"Em Finados, prefeitura mata árvores", artigo de Leão Serva


Folha de S.Paulo


Foi bastante simbólico que na semana do feriado do dia dos Mortos, a prefeitura tenha iniciado na rua Maranhão, no centro, o programa que vai matar milhares de árvores em toda a cidade. Foi um ato falho freudiano. O massacre em curso em Higienópolis é apenas "a ponta do iceberg", nos próximos meses a administração do prefeito Haddad vai levar essa ação a todo o município.

São Paulo é uma cidade carente de vegetação. As árvores criam sombra que refresca a temperatura, jogam oxigênio na atmosfera, filtrando o ar, embelezam a paisagem e atraem passarinhos. Reduzem em até sete graus a temperatura de alguns bairros, face às zonas da cidade sem vegetação. Elas exigem cuidados, manutenção, mas uma jardinagem que é barata perto de outros tantos gastos em obras públicas.

Alguém de bom senso poderia pensar: mas provavelmente só vão cortar árvores doentes. Só que não: os técnicos da prefeitura não têm revelado precisão em seu diagnóstico. Tempos atrás condenaram à morte a grande figueira da praça Villaboim. Os moradores protestaram, chamaram para analisa-la um técnico renomado do Instituto Biológico, que disse: a planta precisa de cuidado, não é necessário cortá-la. Ela segue lá, garbosa como antes. Depois foi a vez de outra figueira, a uma quadra, salva pelos moradores quando a motosserra já estava ligada. E também ali o diagnóstico estava exagerado.

A alegação para os cortes é a de que árvores de Higienópolis são vítimas da erva-de-passarinho. É uma parasita que pode ser evitada com cuidados frequentes, simples jardinagem. A prefeitura não cuidou, não fez manutenção, zeladoria, deixou a erva crescer, e agora se apressa para matar as árvores. É uma loucura, como se não precisássemos delas.

Outra pessoa de bom senso poderia pensar: as árvores decepadas serão substituídas por novas. Só que não. O prefeito Haddad enxugou o orçamento da secretaria do Verde, que cortou as verbas de produção de mudas e, como outros programas bem-sucedidos, acabou com o plantio intenso de árvores que marcou a gestão do secretário Eduardo Jorge (2005-2012). Poucos tempo atrás nem sequer havia mudas nos estoques da prefeitura.

A forma estabanada como está sendo cortada a vegetação não é fruto doentio de uma desatenção da administração. Trata-se de um programa oficial com nome perverso: Plano Intensivo de Manejo Arbóreo. É uma designação soviética (na Rússia sob Stálin e seus sucessores, as ações de governo tinham nomes contrários ao seu objetivo de fato, tipo uma missão militar se chamar "Paz"). Manejo remete a cuidado, é palavra usada pelo jargão ambientalista para ações que vão explorar uma pequena área preservando uma floresta etc.

Se a prefeitura não sabe cuidar de árvores, devia chamar o Instituto Biológico (governo do Estado), que tem grande experiência. Poderia fazer convênios também com associações de moradores, em vez de surpreendê-las com o barulho das serras, chamá-las para cuidar cautelarmente das plantas.

Cada árvore é um ser vivo, com problemas que exigem observação e análise. Um agrônomo ouvido pela Folha diz que elas podem durar cem anos, mas que o descaso oficial reduz sua vida a 60/70 anos. Levaram décadas para chegar ao tamanho que têm as que estão sendo cortadas. Até lá, ficaremos sem sombra, sem passarinhos, sem beleza.

Para quem paga impostos não é muito pedir que a Prefeitura contrate jardineiros em vez de serradores de árvores, contrate técnicos de qualidade para analisar questão tão sensível. A pressa e o voluntarismo obtuso, nesse caso, podem nos deixar uma herança trágica.


*Leão Serva é ex-secretário de Redação daFolha, é jornalista, escritor e coautor de 'Como Viver em SP sem Carro'. 


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