"Os governos do PT foram os que mais beneficiaram os ricos", Fernando Henrique Cardoso


João Almeida Moreira - Diário de Notícias (Portugal)



Em entrevista exclusiva ao DN, por e-mail, Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995 a 2002, fala da crise política e econômica e dos receios de retrocesso social, das relações com Portugal, dos governos dos seus sucessores e, claro, dos cenários para o seu PSDB em 2018.

No passado dia 2 realizaram-se eleições municipais no Brasil. O seu partido, o PSDB, saiu fortalecido do sufrágio. Como figura inspiradora dos tucanos, como são conhecidos os membros do partido, como avalia os resultados eleitorais em São Paulo e não só?
A vitória do PSDB é indiscutível. Só para dar alguns exemplos: nas 93 cidades de mais de 200 mil habitantes, o PSDB obteve 12 milhões e quinhentos mil votos, o Democratas (DEM), dois milhões e quinhentos mil, o PMDB dois milhões e duzentos mil votos e os demais menos de um milhão, tendo o PT obtido 250 mil votos. Em São Paulo, na capital do estado, o PSDB venceu na primeira volta com 53% dos votos.

Entretanto, as segundas ilações a tirar de umas municipais são sempre a sua tradução nas presidenciais, no caso, de daqui a dois anos. É uma bênção ou é uma maldição para o PSDB ter tantos - no mínimo três, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra - presidenciáveis?
Desde que a direção do partido consiga no final, como tem feito até hoje, harmonizar os interesses diversos, é uma bênção. O PSDB é o único partido que conta com três nomes com influência nacional. Os demais, quando têm alguém, é uma só pessoa.

O senhor goza de boa saúde, tem uma visão lúcida e perspicaz sobre a atualidade, é talvez a única figura intocável da sua área política. Posto isto, já foi sondado para ser candidato em 2018? Exclui taxativamente essa hipótese? Ou não...
Desde que deixei a presidência [no final de 2002] disse e me dispus a não mais me candidatar a postos eletivos. Acho salutar a alternância, não só de partidos no poder, mas de gerações. E porque haveria eu de me candidatar se no meu partido há pelo menos três nomes disponíveis (e há até mais...)?

Falando de antes de 2018: o que o presidente Michel Temer (PMDB) precisa de fazer para ser bem-sucedido?
Cumprir o que disse que faria: olhar para a história e não para as próximas eleições. Precisa de iniciar a reconstrução da economia, enfrentar a crise orçamental e restabelecer a confiança para propiciar sinais de crescimento econômico, pois hoje há, graças aos erros de políticas anteriores, mais de 12 milhões de desempregados no Brasil.

A ideia na maioria da imprensa portuguesa e internacional é que do ponto de vista social este governo, mais masculino, mais branco, mais rico, mesmo que possa ser bem-sucedido do ponto de vista econômico, corre o risco de trazer retrocesso social. Incomoda-o essa visão? Compreende-a, em certa medida?
Mais masculino o governo é, e eu lamento, mais branco não é certo, em comparação com o anterior, que também o era, e mais rico, depende. O governo anterior foi o que mais beneficiou os ricos. As transferências de rendimento para os empresários amigos foram muito maiores do que o que foi destinado aos mais pobres, através das bolsas. Retrocesso social já houve no governo anterior. Retomar o crescimento é condição necessária, embora não suficiente, para haver maior igualdade. Desde a Constituição de 1988 os governos, queiram ou não, têm de atender melhor à saúde, à educação e à redistribuição de terras e mesmo de rendimentos. O governo Lula fez isso não só porque queria, mas porque teve melhores condições econômicas para o fazer. Qualquer governo democrático, havendo recursos, será forçado pela pressão social, queira ou não, a avançar socialmente. É melhor, obviamente, que queira. Mas não creio em retrocessos.

Em resumo, como avalia o dilmismo e o lulismo, dois presidentes do PT, e como acha que ficarão para a história?
A história há de reconhecer os avanços sociais ocorridos no governo Lula. Infelizmente terá de reconhecer também a capitulação política de Lula diante do clientelismo, do corporativismo e da corrupção. Lula, infelizmente para ele e para o Brasil, está enterrando a sua história. Já Dilma, e não existe dilmismo, ficará marcada por ter sido a primeira mulher a exercer funções de presidente e por não ter sido capaz de dar rumo seguro à economia nem de se livrar das armadilhas que herdou. Foi incapaz de levar adiante os compromissos morais que dizia sustentar no governo.

Viveu o golpe militar de 1964, a redemocratização em 1985, a destituição de Collor de Mello em 1992 e passou, naturalmente, por pressões fortes enquanto presidente de 1995 a 2002. Este período de 2013 a 2016, com protestos em massa, crises política e económica simultâneas e um processo traumático de impeachment é o momento mais tenso da história do Brasil a que assistiu?
A crise atual só é comparável com a crise de João Goulart (presidente deposto em 1964), que resultou no regime militar. Por sorte, os militares brasileiros de hoje têm forte compromisso democrático.

Na discussão que se vai tendo do semipresidencialismo, um modelo mais próximo do que existe em Portugal, é favorável ou pensa que não se coloca de momento?
Acredito que sim, que é tempo para repensar o "presidencialismo de coalizão" [coligação, em Portugal] vigente entre nós, resultante da eleição direta do presidente e da fraqueza dos partidos no Congresso Nacional. O presidente necessariamente se elege com maioria absoluta e o seu partido nunca obteve mais de 20% do Congresso. Os três principais partidos hoje (PT, PMDB e PSDB) somados contam com cerca de 180 dos 513 deputados. E não se somam... É difícil governar assim.

A relação de Portugal e Brasil tem futuro - ou só tem passado?
Eu creio firmemente que as nossas relações têm futuro. Ainda agora, se houver um acordo Mercosul/União Europeia, para que ele se firme, a relação positiva entre Portugal e Brasil é essencial.

Que memórias guarda de líderes portugueses com os quais lidou no âmbito da sua ação enquanto presidente e intelectual ou até de foro mais privado?
Sou amigo de Mário Soares há mais de 30 anos. Há menos tempo, mas também com proximidade, tenho relações com Jorge Sampaio, desde quando ele era prefeito (presidente da Câmara Municipal) de Lisboa. E quanto a Cavaco Silva, de quem pessoalmente talvez seja mais distante, mantenho relações de cordialidade desde quando era primeiro-ministro e, depois, no Club de Madrid (organização independente sem fins lucrativos criada para promover a democracia composta pelos primeiros-ministros e presidentes de dezenas de países de que F.H.C e Cavaco são membros). E agora sinto-me próximo a Marcelo Rebelo de Sousa. Se me referir aos primeiro-ministros Durão Barroso e António Guterres, considero-os amigos. Minha admiração por alguns dos nomes citados, que é grande, está aliás registada nos meus Diários da Presidência (volumes I e II, Companhia das Letras, 2015). E tenho muitas amizades mais em Portugal.

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