Desiludidos, eleitores de antigo reduto petista trocaram Haddad por Doria


FERNANDA MENA - FOLHA.COM

Mariana Fenty, Olímpio Cardoso e Thiago de Sousa, da Cidade Tirandes, não votaram em Haddad 
Fernanda Mena/Folhapress 


A avenida dos Metalúrgicos, no extremo leste paulistano, leva o nome da categoria que fundou o PT, opção eleitoral dominante até 2014 numa região habitada por famílias de baixa renda. Neste ano, a escolha mudou de cor.

O distrito de Cidade Tiradentes, que abriga o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina e a terceira maior concentração de negros e pardos da cidade (55,4% da população), trocou o vermelho pelo azul e ajudou a eleger João Doria (PSDB).

Movidos por um forte sentimento antipetista e antipolítica, eleitores da região afirmaram à Folha que enxergaram em Doria indícios de renovação ("ele é novo", "não é político") e eficiência ("é um gestor"), tal qual foi repetido na campanha, mas também de pragmatismo ("é rico, não precisa roubar").

"Sempre fui PT. Mas o partido pisou na bola demais", diz Valdiney Barbosa, 50, gerente de uma rede de açougues. "Toda vez que eu ligava a TV, tinha algo ruim do PT. O PSDB nunca foi muito de periferia, mas resolvi votar em Doria. É um bom administrador. Pelo menos é o que diz."

Barbosa não avalia Fernando Haddad (PT) como mau prefeito, mas acredita que a derrota seria certa para qualquer outro candidato da legenda. Depois de apertar o 45 na urna pela primeira vez, ele diz ser capaz de dar seu voto a Geraldo Alckmin, Aécio Neves ou José Serra, desde que o ex-presidente Lula não esteja no páreo. "Se Lula sair para presidente, voto nele."


NOVO ANTIPETISMO

Em 2012, a região levou Haddad ao segundo turno com 53.377 votos. Em 2016, o petista teve só 23.529, pouco atrás de Marta Suplicy (23.877).

Doria teve 33,3% do total (37.495) de Cidade Tiradentes. O número de votos nulos por lá mais que dobrou: de 8.746 em 2012 para 18.440 em 2016.

Para Lara Mesquita, cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o resultado evidencia que "o antipetismo colou", bem como o discurso antipolítico de Doria. "Nos últimos anos, a população foi massacrada com informações negativas sobre os políticos. Paramos de discutir política pública para discutir apenas desvios da política. O eleitor está saturado."

Maria da Penha Moura, 44, elogia a gestão Haddad, que ajudou a eleger: "Aqui não tem fila nas creches", "hoje tem mais corredor de ônibus", "os pontos de parada têm cobertura", "melhorou a varrição das ruas". Mas nada disso foi suficiente. "Agora sou ex-petista. Votei em Doria para mudar", conta ela, arrependida do voto em Lula e Dilma.

Em 2014, Dilma Rousseff obteve 61% dos votos de Cidade Tiradentes (contra 35,7% em São Paulo como um todo). Sofreu impeachment pouco mais de um mês antes das eleições municipais.

"A impressão é de uma vingança da periferia contra a política de Dilma do segundo mandato, que gerou desemprego e queda de renda", avalia André Singer, cientista político e colunista da Folha.

"Acabou o amor [com o PT]", brinca a dona de casa Kátia dos Santos, 45. "Tenho vergonha de ter votado em Dilma. Foi decepção com tudo."

Para o cientista político Fernando Abrucio, da FGV-SP, a desilusão do eleitor da periferia com o PT é resultado de combinação de fatores.

"Essas pessoas melhoraram de vida especialmente na era Lula, mas sofreram uma queda de renda grande e rápida a partir de 2014", diz.

"Soma-se a isso um sentimento antipolítica, motivado em parte pela Lava Jato, e uma falta de sintonia entre Dilma e Haddad. O prefeito planejou obras na periferia, mas levou calote da ex-presidente."



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COM REQUINTE

O cabeleireiro Dony Calleb, 45, também "ex-petista", votou em Doria e avalia que o tucano "falou na campanha o que o povo queria ouvir". "Ele é novo. É um Russomanno aprimorado, com requinte."

Para ele, pouco importa que Doria pertença ao partido que governa o Estado há mais de 20 anos. "O Alckmin prometeu um monotrilho até aqui e abandonou", afirma.

Ele se refere à linha 15-prata, que, após sete anos do primeiro contrato, não tem previsão de conclusão nem deve chegar mais à Cidade Tiradentes. "­O povo aqui está acostumado com projetos que não vão para a frente."

Calleb diz que a imagem de homem bem-sucedido de Doria seduziu os eleitores locais. "O sonho do pobre é ser rico", diz. "Ele se afoga em dívidas, culpa a crise e acha que votar em um empresário de sucesso vai resolver a situação."

Tucana convicta, a auxiliar de cozinha Mariana Fenty, 21, diz que Doria "é verdadeiro, compra com o dinheiro dele".

"Ex-petista roxo", o mecânico Olímpio Cardoso, 52, diz que seu voto no tucano mira a boa gestão. "O negócio está mal organizado, nada acontece." O fato de Doria pertencer ao partido do governador é visto como vantagem. "Eles podem se ajudar para melhorar um pouco a cidade", diz, acionando lógica similar à que favoreceu Haddad em 2012, quando Dilma era presidente.

O açougueiro Thiago de Sousa, 30, também trocou o PT por Doria. "Olho a avenida dos Metalúrgicos e vejo a faixa vermelha para bicicletas sempre vazia. Aqui, só serviu para atrapalhar o trânsito

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