"O carnaval torto de Haddad", editorial do Estadão



O Estado de S.Paulo


O governo Fernando Haddad repetiu, com o carnaval, o que virou a sua marca registrada: o improviso, a total falta de atenção a aspectos essenciais e o descaso com as consequências de suas ações. Em resumo, ausência de planejamento. Como sempre acontece, ele está cantando em prosa e verso o que considera sua mais recente façanha – o incentivo ao carnaval de rua e à proliferação dos blocos –, e tentando esconder espertamente o outro lado dessa iniciativa, que é o prejuízo que, por falta de organização, ela causa a uma parcela considerável da população.

Nada contra, é claro, o direito dos paulistanos que queiram se divertir desfilando nos blocos, desde que isso se faça de forma a resguardar o direito de ir e vir do restante da população. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Agindo com uma empolgação natural em foliões que querem se divertir, mas não de administradores que têm de agir com serenidade para que a festa se realize nas melhores condições possíveis para todos, o prefeito Haddad e seu secretário de Cultura, Nabil Bonduki, trataram do carnaval de rua como se nele estivessem desfilando.

É bom que São Paulo, cidade considerada mais trabalhadora e sisuda do que alegre, possa oferecer a seus habitantes cada vez mais ocasiões de lazer e de descontração, como é o caso do carnaval. A esse respeito, é preciso deixar claro, antes de mais nada, que a afirmação de Bonduki, em artigo publicado no último domingo no jornal Folha de S.Paulo, de que “tudo mudou a partir de 2013” no carnaval de rua é um rematado exagero. Bem na linha do “nunca antes na História deste país”, tão repetido pelo seu partido, o PT, e hoje tão desacreditado que já caiu na galhofa.

Estimular o carnaval de rua e a formação de blocos, numa cidade como São Paulo, é algo que exige planejamento. Não pode ser feito ao vai da valsa, como vem acontecendo. O que se viu nesse carnaval foi muita alegria nos estimados mais de 300 blocos, o que é bom, mas ao mesmo tempo uma baita dor de cabeça para muitos moradores das ruas por eles percorridas. Tudo porque a Prefeitura fez muito mal a sua parte.

A administração municipal teve um ano para organizar a festa e nem assim conseguiu vencer sua irresistível e irresponsável vocação para o improviso. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o desfile de um bloco exige das autoridades de trânsito a indicação de opções para os motoristas que normalmente passam pelas vias interditadas e, mais importante ainda, a possibilidade de acesso a elas de seus moradores. Estes não podem ficar esperando horas a fio, até que o bloco passe, para poder sair ou entrar.

Foi exatamente isso que aconteceu. Motoristas sem saber o que fazer para encontrar as saídas que não foram planejadas e moradores sem acesso a suas casas. O resultado é que o legítimo divertimento de uns levou ao sofrimento de outros, sem que isso fosse necessário ou inevitável.

O secretário Bonduki louva o “diálogo entre o poder público e os blocos” e a transformação do “espaço público em lugar de festa, sociabilidade, namoro e liberdade”. Tudo muito bonito e certo. Só que ele se esqueceu de incluir naquele diálogo todos os que poderiam ter seus movimentos limitados pela festa e ainda teve o desplante de dizer que “o conforto dos moradores não foi esquecido”.

Seu chefe, o prefeito Haddad, seguiu evidentemente a mesma linha. O papel da Prefeitura, disse, é mediar a vontade dos foliões e o desejo de tranquilidade dos moradores. É mesmo. Mas entre as palavras bonitas e enganadoras de Haddad e a realidade há um abismo.

Nada impede, a não ser a empolgada incompetência do prefeito e de seu governo, conciliar o carnaval de rua com os interesses dos que dele não participam. Isso é bom para as duas partes e ainda pode abrir uma nova frente para o turismo na capital, já que uma festa bem organizada é capaz de atrair visitantes. Mas isso fica, quem sabe, para o próximo governo.

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