Fracasso anunciado: Programa de combate ao crack da gestão Haddad tem debandada


Ainda com o uniforme azul do serviço de varrição de rua do programa, usuários passam o dia em meio ao 'fluxo' de compra e venda de crack no centro de SP 

Artur Rodrugues - Folha.com

Diego Padgurschi/Folhapress 

"Dá pra contar nos dedos os que continuam no [programa] Braços Abertos desde que eu entrei. Uns desistem, outros somem, vão presos", diz Ivanilson Pedro Ribeiro, 42, em um quarto de hotel na região da cracolândia, no centro de São Paulo.

Ivanilson afirma ter sido um dos primeiros a entrar no programa criado pela gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) em janeiro de 2014.

Baseado no conceito de redução de danos, o Braços Abertos consiste em incluir os usuários de crack em um trabalho de varrição de ruas.

Se trabalharem de segunda a sexta-feira, recebem um salário de R$ 509 por mês, além de alimentação, hospedagem e assistência. A ideia é que, com essa renda, eles possam ao mesmo tempo melhorar a qualidade de vida e diminuir o uso da droga.

Em um ano, porém, essa frente de trabalho tem sido aos poucos desidratada: 25% dos usuários que percorrem os arredores da cracolândia com uniformes azuis do programa largaram esse serviço.

Segundo o dado mais atualizado da prefeitura, no final de agosto, eram 298 pessoas, contra 399 no mesmo período do ano passado.

A Folha conversou com dezenas de usuários de crack da região. Eles dizem que muitos não se adaptam à rotina de trabalho e acabam abandonando o programa. Deixam de receber o dinheiro, mas boa parte deles continua com hospedagem e alimentação garantidos pela gestão.

Dos 505 oficialmente cadastrados como participantes do Braços Abertos, mais de 200 estão nessa situação.

Usuário de crack, Walter de Lima, 44, vive na rua desde criança. Chegou a trabalhar por seis meses no serviço de varrição do programa.

"Eu tenho hipoglicemia e passava mal. Aí eles me deixavam no posto de saúde", relata. "Aí eu larguei", completa ele, decepcionado com a falta de opções de trabalho.

Já os que continuam no programa afirmam ter melhorado de vida, mas sentem falta de uma porta de saída.

"Se eu falar que eu não gosto do Braços Abertos é mentira, mas já estou perdendo tempo aqui sem carteira assinada", afirma Ivanilson Ribeiro. Ele diz que há algum tempo não usa a droga e que gostaria de um emprego na sua profissão, de padeiro.

Assim como outros que conversaram com a reportagem, ele se incomoda com a falta de privacidade e a situação dos hotéis credenciados pelo programa. Além da atmosfera de abandono nesses locais, há relatos de frequentes invasões da polícia e de furtos de objetos pessoais.


Diego Padgurschi/Folhapress 
Fluxo de usuários de crack na região central de SP, em frente a base da Policia Militar 


FILA

A tenda do Braços Abertos fica cravada no meio do chamado fluxo, onde acontece a compra e venda de crack.

Quando a reportagem esteve no local, um grupo disputava roupas doadas despejadas no chão. Assim como do lado de fora, o cenário dentro da tenda é de degradação.

Os banheiros estão quebrados, e a televisão, único passatempo de muitos por ali, estava em manutenção.

Em frente ao local, muitos dizem aguardar há meses por uma vaga de trabalho. "Faz dois anos que estou na rua sem assistência", diz Francisco Heudes, 32. "Preciso de emprego para me levantar."

Figura assídua na cracolândia, o padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, diz que as avaliações da gestão Haddad sobre o programa costumam ser muito "triunfalistas". "O que nós percebemos é que o fluxo permanece, o tráfico não diminuiu, que o número de usuários é grande e que hoje São Paulo tem várias filiais da cracolândia da Luz", diz.


DESINTOXICAÇÃO

A premissa do programa, de redução de danos, divide opinião de especialistas.

A psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, diz não se surpreender com a diminuição de adeptos do trabalho no Braços Abertos. Para ela, dificilmente o projeto seria eficaz para pacientes mais graves.

"Primeiro deveria desintoxicar, atingir a abstinência, estabilizar a doença e depois a reinserção social. No caso de pacientes que não são tão graves dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo."

Ana Cecília diz também que o tratamento não pode se prolongar indefinidamente.

"O indivíduo deve fazer um curso, melhorar de vida, não pode ficar com a vassoura na mão o resto da vida".

Professor da Unifesp e coordenador de treinamento de agentes do Braços Abertos, o psiquiatra Dartiu Xavier considera o programa o mais eficaz entre os adotados na região até hoje.

"O fato de alguns não se adaptarem ou ter ajuste, isso acontece em todo programa. Não é todo mundo que aceita o pacote completo", diz.

Entre os ajustes que poderiam ser feitos, diz, está na questão do trabalho. Para ele, deveria haver mais opções, aproveitando as aptidões de cada um. "Se a pessoa não está conseguindo trabalhar, deveria ser incluída em outra atividade", diz. "Se sou mecânico, devo continuar sendo mecânico", completa.


EM TRATAMENTO


A gestão Fernando Haddad (PT) diz que, entre os beneficiários fora das atividades de trabalho do programa Braços Abertos, estão pessoas em tratamento médico, cadeirantes, grávidas e adolescentes. A prefeitura afirma ainda que busca opções para aumentar a oferta de serviço.

Segundo o município, o objetivo é que todos participem de atividades, com exceção das pessoas com drásticos impedimentos de saúde.

Atualmente, há beneficiários em ações de capacitação nas áreas de estética, reciclagem de pneus, manutenção predial, reciclagem e costura.

"Considerando a extrema vulnerabilidade social da população atendida pelo programa, o fato de um beneficiário, mesmo fora das atividades laborais, receber tratamento de saúde para doenças graves, moradia e alimentação diária representa uma melhora em sua situação, dentro da lógica da redução de danos", afirma a gestão.

A administração nega ter havido redução no número de beneficiários do Braços Abertos e anunciou que vai criar 50 novas vagas.

De acordo com a prefeitura, 800 pessoas já passaram pelo programa. "Entre os fatores que explicam a alta rotatividade estão o retorno à família e a transferência para programas mais avançados da rede socioassistencial", diz a nota.

Ainda segundo a gestão Haddad, 16 beneficiários foram encaminhados à empresa Guima Conseco para atuar em equipamentos públicos com carteira assinada.

Uma capacitação para encaminhamento ao trabalho formal foi criada a partir da experiência. Oito pessoas, no momento, estão na fase "pré-emprego formal", que inclui formação profissional e preparação para a apresentação ao trabalho –confecção de currículo, maneira de se portar e se vestir, etc.

Outros quatro beneficiários estão trabalhando em outros locais, de restaurante popular a escola privada. A expectativa é que eles fiquem mais seis meses no programa até obterem autonomia.

A tenda do Braços Abertos na região central da capital paulista está passando por reforma desde o início do mês, afirma a prefeitura.

Os banheiros serão reformados, e uma estrutura de alvenaria será construída. O aparelho de televisão está em manutenção e será reposto.

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