Movimentos de sem-teto cobram taxa de morador de invasão em São Paulo


Fernanda Mena e Felipe Souza - Folha.com

Avener Prado/Folhapress

"Eu pagava R$ 450 de aluguel num cômodo em São Mateus [zona leste de SP], e meu marido gastava cinco horas para ir e voltar do trabalho. Hoje, pago R$ 200 e moro no centro. O que você acha que eu prefiro?", diz a ex-vereadora de Santa Cruz Cabrália (BA) Neide Leonel Vidotto, 70, no espaço onde vive, no antigo Cine Marrocos.

Comprado pela prefeitura para abrigar a Secretaria de Educação, o prédio histórico foi invadido pelo MSTS (Movimento Sem Teto de São Paulo) em novembro de 2013.

A vantagem que dona Neide vê neste arranjo não é unânime e alguns movimentos sem-teto são hoje alvo de investigação do Ministério Público de São Paulo por supostas cobranças abusivas e práticas coercitivas de arrecadação de fundos, incluindo punições aos inadimplentes como proibição de visitas.

Avener Prado/Folhapress
Cartaz chama interessados para se instalarem em prédios ocupados por movimentos que lutam por moradia


Nas últimas três semanas, a Folha visitou 15 ocupações de movimentos sem-teto, de seis siglas distintas, no centro e na periferia de São Paulo.

Para o repórter que se apresentou como potencial morador, em todos os casos a entrada foi franqueada e informações, prestadas. Por outro lado, o acesso foi, em alguns casos, proibido ao repórter que se apresentou como tal, e as informações prestadas nem sempre batiam com as oferecidas ao potencial morador.

'CONDOMÍNIO'

Das ocupações visitadas, só as horizontais –feitas com barracos em terrenos–, articuladas pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e pelo MIVM (Movimento Independente de Luta por Habitação da Vila Maria), não cobravam taxas.

O MIVM faz rateios para gastos específicos de manutenção e mobilização. No MTST, cada morador é responsável por seus gastos. O movimento também recebe doações esporádicas.

Já nas ocupações em prédios, a cobrança é comum e entendida pelos moradores como uma espécie de "condomínio" para manutenção.

"Como funcionaria um prédio sem receber condomínio dos moradores? Limpeza? Conserto de elevador? Porteiro?", questiona Douglas Gomes, 37, presidente do MSTS, que cobra R$ 200 por mês.

No prédio do Cine Marrocos, os elevadores manuais são operados por ascensoristas, há 168 câmeras de vigilância e uma cozinha coletiva que serve até 80 refeições diárias gratuitas.

O MSTS foi criticado, no entanto, ao se aliar a um empresário para transformar o térreo do edifício em estacionamento, já desativado. Gomes diz que, por contrato, receberia cestas básicas. Questionado, não apresentou o documento à Folha.

"Nossa taxa de R$ 150 é pra pagar advogado, e não jogar as famílias na rua, porteiro e eu, que não trabalho de graça, né?", diz Nireudes de Jesus, 36, coordenadora do MLSM (Movimento de Luta Social por Moradia), responsável pelo prédio da Previdência Social na avenida Rio Branco, com 130 famílias.

Sem se identificar, a Folha acompanhou reunião para interessados em morar no antigo Hotel Lord, em Santa Cecília (centro), ocupado pela FLM (Frente de Luta por Moradia). A coordenadora do prédio, Maria do Planalto, disse que, para residir ali, seria necessário o pagamento retroativo de parte dos custos da ocupação nos últimos anos.

Nireudes, que já morou em uma ocupação da FLM, diz ter desembolsado R$ 1.300 para ingressar no local.

Procurada, a coordenadora Maria do Planalto negou cobrar "matrícula". A coordenação central da FLM disse que a prática não faz parte das recomendações do movimento, cujas cobranças seriam decididas em assembleia pelos moradores.

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