"Dilma e o Velho do Restelo", editorial do Estadão


O ESTADO DE S. PAULO 


O passamento do programa Minha Casa Melhor, anunciado recentemente, não teve grande destaque, perdido que estava em meio aos já rotineiros funerais das promessas eleitoreiras feitas pela presidente Dilma Rousseff. Mas essa discrição não condiz com o forte simbolismo de um programa lançado por Dilma em 2013 para servir como prova definitiva da vitória de seu governo sobre os “pessimistas”.

Corria a segunda semana do mês de junho de 2013, época de crescente insatisfação da opinião pública com Dilma, cuja incapacidade administrativa já dava na vista. Estavam para estourar as grandes manifestações de rua que marcariam a vida nacional. A equipe que já cuidava da campanha de Dilma à reeleição percebeu o perigo que rondava a candidatura da petista e tratou de apelar ao “diabo” – o conselheiro a quem a presidente admitiu recorrer sempre que tinha necessidade de iludir o eleitor. A marquetagem do PT inventou então o “Minha Casa Melhor”.

A ideia não podia ser mais sedutora. Os beneficiários do programa Minha Casa, Minha Vida teriam crédito de R$ 5 mil por família, a juros de 5% ao ano e prazo de quitação de 48 meses, para comprar móveis e eletrodomésticos. Esperava-se atender 3,4 milhões de famílias, a um custo total de R$ 18,7 bilhões para os cofres públicos.
No dia do lançamento, ainda sob o impacto de uma pesquisa segundo a qual o nível de aprovação a seu governo caíra 8 pontos porcentuais, a presidente comemorou o fato de que, dali em diante, as mulheres brasileiras mais pobres não teriam mais de lavar roupa em um tanquinho, “que usa a energia braçal”, pois elas teriam acesso à “máquina de lavar roupa automática”.

Era a costumeira mágica do voluntarismo prevalecendo sobre a fria contabilidade dos recursos públicos. Hoje, como se sabe, iniciativas como essa só foram possíveis graças às chamadas “pedaladas fiscais”, promovidas por um governo irresponsável que empurrou suas obrigações com a barriga e “pendurou” suas dívidas em estatais e bancos públicos.

Apenas um ano e meio depois daquela folia, o Minha Casa Melhor foi interrompido – e, ao que parece, de vez. Nesse período, financiou somente 15,6% do total prometido. “Não há, neste momento, previsão de retomada de contratações do produto”, informou ao Estado a Caixa Econômica Federal, responsável por liberar o crédito. Os técnicos do banco já eram contrários ao programa mesmo antes de seu lançamento, pois consideravam que não havia como bancá-lo sem arriscar a saúde financeira da instituição. A Caixa não informa a quantas anda a inadimplência dos clientes do Minha Casa Melhor, mas estima-se que esteja em torno de 30%, ante 10% nas linhas de crédito oferecidas pela rede bancária.

Nada disso importava na época em que Dilma ainda conseguia vender ao País o sonho encantado da “justiça social”, cuja realização dependia somente de sua vontade. Num estalar de dedos da petista, os pobres passariam a ter casa própria e a comprar eletrodomésticos para equipá-la. No discurso em que lançou o Minha Casa Melhor, Dilma atacou aqueles que insistiam em apontar os riscos graves desse modelo de gestão e comparou os críticos ao “Velho do Restelo”, personagem de Os Lusíadas, de Camões. Disse a presidente que o Velho do Restelo ficava na praia “azarando” os navios de Vasco da Gama que partiam para as Índias, dizendo “não vai dar certo, não vai dar certo”. E ela emendou: “Hoje, o Velho do Restelo não pode, não deve e, eu asseguro para vocês, não terá a última palavra no Brasil”.

Um ano e meio depois, na casa do vigia Genival da Silva, que acreditou em Dilma e contava com o Minha Casa Melhor, ainda se lava roupa no tanque, os filhos dormem em colchões no chão e, nas janelas, papelão faz as vezes de cortina. Sobre as promessas da presidente, Genival lamenta: “Lembro que na campanha ela sempre falava que nunca ia acabar com esse programa. Mas isso é coisa que se fala da boca pra fora, né?”.

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