Mais uma escola invadida por manifestantes é depredada em Osasco


Sala da escola Francisca Lisboa Peralta, vandalizada neste sábado (5) em Osasco (Grande SP)


A escola estadual Francisca Lisboa Peralta, em Osasco (Grande SP), ocupada há 15 dias em protesto contra a reorganização no ensino proposta pelo governo Alckmin (PSDB), foi depredada no início da tarde deste sábado (5).

A unidade é a segunda a ser vandalizada na cidade em uma semana. O primeiro caso, na noite de segunda (30), ocorreu no colégio Coronel Antônio Paiva de Sampaio.

Alunos da Francisca Lisboa Peralta afirmam que foram ameaçados e obrigados a deixar o local por grupo de jovens responsável pelo crime.

Em nota à imprensa, a Secretaria da Educação repudiou os atos de vandalismo. "A pasta lamenta que o direito à manifestação de alguns estudantes contrários ao processo de reorganização das escolas termine com a depredação de um patrimônio público e educacional, prejudicando centenas de alunos e comprometendo o término do ano letivo."

Conforme a secretaria, que ainda calculará o prejuízo, a polícia foi chamada por vizinhos que ouviram barulho no local. Salas de aula e de coordenação e a cozinha foram depredadas.










'Transporte de SP é melhor do que paulistanos pensam', diz diretor inglês sobre Metrô e CPTM


Rafael Balago - Folha.com

Avener Prado/Folhapress

Damian Brown, diretor de desenvolvimento de negócios do aplicativo Citymapper, tem como uma de suas funções viajar pelas metrópoles do mundo para testar o transporte público de cada uma delas e coletar dados sobre o tempo de viagem.

Brown esteve em São Paulo durante duas semanas e andou em todas as linhas de metrô e trem e fez alguns trajetos de ônibus, para conferir se os dados passados pelo governo estavam corretos. Essas informações são usadas pelo app para calcular rotas com mais precisão.

"O transporte de São Paulo é muito bom. As pessoas que o criticam deveriam experimentar", disse, em entrevista no espaço de coworking usado pelo aplicativo em Londres.

Damian conhece bem a cidade. Na década de 1990, ele morou por três anos na Vila Mariana e trabalhou em uma fábrica de escovas em Diadema. Engenheiro mecânico, ele mudou de área após fazer um MBA e trabalha com dados de transporte há mais de uma década. Leia a seguir a entrevista.

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sãopaulo - Como avalia o transporte de São Paulo?
Damian Bown - Passei duas semanas andando em todas as linhas do CPTM e do metrô, cronometrando tempos de viagem. O transporte da cidade é muito melhor do que a maioria dos paulistanos acha. As estações são super limpas e, geralmente, modernas. Tem gente que reclama que a transferência na Paulista é lotada, mas é igualzinho a passar em Embankment às 8h da manhã. Essas redes são feitas para estar cheias na hora do pico. Quem usa carro em Sâo Paulo como desculpa de que o sistema não funciona tem que tentar usar uma vez. Vão descobrir que os sistemas estão melhores do que imaginavam.

Não presenciou superlotação?
Sim, quando cheguei a Guaianases. Estava tão lotado que não consegui levantar meu braço para ver meu relógio. Tive que voltar no dia seguinte para pegar o tempo.

E os ônibus?
São bons, mas o problema é que eles enfrentam o trânsito e os motoristas de Sâo Paulo, que fecham cruzamentos, travam ruas. Nas faixas exclusivas, funcionam muito bem.

Como é a relação com o governo?
A prefeitura [de São Paulo] faz um trabalho bem feito com os dados abertos. A qualidade dos dados é razoável, mas não suficiente para onde precisamos chegar. Às vezes, percebemos que os dados do site da SPTrans estão melhores do que os que recebemos. E falta uma relação mais próxima para passarmos a eles os feedbacks dos usuários sobre erros nos dados. Não é enviar um e-mail de vez em quando. Precisa ter um formato que precisa ser combinado. Recebemos centenas de milhares de feedbacks. Todos os dias, em Londres mandamos informações para a TFL (órgão de transporte local) e uma vez por semana, temos um telefonema para rever esse feedback. [Procurada, a SPTrans disse que "não há versões e/ou acessos diferenciados aos usuários" e que disponibiliza um formulário para desenvolvedores enviarem sugestões].

Há planos de mapear locais de risco para criar rotas seguras?
Estamos tentando melhorar nesse aspecto, mas precisa ser feito com cuidado. Onde você chama de favela, tem um morador ali que pega ônibus todos os dias. Se tiro essas rotas do sistema, essas pessoas não terão como ir para casa. E de onde vou pegar esses dados sobre quais lugares são perigosos? Onde você não vê problemas, outra pessoa pode não querer passar ali sozinho. Até agora, acho que ninguém resolveu esses aspectos.

O relevo de São Paulo atrapalha o uso da bicicleta?
Impedimento é, mas tem muito lugar que é bom para andar de bicicleta, como entre Jardins e Vila Olímpia. Se já está lá em cima, na Paulista, indo pro Paraíso, não é tão íngreme. Mandamos alguém ir checar no local as rotas por ciclovias antes de incluir no app.

Como mudar a cultura que privilegia o carro?
Tem que fazer pequenos passos em ambos os lados. Não só colocar multas nos carros, mas fazer melhorias nos ônibus, como no sistema de bilhetagem. Ruas de Londres estão sendo estreitadas para virar ciclovias, inclusive avenidas principais. A opinião pública já aceitou. A guerra já passou. Nâo tem um lobby do carro que atrai audiência ao defender as ruas para automóveis.

Porque aplicativos para motoristas vieram primeiro?
Para montar algo como o Waze, só precisa de marketing para atrair usuários, e estes geram os dados, o que facilita a expansão. O Citymapper depende das políticas de dados abertos de cada cidade. Se eles não existem, temos que ir lá e trabalhar. Em Istambul, não havia dados e os usuários se juntaram para organizar as informações sobre as linhas. Os dados fornecidos pelos usuários às vezes são melhores do que os das fontes oficiais.

Qual o tamanho do mercado para apps de transporte público?
Uma cidade como Londres tem 10 milhões de viagens por dia em transporte público. São Paulo tem um pouco mais do que isso. Multiplique isso por todas as zonas urbanas do mundo. Esse é nosso público-alvo. Estar na tela principal dos celulares de todo mundo que vive nas cidades grandes vai criar oportunidades de renda no futuro.

E como o aplicativo se mantém hoje?
Temos investidores, que não estão preocupados em gerar renda agora. Eles têm foco em atrair o máximo de usuários pela qualidade do serviço. Se você faz isso, vem renda. No futuro, as fontes podem ser bilhetagem ou venda de serviços para quando o usuário está com tempo sobrando, por exemplo.

Os repórteres Avener Prado e Rafael Balago viajaram a Londres a convite da missão diplomática britânica no Brasil.

"A coisa está preta", artigo de Ferreira Gullar


Folha de S.Paulo


Se a situação do petismo já estava ruim, nestas últimas semanas piorou, e muito. Para isso contribuíram, sem dúvida alguma, novas prisões –culminando com a do líder do governo no Senado, sua aprovação pelos senadores e a reação da direção nacional do PT em face dela.

A prisão de Delcídio do Amaral, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, causou espanto não apenas pelo inesperado da decisão como pelos elementos de prova que a determinaram: as gravações em que ele revela planos de subornar Nestor Cerveró para que não o denuncie em sua delação premiada. Em função disso, com a colaboração do banqueiro André Esteves, oferece-lhe uma mesada de R$ 50 mil e mais R$ 4 milhões, além de meios para deixar clandestinamente o país. Tudo isso foi gravado pelo filho de Cerveró e entregue à Polícia Federal.

Conforme a Constituição, teria o Senado autoridade para revogar aquela decisão do STF. Não obstante, em vez de revogá-la, aprovou-a por 59 votos contra 13. Todos esses fatos –que incluíram as prisões de André Esteves, do advogado de Nestor Cerveró e do chefe de gabinete de Delcídio– ocuparam em tempo integral o noticiário dos jornais e da televisão, sem falar nas redes sociais, que exigiam a punição dos acusados.

A sessão do Senado em que se deliberou a decisão do Supremo foi transmitida pela televisão. O ambiente ali era constrangedor. Senadores que usaram da palavra na ocasião, embora apoiando a decisão do STF, diziam-se constrangidos em ter de aceitar a condenação de um colega, tanto mais que consideravam Delcídio um homem cordial e amigo. Mas os fatos tornavam indiscutível a culpa do senador Delcídio do Amaral na tentativa de impedir a apuração da verdade pela Operação Lava Jato.

Diante disso, qual foi a atitude da Presidência da República, uma vez que o personagem principal deste novo escândalo era seu líder no Senado? Silêncio absoluto, como se nada tivesse a explicar ao país. No entanto, o senador Delcídio era homem de confiança da presidente Dilma e o principal articulador dos interesses do governo no Senado Federal. Enquanto o país se espantava diante do escândalo, o Planalto se fingiu de morto.

Mas aquele silêncio pegava mal, tornava-se intolerável. Foi aí que a direção do PT, em nota assinada por seu presidente, Rui Falcão, sentiu-se forçada a tomar posição diante do escândalo. E o que diz a nota? Embora se trate de um importante membro do partido pela posição mesma que ocupa no Senado, a direção do PT afirmou, na referida nota, que, como Delcídio não estava sendo punido em função de "sua atividade partidária", não merecia a solidariedade do partido.

Tal afirmação provocou reações indignadas ao ser lida na sessão do Senado que discutia a prisão de Delcídio. Com razão, observou-se na imprensa que, quando da prisão de José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Vaccari Neto, o PT prestou-lhes irredutível solidariedade, apesar das falcatruas de que eram acusados e que resultaram em condenações e prisões. Deve-se, então, concluir que, quando usaram o dinheiro público para comprar deputados ou para encher os cofres do partido, desempenhavam legítima "atividade partidária".

Na verdade, o problema é que os petistas –de Dilma a Lula, da direção do PT a seus representantes– já não sabem o que dizer em face de tantos escândalos e do desastre a que conduziram o país. Rui Falcão, em sua nota lamentável, disse o que Lula e Dilma gostariam de dizer: Quem mesmo? Delcídio? Nunca ouvi falar!

O certo é que, a esta altura, o lulo-petismo já não suporta assumir a culpa de mais um de seus membros comprometido com a corrupção. Por isso negou-se a defender Delcídio, como se se tratasse de alguém sem qualquer importância em seu esquema de poder. Sucede que ele, como líder do governo, desempenhava papel decisivo para viabilizar, no Congresso, as propostas do Planalto. Essa é a razão por que, sem ele, criou-se uma situação crítica, que ameaçava levar ao colapso importantes setores da administração federal. Já imaginou se ele decide ir à forra e adere à delação premiada? O PT que se cuide.


Ferreira Gullar 
é cronista, crítico 
de arte e poeta.


"SOS Brasil", artigo de Fernando Henrique Cardoso


É hora de pensar no povo, que está perdendo emprego e renda, e nos interesses do País

O Estado de S.Paulo

Deixo escrito este artigo uma semana antes de sua publicação: passarei os próximos dias em Lisboa para coordenar um encontro internacional na Fundação Champalimaud sobre o futuro da ciência no decorrer do século. Tema ousado no qual posso arriscar apenas algumas hipóteses na área das “ciências” humanas. Daí minha preocupação: a situação político-econômico-social do País muda tanto que o escrito hoje pode se tornar inadequado ou envelhecido em uma semana. Sem alternativa (a não ser calar sobre o que nos aflige), escrevi o que segue.

Economizemos palavras, a paralisação de decisões, tanto no Executivo como no Legislativo, e a sensação subsequente de anomia sufocam todos. Ainda agora o governo, em confissão pública de incapacidade de prever e agir, bloqueou R$ 10 bilhões de despesas correntes. Gesto extremo, mas de pouca eficácia. Estimativas mostram que este ano o País terá um déficit primário de cerca de 1% do PIB, maior que o do ano passado, um déficit que se aproxima de 10% do PIB, quando contabilizado o pagamento de juros! Para evitar que a dívida pública continue a crescer como bola de neve deveríamos passar a ter um superávit de 2,5% ao longo dos próximos anos, com a economia crescendo ao menos 2% e o juro real caindo a 4%. Essa mudança parece cada vez mais improvável no quadro político atual. Para evitar a perda de controle sobre a evolução da economia são urgentes atos e gestos que abram um horizonte de esperança e devolvam a confiança perdida.

Como fazer isso, se maior do que a crise econômica é a falta de credibilidade e respeito?

Há uma crise político-moral. Desnecessário repetir os fatos que nos levaram a tal situação: basta a prisão, com anuência do Senado, do líder do governo, senador em pleno exercício do mandato, para exemplificar a gravidade extrema do momento vivido pelo País. Poucos ousaram levantar a questão das imunidades ou puseram em dúvida o “flagrante continuado”. Não porque faltassem argumentos, mas porque faltavam condições morais para tanto. A mera suspeita de malfeitos políticos gera imediatamente a sensação de que os acusados são culpados e, pior, nos casos da Lava Jato, em geral são mesmo.

Existe nas pessoas a sensação do “não dá mais”. Há indícios veementes, quando não provas, de responsabilidade criminal de um número crescente de figuras que ocupam altas posições nas instituições políticas e no mundo empresarial, parte delas sendo pessoas próximas ao antecessor da atual mandatária. Embora não pareça haver envolvimento pessoal na montagem e gestão da organização criminosa que tomou de assalto o Estado brasileiro, Dilma Rousseff tem responsabilidade política pelo que aí está, quando mais não for, porque ocupa hoje a Presidência da República.

Verificado isso, que fazer? Falemos português claro: ninguém sairá por si mesmo de tamanha encrenca, nem governo, nem oposição, nem empresários, muito menos o povo, que no final paga o custo da inflação e do desemprego provocados pelos desatinos dos que estão mandando. A responsabilidade pelas crises é do lulopetismo, como há anos venho denunciando. Basta ler meu livro sobre A Miséria da Política para ver há quanto tempo. E não estou só nesta posição, há muitíssimos outros que desde o início viram com clareza o que aconteceria.

Trata-se agora de, ao reduzir os malefícios do lulopetismo, restabelecer a crença na democracia, dar prevalência à Constituição e criar uma nova situação de poder. Como? Há alternativas. A mais fácil seria a própria presidente pedir um crédito de confiança à Nação, sendo humilde e verdadeira, reconhecendo que errou, que desde o primeiro dia de sua reeleição (sabe-se a que custo...) deveria ter apelado à coesão nacional, nomeado um Ministério isento de acusações de corrupção, formado por gente competente, respaldada politicamente pela Nação, e não apenas por partidos, pondo fim ao execrável e falso “nós” (os bons) e “eles” (os malditos). Não o fez. Terá condições ainda de fazê-lo? Duvido, mas não fecho as portas à possibilidade.

Quando a situação de um país parece sem saída, é preciso buscá-la. Afastemos com firmeza, por indesejáveis, quaisquer soluções à margem da Constituição. Há o caminho da renúncia (o menos custoso), não por gesto de grandeza, mas ditada pela circunstância de que, paralisado o sistema decisório, chegará o momento em que ministros mais responsáveis e parte das forças políticas que ainda sustentam o governo poderão adverti-la de que não dá mais. Se quiserem saber minha torcida íntima (e não política), tomara que a própria presidente ainda encontre forças para reconstruir seu papel na História. Mas esta é impiedosa quando atores ficam aquém do que o momento exige.

Há outros caminhos. Nem preciso voltar a falar de impeachment, dos cuidados que ele requer. Essa medida não deve ser objeto de desejo, mas pode brotar de investigações e fatos. Que há este caminho, há, se não agora, mais à frente, pois é fragilíssima a aliança de conveniências que ora se vê entre a presidência da Câmara e a Presidência da República. Iniciado o impeachment, ou a presidente demonstra ainda ter forças para se recuperar ou se dá a substituição dentro da lei. Isso sem falar que o Supremo Tribunal Eleitoral pode vir a esbarrar em fatos incontornáveis que levem à convocação de eleições antecipadas.

Mas esse não é o ponto central deste artigo. Seja qual for o caminho de superação do impasse, com ou sem a presidente, precisamos promover a coesão nacional, incluindo todos os dispostos a fazer as mudanças necessárias. Primeiro, no sistema partidário-eleitoral. Segundo, nas contas públicas, inclusive da Previdência. Terceiro, na burocracia, para fazer valer a impessoalidade e o profissionalismo, eliminando o sectarismo ideológico e a incompetência. E por aí segue, com uma condicionante geral: nada a preço de silenciar a Justiça e entorpecer a Lava Jato e outras investigações em curso.

Não é o momento de pensar no “meu” interesse, nem no partidário, mas sim no do povo, que está perdendo emprego e renda, e nos interesses do Brasil, que está perdendo lugar no mapa dos países com futuro promissor. O Brasil espera grandeza.


*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, foi presidente da República