"Os vulneráveis", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


O grau de degradação das condições econômicas nos últimos anos, que agora se acentua, deixa em posição vulnerável os segmentos da sociedade que mais se beneficiaram durante o breve período de aceleração do crescimento na década passada: a chamada nova classe média e os estratos demográficos de renda mais baixa.

O processo de inclusão social tem seus alicerces comprometidos pelo aumento do custo de vida e pela piora das condições de emprego, dois resultados dos erros cometidos no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT). A penúria orçamentária, por sua vez, inviabiliza a tentação de expandir os programas de distribuição de renda para compensar a crise.

Evidência do novo ambiente de escassez é a destruição de empregos formais –cerca de 40 mil ao mês, em média, nos últimos três meses. O desemprego cresceu de 4,6% em meados do ano passado para 5,9% em fevereiro.

Apesar do nível ainda reduzido de desocupação, fica claro que a dinâmica do mercado de trabalho mudou. Pela primeira vez desde 2003, observou-se em fevereiro redução dos salários reais (descontada recomposição da inflação).

Nesse cenário, a rotatividade da mão de obra tende a crescer, com novas contratações em patamares de remuneração abaixo dos atuais. Se há um grupo especialmente ameaçado, é o formado por quem conquistou vaga no mercado formal há pouco tempo e ganha até cinco salários mínimos.

Não por acaso o Nordeste, até há pouco exemplo de dinamismo, também apresenta quadro recessivo. Apesar de a região manter desempenho acima da média nacional, reportagem desta Folha mostrou que, em 2014, ela concentrou 30% das demissões na construção civil, setor que cortou 106 mil vagas.

Os reflexos na avaliação presidencial são patentes. A mais recente pesquisa do instituto Datafolha revelou a convergência da rejeição ao governo Dilma nas várias regiões do país e entre os diferentes estratos populacionais.

No Nordeste, o índice de ruim e péssimo passou de 11%, em outubro do ano passado, para 55%; no Sul e no Sudeste, a rejeição atinge 64% e 66%, respectivamente.

Verifica-se o mesmo fenômeno nas faixas de renda. Para 60% dos que percebem até dois salários mínimos, o governo é ruim/péssimo, índice cerca de quatro vezes superior ao de outubro. Nos outros três grupos (de dois a cinco mínimos, de cinco a dez e acima de dez), a rejeição fica em torno de 65%.

Tudo indica que começam a se concretizar os pesadelos do governo e do PT: o arrocho chegou ao povo e, pior, não se vislumbra melhora significativa antes de 2016.

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