"O que é bom não interessa", editorial do Estadão



O ESTADO DE S. PAULO 


A propósito do governo Fernando Haddad, não custa relembrar uma velha verdade que sua hábil retórica enganadora tentou esconder – cedo ou tarde, a realidade sempre acaba por se impor. Um bom exemplo disso é a constatação, com base em dados irrefutáveis, da enorme distância que no caso dos corredores de ônibus separa a promessa de sua efetiva concretização. Na reta final de seu mandato, já se sabe que ela não irá além de um terço, um resultado pífio que contrasta penosamente com a “revolução” na mobilidade urbana que o prefeito julga estar fazendo.

Nos próximos dois meses, Haddad pretende entregar 32 km de corredores. O primeiro deles, já pronto, é o da Avenida Luiz Carlos Berrini, com 3,3 km, que demorou 26 meses para ser construído, ao custo de R$ 45 milhões recebidos do governo federal por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e pelo qual devem passar 100 mil pessoas por dia. Ele vai servir como ponto de articulação entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul, com o futuro corredor Perimetral Bandeirantes até São Mateus, na zona leste, que está em licitação.

Outros dois corredores serão entregues em janeiro, segundo o secretário municipal de Obras, Roberto Garibe: o Inajar de Souza, na zona norte, e o M’Boi Mirim, na zona sul. E mais um em fevereiro, o Binário Santo Antônio, também na zona sul. No total, serão 66,3 km. No primeiro trimestre de seu mandato, a meta fixada por Haddad era projetar, licenciar, garantir financiamento e construir 23 corredores com 173,4 km de extensão.

As duas principais razões pelas quais se ficou tão distante da meta são erros cometidos pela Prefeitura. Um deles foi de avaliação: a confiança na vinda de recursos prometidos pelo governo federal, que atrasaram ou minguaram por causa da grave crise econômica do País. Como essa crise já era evidente desde 2014, Haddad deveria ter se precavido e buscado recursos próprios, num esforço que a importância dos corredores justificava.

O outro, tão ou mais grave, foi a má qualidade dos projetos, que parecem ter sido elaborados às pressas e com pouco-caso, tais as lacunas e imperfeições neles apontadas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM). Seu bloqueio por esse motivo, até que as falhas fossem corrigidas, acarretou atrasos. Ele chegou a suspender duas licitações por três vezes, numa clara indicação de que predominou nesse caso uma combinação de incompetência e desleixo. Na última vez que isso ocorreu, em meados de 2015, a decisão do TCM atingiu três corredores com 44,4 km de extensão e custo estimado de R$ 1,2 bilhão.

O histórico do problema deixa muito mal o governo Haddad, por sugerir que não se trata de casos isolados, mas de preocupante reincidência. Antes, no começo de 2014, o TCM já havia suspendido uma licitação de corredores no valor estimado de R$ 4,7 bilhões, por projeto básico incompleto e falta de especificação técnica. Em dezembro do mesmo ano, foi bloqueada licitação de R$ 2,4 bilhões por falta de recursos orçamentários comprovados.

Num desses casos, o conselheiro responsável pela suspensão foi João Antônio, ex-vereador pelo PT e ex-secretário de Relações Institucionais de Haddad. Não se pode portanto, como costuma fazer o PT, apelar para a tática esperta de atribuir a adversários a culpa por seus erros.

O caso dos corredores é especialmente grave, porque o aumento do número dessas vias – já testadas em administrações anteriores – constitui a única iniciativa de fato importante de Haddad no setor de transporte coletivo. Em vez de se empenhar a fundo nesse projeto, caro mas de bom retorno comprovado para aumentar a velocidade média dos ônibus, o prefeito preferiu o fogo de artifício das faixas exclusivas – baratas, improvisadas, precárias, de retorno limitado e duvidoso – com as quais fez e continua a fazer grande estardalhaço para enganar os incautos e ganhar votos.

Enquanto os corredores andam a passo de tartaruga, as faixas se multiplicam rapidamente, já tendo atingido 481 km.

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