"Duplo desgaste", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


Não surpreendem os baixos índices de popularidade do prefeito Fernando Haddad (PT), registrados na última pesquisa do Datafolha. Praticamente a metade (49%) dos paulistanos considera ruim ou péssimo o seu desempenho.

A avaliação negativa, que recuara para 28% em setembro de 2014, alcançou 44% em fevereiro deste ano, subindo cinco pontos desde então. O movimento reflete os humores gerais que se seguiram à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), cobrada pelas promessas descumpridas e encurralada por crises na política e na economia.

Como consequência de sua rejeição, Haddad patina em levantamento sobre intenções de voto para o pleito municipal, no ano que vem. Se a disputa fosse hoje, o alcaide teria 12% das preferências, mesmo patamar de Marta Suplicy (PMDB) e José Luiz Datena (PP) –e muito atrás do apresentador e deputado federal Celso Russomanno (PRB), que lidera com 34%.

Ademais do claro estigma que hoje representa sua associação com o PT, e com o ex-presidente Lula em particular, Haddad experimenta os efeitos de suas iniciativas na administração municipal.

Tendem a ser, contudo, mais polêmicas do que propriamente impopulares. A implantação de ciclovias, por exemplo, ainda conta com 56% de paulistanos a seu favor.

O apoio, que chegara a 80% em setembro de 2014, terá caído devido aos exageros de Haddad, afinal com poucas bandeiras a exibir?

Pode-se conduzir o raciocínio em outra direção. Talvez parte dos entrevistados tenha preferido rejeitar em bloco o prefeito petista, mesmo se concordando com o acerto em linhas gerais das ciclovias.

Outro tema que poderia despertar grande inconformismo é a redução da velocidade máxima dos carros nas principais ruas e avenidas.

A população se mostra dividida com relação a essa iniciativa (47% a favor, 47% contra) –mas, num paradoxo, chega a 74% a proporção dos que a consideram eficiente, em maior ou menor medida, na redução de acidentes na cidade.

A rejeição de Haddad se mostra maior, portanto, do que a capacidade para apoiar as decisões mais controversas que ele tomou.

É que, na verdade, o prefeito pouco fez de tudo o que prometeu na campanha eleitoral, e sobretudo os moradores da periferia sentem cada vez mais o peso desse abandono. A adoção de medidas polêmicas na área do urbanismo não resolve carências bem mais prementes na educação e na saúde.

Soa pouco mais que uma desculpa, assim, a vinculação das parcas realizações às dificuldades orçamentárias da cidade –que o governo federal não pôde resolver.

O prefeito sofre de dois lados, portanto, com o PT: conhece o desgaste do lulismo, sem as vantagens que este poderia ter-lhe oferecido. Mas não se trata de vítima; à sombra de Lula, e petista desde sempre, Fernando Haddad colhe sua parte no repúdio que se volta contra um apodrecido sistema de poder.

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