"Luz, câmera, Haddad", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


Não é muito dinheiro, se considerado o total de gastos da Prefeitura de São Paulo. Os R$ 10 milhões anuais que Fernando Haddad (PT) promete destinar a uma TV municipal, caso se reeleja em outubro, correspondem a 0,02% das despesas previstas para este ano, que somam R$ 54 bilhões.

É muito dinheiro, porém, quando se leva em conta que o edital lançado para o fomento de atividades culturais na periferia paulistana estabelece gasto de R$ 9 milhões.

O programa do prefeito para a reeleição prevê criar uma emissora de TV e de rádio que ofereça alternativa aos meios de comunicação privados, cujo predomínio representaria "perigoso fator de desequilíbrio democrático".

Mesmo dessa ótica —característica de um partido que se faz de vítima quando surpreendido no maior escândalo de corrupção já registrado no país-, a ideia de uma TV municipal chama a atenção pela irracionalidade.

Com um investimento dezenas de vezes maior, a TV Brasil, criada em 2007 pelo governo federal petista, continua com índices de audiência inferiores a 0,5%.

Há outro argumento, entretanto, para a criação do canal televisivo. O objetivo, sustenta Haddad, seria abrir um canal de expressão à periferia, com material produzido pelos moradores, no espírito de uma emissora comunitária.

Nesse o caso, a verba seria empregada com mais eficiência se fosse usada para ampliar o acesso e a qualidade dos sinais de internet gratuitos, com maior distribuição de equipamentos, ou na oferta de cursos de treinamento em câmera, reportagem e locução para oficinas de cultura e escolas municipais.

A internet oferece possibilidades imensas de auto-expressão e organização. Mas tem um defeito, do ponto de vista de uma ideologia que ainda confunde emancipação social com aparelhamento do Estado por um partido sectário: é descentralizada. Já uma TV estatal oferece cargos de diretoria a militantes prontos a obedecer às diretivas de quem estiver no comando central —o prefeito, no caso.

No projeto de Haddad, quem, senão seus nomeados, filtraria a "produção autônoma" das periferias, decidindo o que irá ao ar, como e quando?

Dez milhões de reais que poderiam ser utilizados em projetos culturais independentes passariam, então, a funcionar sob o controle da prefeitura. É pouco dinheiro, de fato: em especial quando se pensa que corresponde a menos de 10% do que a prefeitura gasta em publicidade oficial. E sem dúvida é disso, com outro nome, que se trata.

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