"É a hora da sociedade civil", artigo de Miguel Reale Júnior


O Estado de S.Paulo

O Estado Democrático de Direito está gravemente ferido. É necessário reconstruir a democracia, da qual um dos alicerces consiste na confiança da população nos agentes políticos que elege. Hoje, justificadamente, essa confiança inexiste no Brasil.

A democracia destaca-se por viver e conviver com as divergências, a serem superadas pelo diálogo e pela persuasão para a formação de uma maioria parlamentar legítima, respeitada pelas minorias. Todavia o confronto de ideias e de perspectivas, próprio da democracia, desapareceu do cenário político, substituído por entendimentos promovidos graças a arranjos financeiros com dinheiro público subtraído de empresas como Petrobrás, Sete Brasil, BR Distribuidora, Angra 3, Belo Monte.

Não se fez política, nem se praticou a democracia. Apenas se transitou num bazar de venda de apoios por dinheiro vivo ou graças à ocupação de cargos na administração, colocando apaniguados em postos estratégicos para obtenção de vantagens ou para demonstração de prestígio. Instalou-se a desabusada prática de exercer o poder para institucionalizar a ação corrosiva da corrupção como normalidade. A democracia foi corroída por dentro ao se obter uma maioria marrom, enlameada pela compra de consciências e do convencimento.

O poder econômico privado aliou-se a administradores públicos venais, abocanhando serviços superfaturados cujos frutos reverteram em parte para deputados e senadores, bem como para seus partidos, visando a assegurar ao Executivo uma maioria comprada. Os partidos da base governista fizeram caixa para enfrentar, com muitos recursos, as futuras eleições.

Formou-se um círculo pernicioso com o dinheiro público desviado desde o mensalão e consolidado no petrolão, pois esses numerários, em conluio com empresários, saíram dos cofres de órgãos do Executivo, pela ação de diretores, indicados por líderes políticos, e foram usados para manutenção de apoio parlamentar ao próprio Executivo.

Uma organização criminosa passou a dominar o País e suas instituições políticas, levando ao cúmulo de se eliminar a divisão de Poderes e o jogo de contrastes de perspectivas próprio da democracia. Parlamentares e administradores uniram-se na festança da fruição do dinheiro público desviado. A corrupção tornou-se o denominador comum por via do qual se compuseram Executivo e Legislativo visando à apropriação de vantagens indevidas de toda ordem.

Tão grave quanto era o liame tentado entre Presidência da República e presidência da Câmara dos Deputados, com vista a um acordo espúrio para garantia de mútua impunidade: o apoio de deputados do PT à absolvição do presidente da Câmara em troca da rejeição liminar dos pedidos de impeachment. Todavia, ao se recusar o PT a apoiá-lo, Eduardo Cunha acolheu o pedido de impeachment, escrevendo certo por linhas tortas.

A defesa do Estado Democrático de Direito é dever do advogado, como assinala o artigo 2o do novo Código de Ética. Hoje o mais frágil e mais urgente cliente do advogado é o Estado de Democrático de Direito. A sua defesa incumbe a todos nós advogados, bem como às nossas instituições.

Agora não se trata de lutar contra uma ditadura, nem de resistir às afrontas às liberdades civis e políticas, mas, sim, em ir mais a fundo, pois os alicerces, fincados pela Constituição de 1988, apodreceram. É preciso, portanto, reconstruir suas bases. Não é só o governo que está em crise, é o regime democrático que está. Como principais defensores do Estado Democrático de Direito, aos advogados cumpre assumir a dianteira para salvar a democracia, reestruturá-la, não só afirmando a necessidade de punição daqueles que a destroem pelo mal da corrupção, observado o devido processo legal, mas pugnando, mais do que já se fez, por medidas impeditivas da corrosão da democracia.

Os advogados, valendo-se de sua história de lutas, devem exigir, pressionar com força por mudanças de fundo urgentes, para tanto mobilizando novamente a sociedade, já mobilizada pelos diversos movimentos contra a corrupção que levaram milhões às ruas, agora tendo por pauta a reforma estrutural do Estado. Não basta afastar Dilma. É preciso também preparar o futuro.

É hora de nos engajarmos nessa luta pela democracia no Brasil, sem meios-termos, sem receios, conclamando as demais entidades da sociedade civil que congregam administradores de empresas, contadores, engenheiros, médicos, auxiliares de saúde, arquitetos, promotores e juízes, trabalhadores da indústria, comerciários, etc., bem como entidades do terceiro setor e os inúmeros participantes dos movimentos construídos pelas redes sociais, para em uma só voz exigir mudanças no sistema eleitoral, fonte de muitos males, e no regime de governo, com a adoção, pelo menos, de presidencialismo parlamentarizado, visando a facilitar a responsabilização dos governantes.

Cumpre, também, estabelecer eficaz e sério Programa de Integridade, com inamovível e bem qualificado fiscalizador dos demais servidores em cada setor da administração pública, bem como nos partidos políticos, a serem responsabilizados pelos atos de seus membros. A eliminação de dois terços dos cargos em confiança na administração direta e indireta, assim como a aplicação de testes de honestidade e garantia de confidencialidade para informantes de práticas de corrupção são outras propostas positivas.

Além do mais, é importante o fortalecimento dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Ministério Público Eleitoral, para fiscalizar a estrutura de campanha dos candidatos e suas contas durante o processo eleitoral.

Só assim se pode refazer a confiança do povo no processo democrático. Dessa forma, cumpre aos advogados tentar salvar, em conjunto com várias forças sociais, o seu cliente preferencial, o combalido Estado Democrático de Direito. É a hora da sociedade civil!


* MIGUEL REALE JÚNIOR É ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR SÊNIOR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA

‘Dilma se comparou a Cunha’, afirma FHC


Na Europa, ex-presidente diz que defesa feita pela presidente não trata das acusações de crime de responsabilide fiscal

LUCAS ROHAN - O ESTADO DE S.PAULO


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fez críticas nesta sexta-feira, 4, à defesa apresentada pela presidente Dilma Rousseff após o anúncio da abertura do processo de impedimento contra ela na Câmara, quarta-feira passada. “Eu acho que ela mesma se comparou ao Eduardo Cunha e não deveria ter feito isso porque ninguém está dizendo isso. O que está sendo dito não é sobre ela como pessoa, é como presidente, que teria havido um abuso na lei de responsabilidade fiscal. Não existe nenhuma acusação menor a ela”, disse FHC, durante evento em Lisboa.

Na quarta-feira, Dilma afirmou que não mantém contas na Suíça, numa referência direta ao presidente da Câmara, alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Questionado sobre fundamentos jurídicos, FHC afirmou que a abertura do processo de impeachment da presidente é “constitucional”. “Claro que existe(lógica para o impeachment), é constitucional. Não temos o que discutir.”

Segundo ele, “impeachment é sempre um processo delicado. Agora é preciso ver os fundamentos. Os advogados que o fizeram são competentes. E, depois, é preciso ver a questão política, se a maioria se dispõe a votar a favor da abertura do impeachment”, comentou.

Fernando Henrique classificou de “manobra” a discussão do PSDB sobre a possibilidade de cancelar o recesso parlamentar. Para FHC, é natural que haja esse debate, mas ele acredita que não vai haver cancelamento das férias do Congresso. “Algum recesso sempre há, temos o Natal etc. Por mais que as pessoas fiquem aflitas, há. Isso são manobras de um lado e do outro. A situação é muito grave, não precisa de manobra. Eu acho que vai se impondo a realidade progressivamente e quanto mais debate houver, quando mais aberto for o Congresso, melhor”, defendeu o ex-presidente.

Ainda de acordo com FHC, o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff não pode ser “objeto de desejo”. “Eu acho que o impeachment não deve ser objeto de desejo. Acontece. No caso, precisamos ver. Se acontecer mesmo, teremos que levar a fundo porque o Brasil não pode ficar paralisado e neste momento ele está”, disse FHC. Para ele, “ninguém no Brasil quer golpe”. “Não há quem possa dar sustentação ao golpe no Brasil. Ninguém quer golpe. O Brasil quer mais eficiência na ação, mais legitimidade no Congresso. Ninguém quer golpe, está fora de cogitação”, afirmou. A democracia, declarou, está “viva”. “A Justiça está funcionando, a mídia funciona, temos liberdade, faltam instituições mais sólidas e mais representativas, mas não há risco para a democracia.”

TSE dá prazo para Dilma e Temer se defenderem sobre ação que pode levar à cassação do mandato



Defesa da presidente e do vice tem 7 dias para se manifestar sobre o processo que investiga abuso de poder político e econômico nas eleições de 2014 

GUSTAVO AGUIAR - O ESTADO DE S.PAULO 


Enquanto se prepara para tentar barrar o processo de impeachment no Congresso Nacional, a presidente Dilma Rousseff precisará também se defender em uma ação que pode cassar o mandato dela e do vice, Michel Temer. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou nesta sexta-feira, 4, o acórdão sobre o processo que investiga abuso de poder político e econômico nas eleições de 2014 .

A defesa tem 7 dias para se manifestar a partir da notificação. Durante esse prazo, os advogados que representam a chapa Dilma-Temer poderão apresentar provas e indicar testemunhas, além de solicitar a produção de outras provas. 

De acordo com o processo, há indícios de irregularidades na contratação da empresa Focal Confecção e Comunicação Visual, que prestou serviços à campanha na ordem de R$24 milhões. Segundo o processo, também há indícios de financiamento de campanha com dinheiro oriundo de corrupção em contratos com a Petrobrás.

O TSE decidiu abrir a ação de impugnação de mandato em outubro. Desde agosto, no entanto, quando o julgamento foi paralisado por um pedido de vista, a corte já possuía maioria formada para abrir a apuração. Foi a primeira vez que a Justiça Eleitoral autorizou uma investigação como essa contra a campanha de um presidente da República. A relatoria do processo é da ministra Maria Thereza de Asssis Moura.

O vice-presidente Temer quer que a defesa dele seja apartada da de Dilma. Temer argumenta que sua prestação de contas foi feita separadamente do balanço apresentado pela presidente.

Propina como doação continuaria no 2º mandato de Dilma, diz empreiteiro


Márcio Falcão, Rubens Valente e Ranier Bragon - Estadão

Dilma em evento com o empreiteiro Ricardo Pessoa 

O empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, disse em sua delação premiada no STF (Supremo Tribunal Federal) que entendeu, ao conversar com o atual ministro da Comunicação Social Edinho Silva sobre recursos para a campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff, em 2014, que o esquema de pagamento de doações para obtenção de obras na Petrobras continuaria em um eventual segundo mandato da presidente.

Nesta quinta-feira (3), pela primeira vez o STF tornou pública a íntegra da delação premiada de Pessoa homologada pelo ministro do STF Teori Zavascki. Ele prestou 29 depoimentos em maio deste ano, mas os termos estavam sob segredo de Justiça.

Pessoa contou que manteve três contatos pessoais com Edinho, então tesoureiro da campanha de Dilma, no período da campanha eleitoral de 2014, duas vezes no comitê central do partido, em Brasília, e uma vez na sede da UTC em São Paulo.

Segundo Pessoa, o contato com Edinho foi feito a pedido do tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, "a pretexto de que era necessário contribuir para as eleições de 2014, inclusive para a campanha presidencial".

"Vaccari queria, além da conta corrente que mantinha com Pessoa, mais R$ 10 milhões", contou Pessoa.

O empreiteiro reagiu, dizendo que era muito dinheiro. Ao final das conversas, disse ter sido "persuadido de maneira bastante elegante". Edinho teria dito, segundo o empreiteiro: "Você tem obras na Petrobras e tem aditivos, não pode só contribuir com isto. Tem que contribuir com mais. Eu estou precisando".

Ao final das conversas, houve a decisão da UTC de fazer doações de forma oficial, segundo Pessoa, "o que foi expressamente feito em razão da vinculação feita entre o pedido e os contratos da UTC na Petrobras e os entraves que poderiam ser postos".

Pessoa disse que, em um dos encontros, Edinho afirmou: "O senhor tem obras no governo e na Petrobras, então o senhor tem que contribuir. O senhor quer continuar tendo?". De acordo com o termo de delação, Pessoa não interpretou a frase como uma ameaça, "mas sim como a afirmação de que se a presidente Dilma ganhasse, tudo continuaria como estava, ou seja, o sistema vigente funcionando".

O empreiteiro afirmou que os valores para a campanha de Dilma foram acertados em R$ 10 milhões, mas apenas R$ 7,5 milhões foram pagos a parte restante não foi depositada porque o empresário acabou preso pela Operação Lava Jato em novembro de 2014.

O pagamento, disse Pessoa, foi acertado em um restaurante árabe na rua Haddock Lobo, em São Paulo, com Manoel de Araújo Sobrinho, que, na época, era "gerente macro regional da região sudoeste da Presidência da República, Secretaria de Relações Institucionais". Após Edinho passar a ser investigado no STF por suposta ligação com a Lava Jato, Araújo Sobrinho deixou o cargo de chefe de gabinete do ministro.

Procurada, a coordenação jurídica da campanha da presidente Dilma Rousseff afirmou que não iria se manifestar já que não teve acesso à íntegra da delação e destacou que Pessoa teria dito, em depoimento à CPI da Petrobras da Câmara que as doações não eram propina. Na noite de sexta (4), quando aFolha teve acesso à delação, Edinho não foi localizado para comentar.


CACHAÇA

Aos investigadores, o executivo relatou ainda que repassou R$ 2,4 milhões de forma não oficial para a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Os recursos foram destinados pelo consórcio Quip, responsável pela obra da Plataforma P53 da Petrobras, e repassados a José Filippi Júnior, que foi tesoureiro da campanha e solicitou que o pagamento fosse feito em espécie.

O empreiteiro afirmou que não tinha certeza se Lula sabia da origem do dinheiro.

O depoimento fala que a verba de caixa dois foi feita por uma conta no exterior por meio do trust Quadrix, empreendimento quando uma pessoa passa a um terceiro a administração de seus bens. A conta foi abastecida por meio de superfaturamento de fornecedores e o recurso era usado para pagar pessoas. Ele não detalhou como o dinheiro chegava.

Ricardo Pessoa revelou ainda que presenteava Lula com cortes de tecidos (custo médio de R$ 2,5 mil) e cachaça da "reserva especial da UTC". O empreiteiro afirmou que não tinha certeza se Lula sabia da origem dos repasses. Os mimos eram enviados para o Palácio do Planalto e depois para o Instituto Lula.

Sobre a relação com o ex-ministro José Dirceu, Ricardo Pessoa disse que o petista foi bastante direto e objetivo com o declarante, dizendo que poderia auxiliá-lo em diversos países, tais como Peru, Colômbia, Equador, Cuba e Espanha, para obras e teriam acertado um contrato de consultoria com pagamentos em 12 parcelas em torno de R$ 100 mil cada.

Dirceu teria dito que conhecia os países e o governo destes países, tendo acesso político, mas o empreiteiro optou por começar pelo Peru.


CAMPANHAS

Em sua delação, Pessoa afirma também que, a pedido do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, pagou despesa de R$ 2,6 milhões da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, em 2012. O empresário afirma ter "descontado" o valor da conta que mantinha com Vaccari. A Folha não conseguiu contato com a assessoria do prefeito no final da noite desta sexta.

Segundo a transcrição de sua delação, Pessoa diz também que os R$ 150 mil em doação eleitoral feita ao deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) tinham o objetivo de evitar sua convocação pela CPI da Petrobras, da qual o parlamentar era integrante. Delgado também não foi localizado na noite desta sexta. O deputado sempre negou ligação com o esquema.

Ricardo Pessoa também contou que estabeleceu o pagamento de uma mesada de R$ 50 mil ao advogado Tiago Cedraz para a prestação de informações oriundas do TCU (Tribunal de Contas da União) de interesse da UTC. Ele é filho do presidente do tribunal Aroldo Cedraz e teria acertado tráfico de influência para entregar informações privilegiadas, bem como exercia influência na área técnica e no plenário da corte. Cedraz também sempre negou as acusações.

Já o deputado Paulinho da Força (SD-SP), teria recebido doação de R$ 150 mil de Pessoa como forma de "garantir acesso ao político". Pessoa disse aos investigadores que a Força Sindical era preponderante na Hidrelétrica São Manoel, construída pela UTC. A doação teria o objetivo de "garantir o andamento da obra". A Folha não conseguiu falar com o deputado no final da noite desta sexta.

Pessoa também relata que na licitação para as obras da usina nuclear de Angra 3 o então diretor geral da Eletrobras, Valter Luiz Cardeal, teria passou a pleitear um desconto de 10% no valor da obra, mas que as empresas concordaram com 6%.

Por isso, Cardeal teria pedido às empreiteiras que repassassem os 4% na forma de doações eleitorais. "Pelo que Ricardo Pessoa tem conhecimento, Valter Luis Cardeal é pessoa próxima da senhora presidenta da República, Dilma Rousseff", diz a transcrição da delação.