Temer “tem de ser rápido” contra crise fiscal, diz Geraldo Alckmin


Defende corte de gastos, concessões e câmbio pró-exportação

KENNEDY ALENCAR 


O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse que, se assumir a Presidência, o vice Michel Temer “tem de ser rápido” na adoção de “medidas na questão fiscal”.

Alckmin demonstrou preocupação com o crescimento da relação entre a dívida pública e o PIB (Produto Interno Bruto). Recomendou a Temer corte de gastos e leilões e concessões na área de infraestrutura que estimulem investimentos. “É preciso agir duro na questão fiscal, cortar gastos. (…) Tem que adotar e tem de ser rápido. Porque, se não fizer nada vai piorar. Nós estamos ladeira abaixo. Se não fizer nada, daqui a três anos a relação dívida/PIB vai estar em 80%”, afirmou.

Na opinião de Alckmin, “o mundo que cresce tem política fiscal dura.” O governador defende ainda: “Política monetária a juros baixos, para poder investir, produzir, gerar emprego e renda para a população. E política cambial, moeda desvalorizada”.

Alckmin diz que vai sugerir a Temer que proponha ao Congresso uma reforma política, se o peemedebista virar presidente. “Fazendo a reforma política e reduzindo o número de partidos, eu sou favorável ao financiamento público de campanhas”, afirmou.

Alckmin declarou que o PSDB não deve integrar o ministério de um “possível governo Temer”. Ele diz que defenderá que não haja tucanos em pastas e cargos na eventual administração peemedebista.

“Temos o dever de apoiar o possível governo Temer aí na frente, mas defendo que o PSDB não participe do governo. Nem com pastas, nem com cargos. Medidas importantes, de interesse do Brasil, que ajudem a recuperação econômica, ajudem a recuperação do emprego terão todo o nosso apoio. Mas sem cargo, sem pasta, nada disso”, declarou.

Indagado sobre eventual discussão partidária a respeito de tucanos que queiram participar do governo Temer, como uma eventual ida do senador José Serra para o Ministério da Fazenda, o governador paulista respondeu que seria contra. “Esta é a minha posição e que eu vou defender dentro do PSDB.”

A seguir, a íntegra em vídeo e texto da entrevista com Alckmin, gravada na tarde de terça-feira, em Brasília:

Parte 1
Parte 2
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Em novembro de 2014, o senhor disse que não via uma justificativa para o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ao longo de 2015, o senhor manifestou dúvidas muitas vezes em relação a isso. Por que o senhor mudou de posição e passou a apoiar o impeachment?
Eu sempre coloquei que a questão constitucional precisava ser cumprida. Naquela época, eu dizia que o importante é investigar, investigar, investigar e cumprir a Constituição. Isso ocorreu. E o que nós verificamos foi uma sequência de fatos graves, do ponto de vista de pedalada fiscal, do ponto de vista até de obstrução da Justiça, do ponto de vista de utilização de bancos públicos nos quais o governo é acionista majoritário. Então, os fatos foram sendo gradualmente comprovados. Claro que de impeachment ninguém gosta. Não é uma coisa que alegra, é um trauma. Mas é uma regra do sistema presidencialista.

O senhor acha que tem um crime de responsabilidade da presidente? Porque eu me lembro que o senhor tinha uma preocupação em relação aos governadores e prefeitos nessa questão fiscal. Muitos também pedalaram. E há uma divergência jurídica muito grande. Há juristas que dizem que sim, outros que não há. Esse impeachment não tem um ingrediente mais político, para se tirar um governo ruim e impopular?
Não tem similaridade com Estados e municípios. Na realidade, o que é essa pedalada fiscal? É você fazer pagamento de atividades e deveres que são do governo através de banco no qual o governo é acionista majoritário. Os Estados não têm banco. As prefeituras não têm banco.

O senhor vê um crime de responsabilidade?
Vejo. Claro que quem vai dar a última palavra é o Senado Federal. Vejo com respeito a presidente Dilma, a instituição da Presidência da República, mas acho que o afastamento promovido pela Câmara está previsto na Constituição. Aliás, eu vejo o PT dizer que é golpe, mas o PT entrou com uma ação de impeachment contra o presidente Itamar, contra o presidente Collor, contra o Fernando Henrique. Só não entrou contra o Lula e a Dilma porque são do PT. Então, não vejo dessa forma.

O senhor falou sobre o impeachment ser um trauma. O PT sempre alega que é um golpe. A gente está muito no calor dos acontecimentos. Há esse argumento de que a História, lá na frente, pode achar que pesou mais o ingrediente político. Há essa acusação que o governo faz à oposição e ao PMDB de tentar um atalho para chegar ao poder sem voto. O PSDB perdeu quatro eleições presidenciais seguidas para o PT. O senhor acha que a História pode deixar o PSDB mal na foto?
Não. Porque, na realidade, o PSDB nem é beneficiário do impeachment. Não é o PSDB que vai assumir o governo. Acontece que, além dos crimes de responsabilidade, tem uma quase ingovernabilidade. Isso é um fato. E quem está pagando a conta é a população, com desemprego, inflação, perda de renda, economia derretendo.

Mas não é um risco usar o impeachment para tirar governo impopular? Isso não é meio parlamentarista, como é o voto de desconfiança?
Eu sou parlamentarista. Mas não hoje no Brasil, porque com 35 partidos, com 25 partidos na Câmara, enquanto não se fizer uma reforma política, não pode ter parlamentarismo. Mas eu vejo que não. E quero dizer mais, o PSDB agiu corretamente votando favoravelmente ao impeachment. Temos o dever de apoiar o possível governo Temer aí na frente, mas defendo que o PSDB não participe do governo. Nem com pastas, nem com cargos. Nós vamos ajudar o Brasil, nosso compromisso é com o país. Medidas importantes, de interesse do Brasil, que ajudem a recuperação econômica, ajudem a recuperação do emprego terão todo o nosso apoio. Mas sem cargo, sem pasta, nada disso.

Para ficar claro, o senhor acha que o PSDB não pode indicar um ministro da Fazenda, como por exemplo o Serra, que dizem nos bastidores gostaria de ir para esse cargo. Não deve ter tucano no ministério de um eventual governo Temer?
Esta é a minha posição e que eu vou defender dentro do PSDB.

O PSDB não vai ser cobrado a ser um avalista de um governo Temer? Esteve aliado ao Eduardo Cunha nesse processo de impeachment na Câmara, o Aécio se reuniu com o Temer, o Armínio Fraga foi cotado para o ministério. O PSDB não vai ser cobrado a ajudar esse eventual governo de transição?
O PSDB vai ajudar. Mas não precisa, para ajudar, nomear ministro, ter cargo no governo. Eu entendo que o PSDB pode até dar um exemplo, porque vai deixar o presidente Temer mais à vontade. Imagine, você tem 25 partidos na Câmara. Se cada um for ter um ministério, onde é que vai parar? Nós somos o maior partido de oposição até agora. Se o maior partido de oposição disser “eu vou ajudar, tenho responsabilidade para com o país, contem conosco nas medidas que o país precisa, mas não precisamos ter cargos, ocupar ministérios”. Eu acho que essa é a melhor e a mais correta atitude.

O PSDB tem de fechar questão em relação a isso ou o senhor admitiria a hipótese de um importante político tucano, senador ou deputado, querer assumir um cargo convidado pelo Temer? O PSDB deveria vetar ou deveria liberar e dizer que isso é em caráter pessoal, digamos assim?
Eu sou cauteloso nessa coisa em respeito à presidente Dilma, porque ela é a presidente, a instituição da Presidência. Vamos deixar que o processo chegue no seu momento adequado, mas a minha posição lá na frente vai ser essa, de que o PSDB não deve ocupar nem pasta, nem cargo.

Decisão partidária?
Decisão partidária. O que eu vou defender dentro do partido. O partido que vai decidir pela sua maioria.

Se o partido quiser liberar, o senhor será contra essa recomendação?
Eu não recomendaria ninguém. A minha tese é: sem pasta e sem cargo.

Governador, está na praça uma ideia de antecipar a eleição presidencial de 2018. De a presidente, em tese, aceitar encurtar o mandato dela como uma forma de evitar o impeachment. O que o senhor acha dessa tese que é discutida no Senado?
Totalmente extemporânea. Porque no impedimento do presidente quem assume é o vice, está na Constituição. Nós temos que cumprir a Constituição. Isso vem assim desde a época do Rodrigues Alves. Que, aliás, nem pode tomar posse e assumiu o vice, Delfim Moreira. Como o presidente Collor, que foi impedido e assumiu o vice-presidente Itamar Franco. Não tem nenhuma razão para ficar fazendo uma outra eleição. A não ser que o Tribunal Superior Eleitoral _ e existem vários processos no TSE_ diga que há nulidade da eleição. Aí, caiu a chapa.

O Temer cai junto.
Cai junto. Caiu a chapa. Se for este ano, nova eleição. Mas aí é uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Não havendo essa decisão, não tem nenhum sentido fazer nova eleição se você tem um vice-presidente que deve assumir o mandato.

Se for no ano que vem a eleição é indireta. Pode ser uma saída ruim, não é?
Pois é, mas decisão judicial a gente não tem como interferir. É se cumprir a Constituição, esse é o melhor caminho. Aliás, eu acho que o Brasil está dando um exemplo de maturidade. Eu acompanhei em São Paulo as maiores manifestações do Brasil e ocorreu no domingo um clima de absoluta tranquilidade. Cada um defendendo a sua tese, mas sem conflito, com serenidade e cumprindo o rito constitucional.

A presidente, na segunda feira, falou que a oposição a sabota faz 15 meses, a impede de governar. Como o senhor responde a essa crítica?
Não é verdade. Primeiro, a oposição é extremamente minoritária. Aliás, o impeachment, o afastamento que foi votado na Câmara, foi o bloco governista, o problema foi o bloco do governo. Não foi a oposição.

A oposição não tem 367 votos.
Óbvio. Eu procurei sempre, ao longo desse período, ter uma parceria muito republicana. Em São Paulo, fizemos inúmeros convênios, parcerias, trabalhos conjuntos. O dinheiro público federal não é do PT. Como o dinheiro público do Estado não é do PSDB. Então, há que se fazer uma nítida separação entre essas coisas.

A sua visão agora sobre a economia, que está em um momento muito complicado. O PIB recuou mais de 3% no ano passado, pode haver um recuo de 4% neste ano. Que medidas emergenciais um eventual governo Temer deveria adotar na largada?
Tem que adotar e tem de ser rápido. Porque, se não fizer nada vai piorar. Nós estamos ladeira abaixo. Se não fizer nada, daqui a três anos a relação dívida/PIB vai estar em 80%. Eu defendo, de um lado, que tem de tomar medidas na questão fiscal. A causa de toda essa crise foi um desequilíbrio fiscal. O governo gastou mais do que arrecadou. Mesmo sem contar o serviço da dívida, sem contar os juros. Então, é preciso agir duro na questão fiscal, cortar gastos. O Brasil tem, em números redondos, 140 estatais. Em mais de um século. Se você pegar o período do PT, um terço delas quase, mais de 30 foram criadas agora. Até estatal para o Trem Bala, que não existe o trem, não tem trilho, não tem passageiro. Então, tem de cortar gastos. De outro lado, tem de estimular a atividade econômica. Por exemplo, infraestrutura e logística. É muito emprego e é rápido, a resposta é rápida.

Os leilões nessa área, as concessões?
Concessões, PPP (Parceria público-privada), crédito. Uma linha de metrô em São Paulo hoje, a linha 5, ela tem 5.400 empregos diretos, fora os empregos indiretos. O sistema de água que nós estamos construindo, chamado Sistema São Lourenço, tem hoje 3.000 pessoas trabalhando. Então, infraestrutura e logística respondem rápido. Acelerar PPPs, concessões, investimentos, saneamento, logística. De outro lado, exportação. Aproveitar o câmbio. A moeda desvalorizada tem um lado bom, que é a competitividade. O Brasil, infelizmente, está isolado no comércio internacional. Ficou com essa história de Sul-Sul, de querer ocupar o Conselho de Segurança da ONU e não teve uma ação firme na questão dos acordos comerciais para poder colocar o produto brasileiro.

Aí tem que flexibilizar o Mercosul.
É possível, porque o Mercosul é uma excelente iniciativa de livre comércio, mas ele, na união aduaneira, tem assimetria. O Brasil é grande e os outros parceiros são economias pequenas. Fica amarrado. Então, é possível você ter liberdade para poder fazer também acordos bilaterais.

O Governo Federal enfrenta um problema de queda de arrecadação, os Estados também. Muita gente diz que, para superar a atual crise, será necessário um aumento de impostos, ainda que temporário. A presidente Dilma tentou viabilizar a CPMF e não conseguiu. Qual é a sua visão sobre essa medida específica? Será necessário um aumento temporário de impostos? O PSDB e o senhor apoiariam uma nova CPMF transitória?
Eu acho que a primeira coisa é fazer o dever de casa, cortar gastos. Você tem receita e despesa. Então, tem de atuar pelo lado da despesa, procurando reduzir uma série de gastos. Eu acho que essa é a primeira tarefa. Eu, em São Paulo, fechei secretaria, empresa estatal, quatro fundações, vendi avião, helicóptero, reduzi frota, diária, pessoal, devolução de prédio, aluguel. Fizemos todo o dever de casa. E a outra é melhorar a eficácia da arrecadação. Às vezes você não precisa aumentar alíquota, se você tiver uma base maior, se todo mundo pagar, você arrecada mais.

Mas isso tem um limite, não é, governador? O senhor acha que, diante da gravidade da crise, é inevitável o aumento de impostos ou o senhor não faria?
Eu evitaria. Eu não tenho os números em detalhes da área federal. Mas, sempre que possível, se deve evitar. Agora, isso tem que ver no momento adequado.

O senhor não descarta, então, eventualmente apoiar um aumento de impostos?
Eu acho que é a última iniciativa.

Mas não é carta fora do baralho?
Nunca se pode dizer que é impossível, mas acho que se deve evitar.

O senhor está aqui em Brasília nesta terça, veio conversar com o Supremo Tribunal Federal. Há uma discussão sobre a dívida dos Estados. Santa Catarina obteve uma decisão que permite recalcular a dívida dos Estados. Economistas e o mercado financeiro criticam a decisão do Supremo dizendo que, ao permitir um recálculo da dívida pelos juros simples e não pelos juros compostos, que são os juros sobre juros, isso vai criar um rombo grande nas contas públicas e pode ter um impacto para desorganizar financeiramente o país e agravar a crise fiscal. Como o senhor avalia essa questão?
Eu queria até aproveitar o tema anterior, que é a questão de impostos, se vai aumentar imposto, se vai criar imposto. A carga tributária está altíssima no Brasil. No que é utilizado esse dinheiro dos impostos? É para pagar o banco, para pagar juros. É uma brutal transferência do setor produtivo para o setor financeiro, porque grande parte desses impostos arrecadados vai acabar na mão do banco. Vai para os rentistas. Então, o Brasil tem um problema que precisa ser enfrentado. O país tem política fiscal frouxa, só aumenta imposto. Política monetária com os maiores juros do mundo. E política cambial com moeda sobrevalorizada. Não vai crescer. O mundo que cresce tem política fiscal dura. Política monetária a juros baixos, para poder investir, produzir, gerar emprego e renda para a população. E política cambial, moeda desvalorizada.

Na medida do possível, com moeda competitiva.
Competitiva, esse é o foco. Eu vou dar um exemplo, então, dos Estados. No Estado de São Paulo, Mário Covas, em 1997, refinanciou 46,5 bilhões de reais de dívida. Deu para o Governo Federal o Banespa, a Cesp Distribuição, CPFL, Eletropaulo, Ceagesp, Comgás, Fepasa, todo o patrimônio do Estado. Pagou 130 bilhões. Estamos devendo 226 bilhões. Como é que pode? Não é razoável, assim não se constrói uma Federação. E quem tem que prestar serviços à população somos nós.

Mas as dívidas de todos os setores crescem com juros compostos, governador. Ao abrir uma exceção para os Estados, não vai se introduzir aí um elemento de risco para a economia?
É importante esclarecer isso para o telespectador. Os juros compostos não mudam, a dívida continua com juro composto. O governo mandou uma Lei Suplementar 148 para a Câmara Federal, por iniciativa do governo, para dar um desconto. Está muito claro no artigo segundo da lei e no artigo terceiro: vamos dar um desconto porque isso aqui ficou insuportável. Só que, à medida em que ele estabelece Selic acumulada, ao invés de dar desconto, aumenta o estoque. Então, o que é que se está buscando construir? Uma coisa razoável em termos de pacto federativo.

Eu quero dar um outro depoimento. Se o Estado atrasa um dia, se eu tenho que pagar no dia 21 R$1.350 bilhão só de serviço da dívida do Governo Federal, se eu atrasar um dia, é sequestrado. O Governo Federal deve para os Estados, não paga e não permite a compensação, um ajuste de contas. É inacreditável a truculência da União sobre os Estados Federados. Estados e municípios que têm que oferecer segurança, escola, saneamento, educação. Então, não é razoável. Tanto não é razoável que o próprio Governo Federal encaminhou à Câmara o projeto.

O senhor acha que a solução é um acordo que envolva a União, Estados e municípios? E qual o indicador que o senhor acha justo?
Eu quero que cumpra o que está na Lei Suplementar 148. E ela não estabelece Selic cumulativa, se não, você contraria a lei. O grande problema é que o decreto que o governo fez fere a própria lei. Aliás, nem precisaria ter o decreto, é só pegar a lei e cumpri-la.

Voltando à política. Com a oposição acirrada que o PSDB fez à presidente Dilma, o partido não ajudou a demonizar um pouco o debate público e não afetou negativamente a imagem do PSDB, que se afastou um pouco do eleitorado mais moderado? Na última pesquisa Datafolha, o senhor, o Aécio e o Serra perderam intenção de voto.
Eu, andando nas ruas, ouço muito as pessoas e, às vezes, vejo redes sociais. Nós somos acusados de não fazer oposição: “Esse PSDB, quando é que vai acordar? Quando é que vai fazer oposição?”. Eu confesso que, realmente, nós vivemos um período de muita intolerância. Mas o PSDB tem agido com serenidade e com firmeza. Nós não fazemos aquela oposição que o PT faz a nós permanentemente. Não a fazemos. O problema do governo é que o governo perdeu, em razão da crise econômica. Você tem a maior inflação dos últimos 12 anos, o PIB mais negativo do mundo, só atrás da Venezuela. Pelo terceiro ano nós vamos ter recessão, é quase uma depressão. População perdendo emprego. É grave.

Crise política, crise econômica.
Crise moral. Quero colocar uma outra coisa: continuar a Lava Jato. Investigação, investigação, investigação e justiça. Agora, não pode o governo que criou a crise, muito em gastos eleitorais, irresponsabilidade fiscal… O que o governo fez para ganhar popularidade? Ele reduziu os impostos, fez desoneração, e de outro lado aumentou gastos.

O que explica o PSDB, que polariza eleições presidenciais com o PT desde 1994, no ápice da crise do PT, quando é feita uma pesquisa de intenção de voto, que os três principais nomes do partido caiam, o Bolsonaro apareça com 8% e o Lula e a Marina estejam em posição mais vantajosa? Não tem um erro de estratégia ou uma autocrítica do PSDB?

Pesquisa hoje é recall, você está olhando para o passado. Os temas da eleição de 2018 nem foram colocados a pesquisa hoje retrata quem participou das últimas eleições. É o Lula, que participou de cinco eleições, é a Marina, que acabou de disputar eleição, e é o próprio Aécio. Então, eu não me incomodo muito com essa questão de pesquisa. E acho que a situação do Lula é quase inelegível.

Pela alta rejeição?
Exatamente. Não é por questão jurídica, nada disso. Na medida em que a Constituição brasileira, e eu votei favoravelmente, estabelece o segundo turno para você não ter governo de candidato com 30%, 35%, que estabelece que tem de ter maioria absoluta, candidato que tem alta rejeição é inelegível.

Mas ele está sob um fogo cerrado tremendo agora. Em uma campanha, dá para diminuir a rejeição também. O senhor acha que o Lula é carta fora do baralho?
Não, eu acho que ele terá grande dificuldade. Então, embora as pessoas se impressionem por ele ter 20%, com o nível de reconhecimento que ele tem, é inegável que é muito ruim. Eu acho que a gente não deve se impressionar muito com pesquisa, porque a pesquisa retrata a última eleição, não a futura.

O senhor falou em continuar a Lava Jato. O PT se queixa de que há uma moralidade seletiva na Lava Jato, que os petistas são investigados duramente, mas quando há delações citando os tucanos ou quando há um listão da Odebrecht em que aparecem nomes do PSDB aquilo rapidamente sai do noticiário, volta para o segredo de justiça. Como é que o senhor responde à crítica de que há uma moralidade seletiva que beneficia os tucanos?
O PT, em vez de se defender e de prestar contas à sociedade, a estratégia deles é dizer que é todo mundo igual. Não é verdade. O que nós defendemos, independente de sigla partidária, é investigar e fazer justiça. Isso vale para todo mundo. Agora, não essa coisa de colocar todo mundo no mesmo saco.

Essas empresas que contribuem. O Lula tem um argumento que é o seguinte: a Andrade Gutierrez, a Odebrecht, deram contribuições para políticos do PSDB e do PT. Por que o dinheiro do PT é da propina e o que é dado para os candidatos do PSDB não? O senhor é governador de Estado, essas empresas são fornecedoras do Estado, por que o dinheiro que vai para o PSDB é limpo e o do PT é sujo?
Acho que nós não podemos misturar propina, corrupção, com eleição. Mensalão é dinheiro para comprar deputado. Não tem eleição. Petrolão é dinheiro para o sujeito por no bolso. Essas pessoas todas que foram presas, muitas delas nem foram candidatas. Não tem relação com eleição, houve uma promiscuidade público-privada. Eu sou defensor de uma reforma política. Acho até que, se depender de mim, vou dizer ao presidente Temer, ele vindo a assumir, que precisa fazer a reforma política. Fazendo a reforma política e reduzindo o número de partidos, eu sou favorável ao financiamento público de campanhas. Desde que você tenha um número pequeno de partidos. Enquanto não tem, o financiamento é privado. Agora, isso não tem nada a ver com corrupção. Corrupção é outra coisa.

O senhor falou em presidente Temer. O senhor é um político experiente. Foram 367 votos na Câmara. O senhor acha que no Senado a tendência é instaurar o processo e haver a instauração do impeachment também?
A instauração do processo, sim. Porque, se você teve dois terços dos votos na Câmara, vai ter metade mais um no Senado para o afastamento. E ocorrendo o afastamento, se não houver um fato superveniente, o impeachment é questão de tempo. Eu fui deputado federal, votei a favor do impeachment do presidente Collor e vi isso nitidamente. Depois que teve o afastamento e o presidente Itamar assumiu, o impeachment foi uma questão de tempo.

É muito difícil reverter.
Muito difícil. Não é impossível. Nós precisamos ter respeito pela presidente, respeito pela instituição da Presidência e cumprir a Constituição, qualquer que seja o seu resultado.

A Assembleia Legislativa de São Paulo, onde o senhor tem maioria, não analisou requerimentos simples sobre fraudes na merenda escolar. É um caso de corrupção grave em São Paulo envolvendo o presidente da Assembleia, o deputado estadual tucano Fernando Capez. Pessoas com cargos no Palácio dos Bandeirantes, no gabinete do senhor, também são acusadas. Isso não mostra que o PSDB gosta de criticar a corrupção do PT, mas quando tem uma oportunidade, tem maioria na Assembleia e pode investigar um caso que afeta o governo do Estado, aí ele é mais tolerante com um caso de corrupção que envolve o partido?
Eu quero dar uma explicação para o seu telespectador, que é essa questão da merenda. Há uma lei federal que obriga o Estado, quando o dinheiro é transferido para a merenda, a comprar 30% de agricultura familiar. O Estado é obrigado a fazer chamadas só para a agricultura familiar. Então, em cinco anos forma feitas três chamadas, cumprindo a lei federal. Essa licitação aqui é para agricultura familiar. A licitação foi feita corretamente, teve disputa, aquele que ganhou foi pelo menor preço e entregou o produto. Tudo certo.

E onde é que está o problema?
O que se verificou depois, foi o Governo do Estado que investigou, foi a Polícia Civil do Estado de São Paulo que investigou, foi um fato em seis Estados. Não era só em São Paulo, foi em seis Estados e em vinte e tantas prefeituras. Nós descobrimos, e o Ministério Público também é parceiro nesse trabalho, descobrimos que a cooperativa tinha estelionatários. Ou seja, no lugar de entregar o produto da agricultura familiar, ela entregava o produto de megaprodutores.

Mas as acusações ao Capez não causam desconforto ao senhor?
Não, acusação precisa ser investigada e apurada. O que é que nós defendemos? Investigação e justiça, não interessa de que partido é. Agora, fomos nós que descobrimos, nós que investigamos, nós que denunciamos e estamos apurando junto com o Ministério Público. E apurando todo mundo. O Estado fez a licitação, ganhou o menor preço, o produto foi entregue. O problema é que a cooperativa era fajuta. Esse é o fato.

O senhor teve uma vitória importante, derrotou o Andrea Matarazzo, que era o candidato do Fernando Henrique, do Serra e do Aécio a prefeito de São Paulo pelo PSDB. O João Dória Jr., empresário e jornalista, será o candidato do PSDB com o apoio do senhor. Esse apoio rendeu críticas ao senhor de ter implodido e dividido o partido para lançar um candidato que eleitoralmente seria fraco. Como o senhor rebate essas críticas?
Prévia não divide o partido, ela escolhe o candidato. Um partido forte como é o PSDB tem vários bons nomes. Você tinha lá o Bruno Covas, o José Aníbal, o Andrea Matarazzo, o João Dória, o Ricardo Trípoli, vários candidatos. Você pode escolher cartorialmente, aquele pequeno grupo que vai escolher, ou você pode escolher pela prévia. Eu defendo a prévia. E vou mais longe, eu defendo a primária, como tem nos Estados Unidos. Só com a primária você teria um Barack Obama, nascido no Havaí, negro, de nome Houssein, presidente da República nos Estados Unidos. Ele não teria a menor chance se não fosse a primária. Porque aí, manda o establishment. A prévia em São Paulo teve quase sete mil votantes.

O senhor é contra o caciquismo no PSDB?
Eu sou contra. O Mário Covas, quando foi candidato em 1989, era candidato único a presidente da República na primeira eleição do PSDB. Houve prévia. Eu falei para ele: “Senador, o senhor vai me liberar, porque eu voto em Pindamonhangaba e vou ter que ir até Pinda para votar”. Ele falou: “Não vou liberar. Hoje sou só eu, amanhã vai ter mais de um candidato. Democracia começa dentro de casa, tem que ter a prévia. Vá lá e vote, nem que seja um só”.

Isso é choro de perdedor do Matarazzo e dos apoiadores?
Houve um recurso e o diretório da capital decidiu por 54 a 0 favorável ao João Dória Jr.

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