Relatório detalha movimentação milionária nas contas de Lula, Palocci e Erenice


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Um novo relatório do órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros petistas Antonio Palocci e Erenice Guerra movimentaram recursos milionários após deixar o governo, de forma incompatível com suas atividades no setor privado, de acordo com reportagem publicada pela revista "Época" na edição que chega às bancas neste sábado (31).

Segundo o relatório obtido pela revista, produzido pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), as empresas de Lula, Palocci e Erenice movimentaram R$ 294,6 milhões em suas contas desde 2008. O valor representa a soma de entradas e saídas, ou seja, o que faturaram com seus clientes, mais o que repassaram a outras contas para realizar despesas, investimentos e aplicações financeiras, por exemplo.

De acordo com o Coaf, a empresa criada por Lula em 2011 para contratar suas palestras faturou R$ 27 milhões até maio deste ano e transferiu R$ 25,3 milhões para outras contas, movimentando ao todo R$ 52,3 milhões. O faturamento da empresa foi revelado em agosto por reportagem da revista "Veja" baseada em outro relatório produzido pelo Coaf.

Palocci foi ministro da Fazenda de Lula e abriu sua empresa de consultoria, a Projeto, em 2006, ano em que deixou o governo e se elegeu deputado federal. Ele movimentou R$ 216,2 milhões até abril deste ano, segundo o relatório do Coaf divulgado pela revista "Época". Desde junho de 2011, quando deixou o posto de ministro da Casa Civil do governo da presidente Dilma Rousseff, a consultoria de Palocci faturou R$ 52,8 milhões, segundo o Coaf.

Palocci deixou o governo Dilma após a Folha ter revelado a existência de seus negócios como consultor e a multiplicação de seu patrimônio pessoal. Ele sempre defendeu suas atividades como legítimas e se recusou a revelar a identidade de seus clientes. Entre 2007 e 2010, quando Palocci era deputado, a Projeto faturou R$ 35 milhões, de acordo com informações repassadas pela Receita Federal ao Ministério Público Federal.

Segundo a reportagem da revista "Época", o relatório do Coaf mostra que Lula repassou recursos a seus filhos e investiu no ano passado R$ 6,2 milhões num plano de previdência privada.

Em nota, o Instituto Lula informou que os valores se referem a 70 palestras ministradas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contratadas por 41 empresas, "todas realizadas, contabilizadas e com os devidos impostos pagos". A nota enfatiza que "não há nada de ilegal na movimentação financeira do ex-presidente" e que "os recursos são oriundos de atividades profissionais, legais e legítimas de quem não ocupa nenhum cargo público".

No caso de Palocci, o relatório diz que sua consultoria faturou R$ 4,7 milhões com a Caoa, montadora e revendedora de veículos investigada na Operação Zelotes suspeita de envolvimento com suposto esquema de compra de medidas provisórias. Investigadores investigam suspeitas de que houve pagamento de propina para garantir incentivos fiscais para as montadoras na MP 471, aprovada pelo Congresso no fim de 2009.

A relação de Palocci com a Caoa já era conhecida. Em maio, a empresa afirmou à Folha que o ex-ministro prestou consultoria em dois períodos, de 2008 a 2010 e de 2012 a 2013, "nas áreas de planejamento estratégico, econômico, financeiro e de relações internacionais". A empresa disse que "não comenta detalhes sobre contratos".

A assessoria de imprensa do ex-ministro Antonio Palocci afirmou que seus ganhos e os de sua empresa "estão clara e transparentemente registrados e sempre informados às autoridades competentes".

Em nota, chama de "caluniosas e mentirosas as ilações" e que buscam relacionar os serviços da Projeto Consultoria à aprovação de benefícios ao setor automotivo. Afirma ainda que Palocci está afastado da vida pública há mais de quatro anos e que retomou as atividades empresariais nesse período.










ERENICE

Erenice Guerra foi secretária-executiva da Casa Civil quando Dilma era a ministra, no governo Lula, e sucedeu a chefe quando ela deixou o posto para concorrer à Presidência nas eleições de 2010. Erenice deixou o cargo após acusações de tráfico de influência envolvendo sua família no âmbito do ministério.

Segundo a revista "Época", o escritório de advocacia da ex-ministra recebeu R$ 12 milhões entre agosto de 2011 e abril deste ano e transferiu R$ 11,3 milhões a outras contas, movimentando um total de R$ 23,3 milhões no período. Procurada pela Folha, a ex-ministra não foi localizada.

PIMENTEL

Ainda de acordo com a revista, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), chamou atenção do Coaf ao fazer um saque de R$ 150 mil dois dias após vencer as eleições. Na análise das movimentações, diz a revista, os investigadores apontaram um "comportamento atípico" do governador, já que ele teria apresentado informações incorretas sobre a operação ou evitado esclarecê-la.

A Polícia Federal investiga se o comitê do PT em Minas recebeu recursos ilícitos de contratos assinados entre órgãos públicos e empresas de Benedito Rodrigues de Oliveira, amigo de Pimentel, preso com R$ 113 mil em dinheiro vivo dentro de um avião. A Operação Acrônimo averigua supostos desvios de recursos para a campanha de Pimentel ao governo de Minas, em 2014, e suspeitas de tráfico de influência.

'Dilma não tem vocação para conversa', diz FHC


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Roberto D'Avila e Fernando Henrique Cardoso

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse nesta sexta-feira (30) que a atual presidente da República, Dilma Rousseff (PT), não tem vocação para conversa.

"Ela [Dilma] não tem a vocação para a conversa. Com o Congresso. Política é conversa", afirmou, em entrevista ao jornalista Roberto D'Avila na GloboNews.

Durante sua fala, o tucano fez diversas críticas à habilidade de liderança da petista no contexto de crise.

Narrou, como exemplo, uma ocasião em que diz ter sido procurado pelo ministro da Justiça [José Eduardo Cardozo] "porque havia possibilidade de uma reforma política". De acordo com FHC, a conversa não vingou pois "Dilma mudou de orientação muito rapidamente".

"Qual o ponto firme que permita você levantar o edifício da construção?", perguntou.

"Estamos caminhando para uma situação crescentemente difícil, por causa, por um lado da crise econômica e, por outro lado, pela Lava Jato", disse. "Você tem que mexer em um monte de coisa para provocar um novo consenso. A crise fundamentalmente o que é? É falta de confiança. Por que não se faz nada? Porque ninguém está confiando que vá melhorar. Então tem que abrir um horizonte de apoios que possam mostrar a todos, e lá fora também, que o país sabe para onde vai."

Para FHC, cabe ao presidente expressar um rumo para o país e convencer o Congresso a seguir o caminho delineado.

"Sozinho você não faz", disse, acrescentando que Dilma está nessa situação.

O tucano admitiu que a situação da presidente não é fácil: "O sistema que nós montamos –político, partidário, eleitoral– fracassou. Não pode ter 30 partidos e 39 ministérios. Como é que você faz com 30 partidos?"

Há, atualmente, 35 partidos no Brasil. Até a reforma ministerial, no início do mês, o governo Dilma mantinha 39 órgãos com status de ministério. Foram cortadas oito pastas.

LULA

FHC insinuou que seu sucessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, possa ser atingido pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Após falar da importância de ser conciliador, foi perguntado sobre se conversaria com Lula. "É preciso esperar [para ver] quem estará em pé [após a Lava Jato]", porque as coisas têm que ser passadas a limpo", disse.

Em seguida, afirmou que o PT é um partido que gosta de hegemonia: "O PT é um partido importante, então você vai ter que conversar com o PT. Está no poder –mais ou menos. Por isso, pode conversar melhor. Se estivessem totalmente no poder, como eles gostam de hegemonia, eles conversariam de cima para baixo".

O tucano também criticou o uso da expressão "herança maldita" por governantes petistas do primeiro governo Lula para referir-se a sua gestão.

ITAMAR

Sobre seu antecessor, Itamar Franco, FHC disse que ele tinha uma visão "regressiva" sobre a globalização, já que acusou o tucano de não ter um "sentido nacional" ao defender que o Brasil se preparasse para competir em um mundo globalizado.