda na escola municipal Malba Tahan, na zona leste. Por enquanto, está usando o uniforme do ano passado. "Mas tive que comprar um tênis porque o que a prefeitura deu em 2015 não cabe mais", diz a mãe. Fazem parte do conjunto dado pelo poder público, além do tênis, jaqueta, calça, blusão, bermuda, cinco camisetas e cinco pares de meia.


SOBRAS

A prefeitura não detalhou quais alunos e escolas são mais atingidos. A reportagem apurou que os atrasos dos materiais atingem todas as etapas, das creches às escolas de ensino fundamental.

Em ao menos quatro escolas de regiões diferentes, os kits chegaram só para alunos dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano).

Segundo diretores consultados pela Folha, funcionários têm improvisado sobras de materiais dos anos anteriores para atender os alunos.

"Aqui não chegou para os mais novos, temos usado algumas sobras. A gente depende da entrega do município, mas é inadmissível que os pais comprem", diz uma servidora da escola José Mario Pires Azanha, também na zona leste, que pede para não ser identificada. "Às vezes a gente mesmo coloca do bolso para os alunos não ficarem sem."

A filha da dona de casa Ester Dias, 30, que estuda na unidade, ficou sem material, mas recebeu uniforme. "Eu tive que comprar, mas comprei um caderno só", diz.

"Não deram nenhuma previsão na escola", completa Ester. Como a filha Yasmin está na 4ª série, ela está desde a volta às aulas sem acesso a materiais como caderno de desenho, canetinhas e giz de cera, por exemplo.


IMPACTO

Não ter os materiais escolares no início das aulas tem impacto negativo no trabalho educacional e pedagógico, afirma Cisele Ortiz, coordenadora do Instituto Avisa Lá, que capacita educadores.

"O material é conteúdo de trabalho para o professor. No início do ano é quando o docente precisa dar orientações de organização, o aluno vai etiquetar o material. Isso cria o comportamento de aluno nas crianças, até mesmo para cuidar de tudo", afirma.

"Muita coisa tem que mudar nos processos de compra para que a proposta pedagógica seja garantida com o uso do materiais", diz.

A entrega de materiais e uniformes é feita pela prefeitura desde 2002. Os atrasos eram recorrentes, mas, em 2015, a gestão Haddad comemorou o fato de, "pela primeira vez na história", conforme divulgou na época, os produtos terem sido entregues antes do início das aulas.

A prefeitura afirma que serão fornecidos neste ano 850 mil kits de materiais escolares e que o atraso será resolvido até 24 de março.

Sobre os uniformes, a gestão prevê a entrega de 620 mil conjuntos –afirma que o restante deve ser finalizado "nos próximos dias".

A gestão Haddad tem patinado em metas na área da educação. O prefeito já admitiu nesta semana que, dos 20 CEUs (Centros Unificados Educacionais) prometidos, deve conseguir entregar metade, deixando os demais em obras (só um já foi concluído). Das 243 novas creches anunciadas pelo petista, mais de metade não deve ficar pronta no final do mandato.

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