"Corinthians não merece esta lama", artigo de Mariliz Pereira Jorge


Folha de S.Paulo


Fala-se em propina na construção dos estádios da Copa muito antes de as obras terem sido finalizadas, muito antes de a Copa ter sua grande abertura na novíssima Arena Corinthians.

Um ano e meio depois do final dos jogos, o vice-presidente do clube, André Luiz de Oliveira, o André Negão, aparece na lista de propinas da Odebrechtcomo beneficiário de R$ 500 mil, sob o codinome de Timão.

O que eu pensei na hora foi que a torcida do Corinthians, tão dedicada, tão fiel, tão presente, não merece ver o nome do seu clube querido metido nessa lama. Nenhuma torcida merece.

Ter um estádio próprio, carregando suas cores e sua bandeira devia ser sonho da maioria. Um templo para venerar ídolos, vitórias, sua história de glórias. Mas a que preço?

Por R$ 500 mil cravaram o nome Timão na lista de propina. As investigações ainda estão em curso, mas o Ministério Público Federal já declarou que vem mais por aí.

É provável que não seja surpresa se ficar provado que rolou muito dinheiro sujo por baixo daquelas arquibancadas e daquele gramado novinhos. O custo final da Arena, que seria de R$ 820 milhões, passou da casa do bilhão. Para se ter uma ideia, o Allianz Parque, do Palmeiras, custou R$ 630 milhões. É uma baita diferença.

No ano passado, a Andrade Gutierrez confessou à Lava Jato que pagou propinas em diversas obras, incluindo as da Copa, nas quais estava envolvida. A empresa atuou, sozinha ou em consórcio, na reforma do Maracanã, no Rio, do Mané Garrincha, em Brasília, no Beira-Rio, em Porto Alegre, e na construção da Arena da Amazônia, em Manaus.

É sujeira para todo lado. Mas há uma grande diferença nos casos da Andrade Gutierrez. Nenhum daqueles estádios carrega o nome de um clube, nenhum deles é casa de uma torcida apaixonada. Garrincha deve estar se revirando no túmulo, ao ver seu nome envolvido, ainda que indiretamente, em propina.

No caso do Corinthians é pior porque acabou misturando dois assuntos de alta combustão: futebol e política. Isso vem promovendo um racha entre os torcedores, que se consideram também donos da Arena. Basta entrar nos sites mantidos pela torcida para ver como os ânimos estão alterados.

Parte dos internautas diz que o estádio não parece ter custado R$ 1 bilhão, defende que tudo seja apurado e quer ver cabeças rolando, inclusive do seu mais famoso torcedor, o ex-presidente Lula. Outra parte acha que tudo é invenção da Lava Jato, numa sórdida armação para incriminar Lula e o governo Dilma. Imagine o bate-boca.

Vale lembrar que no mês passado, Luis Cláudio, filho de Lula, foi citado na Operação Zelotes por ter recebido cerca de R$ 500 mil entre 2011 e 2013 sem ter desempenhado nenhuma função no clube, como apurou a Folha. Os pagamentos coincidem parcialmente com o período da construção da Arena Corinthians. A investigação segue na Polícia Federal.


A preocupação comum aos torcedores é que o episódio sirva de munição aos "anti", torcedores rivais, que podem usar o fato para mexer com os brios alvinegros, inclusive dizendo que ajudaram a construir a Arena, erguida com dinheiro público.

A solução imediata veio de um torcedor: "vamos voltar para o Pacaembu, éramos felizes lá". Não será tão simples assim.



*Mariliz Pereira Jorge é jornalista e roteirista. Apresenta o programa "Sem Mimimi com Mariliz", no YouTube.

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