"O lance de Alckmin", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


Rival do PT há mais de duas décadas, o PSDB seria o beneficiário mais provável da devastação política, econômica e moral que vitimou o governo Dilma Rousseff e seus sustentáculos à esquerda.

As eleições municipais de 2016 reforçaram essa leitura. Apenas 254 petistas conquistaram prefeituras, uma queda na casa dos 60% em relação a quatro anos antes; no mesmo período, o número de municípios nas mãos de seus adversários subiu cerca de 15%, para 803.

Sobressaiu, em especial, o poderio do governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin. Foi dele o patrocínio à candidatura do neófito João Doria, que, em feito inédito, venceu o pleito na capital paulista no primeiro turno. Postulantes apoiados pelo governador saíram-se vitoriosos nas principais cidades do interior.

Não é por autoconfiança, porém, que Alckmin vem agora manifestar publicamente o desejo de concorrer à Presidência da República em 2018. "Se eu disser que não quero, que não pretendo, não é verdade", declarou na segunda-feira (6).

A sintaxe tortuosa parece trair o desconforto em torno do anúncio precipitado. Desgastado, como outros expoentes do partido, pelo impacto da Lava Jato sobre as figuras tradicionais da política, o governador viu nascer entre aliados a extravagante ideia de lançar ao Planalto seu pupilo João Doria.

A seu favor, o prefeito conta com expressivos índices de popularidade e a imagem de gestor afastado das castas partidárias. Já seu currículo na vida pública resume-se, por ora, a pouco mais de dois meses de intenso marketing.

Difícil dimensionar a solidez de tal aposta; que tenha sido cogitada dá sinal do encurtamento das opções no campo da centro-direita.

Entre os caciques tucanos, Alckmin, em menor grau, e os senadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) são mencionados em delações da Odebrecht parcialmente vazadas à imprensa. Por mais que haja longo caminho até uma eventual comprovação de ilícito, o risco de dano político é palpável.

Nenhum deles obtém boa pontuação nas pesquisas de voto, lideradas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), réu na Lava Jato. Cresce o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), sob impulso do conservadorismo mais extremado.

Qualquer nome, de todo modo, terá pouca consistência nesta altura. Em cenário tão volátil e distante do pleito, levantamentos são por demais influenciados pelos humores momentâneos dos entrevistados.

Tendem a ser decisivos, daqui para a frente, os rumos da economia e o grau de aceitação das reformas controversas. Disso dependerá o ânimo do eleitorado e a perspectiva de cada candidato em 2018.

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