"Erro grosseiro e caro", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo


No momento em que a Prefeitura se prepara para, finalmente, licitar as linhas de ônibus urbanos e promete adotar medidas para melhorar o transporte público, um atraso no pagamento das empresas que atualmente o exploram, assim como o aumento do subsídio previsto para ele, mostram que a situação desse setor de grande importância para a população é pior do que se imaginava. E que apenas para recolocá-lo nos eixos – para reformá-lo então nem se fala – será necessário um esforço que vai custar caro aos paulistanos.

É a primeira vez que isso acontece no atual governo por falta de verba. A dívida chegou a R$ 90 milhões na última segunda-feira, de acordo com empresários do setor, o que significa que o orçamento previsto pelo prefeito Fernando Haddad estourou pouco mais de dois meses antes do fim do ano. A parte das empresas de ônibus convencionais seria de R$ 60 milhões, sendo os restantes R$ 30 milhões para as menores, formadas pelas antigas cooperativas de perueiros.

Para quitar o débito e fechar as contas até dezembro, o prefeito Haddad deverá aumentar o subsídio em R$ 144 milhões, segundo reportagem do Estado. Com isso ele chegará a R$ 1,544 bilhão (a previsão para 2015 era de R$ 1,4 bilhão).

Para os empresários, porém, o governo municipal está sendo excessivamente otimista, pois seus cálculos indicam que serão necessários recursos bem maiores, de R$ 400 milhões, para tapar o buraco. Como no projeto de orçamento para o ano que vem, enviado à Câmara Municipal por Haddad, o subsídio proposto é de R$ 1,9 bilhão, a conta das empresas para 2015 parece mais próxima da realidade que a da Prefeitura.

Como era fácil de prever, as empresas não tardaram a dramatizar a situação. Os pagamentos lhes são feitos diariamente, até cinco dias depois de os serviços terem sido prestados, de acordo com o número de passageiros transportados nas 1,5 mil linhas de ônibus da cidade. O desrespeito a esses prazos estreitos as teriam deixado em situação difícil, obrigando parte delas a buscar crédito no sistema bancário, a juros elevados, para honrar compromissos inadiáveis e evitar que o serviço sofresse transtornos

A essa altura, o que importa não é mais saber se a situação chegou ou não a esse ponto – que, se não foi exagerado, revela uma preocupante fragilidade desse importante sistema de transporte –, mas tentar determinar o que de fato aconteceu e de onde sairá o dinheiro destinado a fechar a conta.

Segundo a Prefeitura, o que provocou o estouro nas contas foi uma procura pelo serviço acima do previsto, em consequência dos programas de benefícios para os usuários, criados pelo atual governo, como o passe livre estudantil, que já beneficiou 500 mil alunos. Supondo que tenha sido isso mesmo o que ocorreu, trata-se do reconhecimento de um erro grosseiro. Lançar um programa dessa envergadura e não conseguir prever com um mínimo de precisão seu efeito financeiro é demonstração de notável incompetência.

O mais grave é que para tapar o buraco – que oscila entre R$ 144 milhões e R$ 400 milhões, segundo os cálculos da Prefeitura e dos empresários – Haddad tem de fazer um remanejamento de verbas. Programas de urbanização de favelas, controle de enchentes e construção de habitações de interesse social estão sofrendo cortes para que os ônibus continuem sendo bancados por subsídio que já está bem perto dos R$ 2 bilhões, apesar de suas notórias deficiências.

Esse episódio coloca novamente em evidência o problema do reajuste da tarifa, hoje de R$ 3,50. Já há sinais preocupantes de que Haddad – seguindo nisso o mau exemplo de antecessores seus – está propenso a deixar a tarifa congelada, de olho na reeleição que vai tentar no ano que vem. Se fizer isso, mesmo o subsídio de R$ 1,9 bilhão, por ele proposto, dificilmente será suficiente para manter o sistema. Com a inflação nas alturas, as empresas vão logo se queixar do aumento de custos. E seu poder de pressão, como se sabe, é grande.

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