FHC e Clinton são homenageados como 'Pessoas do Ano' nos EUA


Marcos Troyjo - Folha.com


No próximo dia 12, a Câmara Brasil-EUA de Nova York realiza sua tradicional premiação "Pessoa do Ano". O evento, em sua 45ª edição, converteu-se ao longo dos anos no mais importante encontro de sociedade civil entre os dois países.

Neste ano, a câmara elegeu como homenageados Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. Dado o calibre dos ganhadores da premiação, a noite deve revestir-se de importância histórica, além de acolher o maior número de participantes desde que o prêmio foi instituído.

A propósito, há várias atividades paralelas, que reúnem a ex-secretária de Estado Madeleine Albright, os governadores Geraldo Alckmin (São Paulo), Marconi Perillo (Goiás) e Pedro Taques (Mato Grosso) e centenas de expoentes da academia e dos negócios. Uma verdadeira e multidimensional celebração das relações bilaterais.

Seria difícil identificar figuras no panorama de Brasil e EUA que, ao mesmo tempo, tivessem exercido maior influência do que FHC e Clinton nos seus respectivos países e compartilhado visões de mundo e proximidade interpessoal.

FHC liderou a estabilização da economia brasileira, ajudando a arrefecer dois monstros gêmeos que aterrorizaram a economia brasileira por décadas -inflação e dívida externa. Implementou ainda um lote de reformas modernizantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com isso, o Brasil credenciou-se a tirar grande proveito do boom global das commodities nos anos 2000 (embora grande parte daqueles benefícios já se tenha deteriorado na forma de desequilíbrio fiscal, apostas errôneas de política externa ou passividade na implementação de novas reformas estruturais).

Fernando Henrique irradiou seu prestígio pessoal por meio da diplomacia presidencial. Consolidou a vocação econômica do Mercosul (hoje desvirtuada na forma de aliança político-ideológica) e equilibrou as correntes de comércio em termos geográficos. Nos anos FHC, dizia-se que o Brasil era um "global trader".

No âmbito multilateral, FHC não priorizou a tradicional obsessão do Itamaraty em obter um assento permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Defendeu, ao contrário, uma maior participação brasileira em veículos onde se discutissem os reais interesses do Brasil, como poderia ser uma modalidade expandida do antigo G7 (o grupo das sete nações mais industrializadas).

Clinton presidiu os EUA durante o período de maior expansão na economia norte-americana desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Sua mulher, atual favorita na corrida presidencial para suceder Barack Obama, quando criticada pelo período em que ela e o marido foram inquilinos da Casa Branca (1993-2001), retruca: "Ora, do que você não gostou? Da paz ou da prosperidade?".

David Gergen, comentarista político da CNN e professor de Harvard, disse certa vez que, se a inteligência fosse o único critério para determinar a sorte de uma administração da Casa Branca, Clinton teria sido o maior presidente dos EUA desde Abraham Lincoln.

Clinton manteve relações construtivas com a Rússia de Yeltsin; via na ascensão da China menos um risco e mais uma oportunidade para os EUA; contribuiu com o Acordo de Dayton para pôr fim aos conflitos intestinos na ex-Iugoslávia.

Foi durante a presidência Clinton que, na ausência de competidores ou antagonistas à altura, os EUA se projetavam como uma "hiperpotência" a liderar um "Novo Século Americano".

Este grande evento da Câmara de NY é revelador de duas características importantes; uma, alentadora, a outra, decepcionante.

Por um lado, impressiona como as duas sociedades se gostam e se admiram.

Do ponto de vista societal, do intercâmbio e da boa vontade entre as comunidades empresariais e acadêmicas, pouco pode haver de mais harmonioso, interativo e de busca de interesses comuns do que a relação Brasil-EUA.

Por outro, é frustrante ver como essa energia positiva não consegue ser traduzida em termos de parcerias governo a governo para encarar os grandes temas da agenda global.

O intercâmbio Brasil-EUA não decolou com a dupla Lula-Bush, apesar da empatia pessoal que estabeleceram. Desde que Obama chegou à Casa Branca, tampouco se incrementou a cooperação, seja com Lula, seja com Dilma.

E mesmo durante os mandatos de FHC e de Clinton ambição e resultados para as relações bilaterais foram baixos. Não obstante, toda sua pujança econômica nos anos 1990, período em que os EUA exponenciaram suas importações, o Brasil foi dos poucos países que conseguiram naquela época a façanha de acumular deficits comerciais com Washington.

No caminho de relações mais robustas, sobretudo em temas econômicos, os discursos de FHC e de Clinton na próxima terça-feira têm muito a acrescentar.

Além dos sobrevoos sobre o estado do mundo e de seus respectivos países, torço para que FHC e Clinton também abordem, como lições aprendidas, os obstáculos que não conseguiram transpor. Se assim fizerem, oferecerão elementos duplamente valiosos.

No cenário americano, o desafio talvez resida em lidar com um Congresso que, também em temas comerciais, é majoritariamente conservador e protecionista. No brasileiro, trata-se de vencer nossa insularidade e saber separar favoritismos ideológicos dos interesses reais e pragmáticos do país.

Nessa linha, FHC e Clinton não apenas comemorarão sua amizade e o lugar privilegiado que ocupam na história. Contribuirão também para alçar as relações Brasil-EUA ao patamar que ambas as sociedades merecem.

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