"O vandalismo de sempre", editorial do Estadão


O ESTADO DE S. PAULO


Manifestantes chutam portão do Palácio dos Bandeirantes durante um protesto dos estudantes

Mais uma vez, confundindo vandalismo com protesto, estudantes da rede pública de ensino básico impediram o governador Geraldo Alckmin de participar de um evento numa faculdade de São José dos Campos e depredaram o portão de entrada do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Mostraram, assim, o que aprenderam com os líderes sindicais do professorado – uma turba que há 15 anos agrediu fisicamente o governador Mário Covas nas escadarias da Secretaria da Educação, na Praça da República, e desde então vem paralisando importantes artérias da capital e promovendo longas greves na defesa de interesses corporativos e políticos. A última greve foi deflagrada no primeiro semestre deste ano e durou três meses.

O ex-governador Mario Covas, durante confronto com manifestantes em 2000, onde foi agredido 

Desta vez, o pretexto para uma nova demonstração de violência e incivilidade – que ocorreu no Dia do Professor – é a reforma dos ciclos de ensino anunciada pela Secretaria da Educação para o próximo ano. Em face da queda na demanda de matrículas por causa das mudanças demográficas que o País vem sofrendo, a Secretaria Estadual da Educação identificou escolas que poderão ficar ociosas e decidiu racionalizar a rede pública. Entre 1988 e 2015, a rede perdeu 2 milhões de alunos. Entre outras medidas, a Secretaria irá remanejar salas de aulas e fechar algumas unidades, que serão convertidas em creches e colégios técnicos. Ela também pretende que cada unidade da rede passe a receber somente alunos de um único ciclo de ensino.

Atualmente, um terço das escolas da rede pública do Estado de São Paulo – que conta com 5.108 escolas e 3,8 milhões de estudantes – já funciona desse modo. Com a expansão dessa política, uma região com três escolas passará a ter uma unidade para cada um dos três ciclos do ensino básico – as cinco primeiras séries do ensino fundamental, as quatro séries finais e as três séries do ensino médio. O governo estadual informou que anunciará dentro de um mês as escolas que serão afetadas por essas mudanças e estima que elas provocarão a transferência de 1 milhão de alunos no Estado. Também promete que esses alunos serão transferidos para um colégio a um raio máximo de 1,5 km do endereço anterior.

Segundo as autoridades educacionais, a concentração de alunos de um determinado ciclo numa só escola pública permite a adoção de novas políticas pedagógicas e aumenta o potencial de aprendizagem. “Uma escola de três ciclos, em que a criança de 7 anos convive com adolescentes do ensino médio, não é uma boa escola, sob a ótica pedagógica”, afirma o secretário de Educação, Herman Voorwald. Mas, alegando que as mudanças causarão transtornos e problemas de logística para as famílias, pois os estudantes transferidos terão de mudar de rotina e buscar novos meios de transporte, a União Municipal de Estudantes Secundaristas (Umes) organizou vários protestos em frente das diretorias regionais de ensino, no interior e na capital.

O problema é que essas manifestações, pacíficas no início, acabaram sendo manipuladas politicamente pela diretoria do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). A entidade, que integra a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e é vinculada ao Partido dos Trabalhadores, não perde uma única oportunidade para criar constrangimentos ao governador Geraldo Alckmin. A entidade, que acusa a Secretaria da Educação de “não ter ouvido a comunidade”, teria até alugado ônibus para levar os alunos aos locais de protesto. A Defensoria Pública e o Ministério Público também pediram “esclarecimentos” às autoridades educacionais.

Assim, mais uma tentativa de reforma da rede estadual – independentemente de sua consistência técnica – é convertida pela Apeoesp em confronto político e ideológico. E, mais uma vez, áreas de competência exclusiva do Executivo correm o risco de ser travadas pela judicialização da educação pública. É por isso que é quase impossível modernizar um setor estratégico para a formação de capital humano de que o País tanto necessita para voltar a crescer e gerar inclusão social.

"A escola que faz a diferença", artigo de Rose Neubauer


Folha de S.Paulo


Estudos e pesquisas sobre desenvolvimento e cognição de crianças e jovens mostram que eles têm padrões de aprendizagem diferenciados e requerem espaços e situações de aprendizagem diversos.

Revelam, ainda, que a organização do espaço da escola e da sala de aula influencia a aprendizagem e o ensino. Permite à escola e ao professor fazer diferença e aumentar as chances de sucesso dos alunos.

Isso ocorre porque crianças de 6 a 10 anos devem estudar em espaços bem sinalizados, com mobiliário adequado, que lhes propiciem segurança e orientação. Nessa idade, a aprendizagem exige concretude: manipular materiais e livros, recortar e classificar, interpretar gravuras, maquetes.

Os materiais devem estar na sala de aula, estimular os alunos à descoberta. Os espaços ao ar livre devem propiciar jogos e brincadeiras, com escorregadores, gangorras etc.

Os pré-adolescentes e jovens, por sua vez, requerem equipamentos pedagógicos e espaços mais conformes ao seu desenvolvimento cognitivo e emocional: computadores, laboratórios, bibliotecas. A quadra poliesportiva aqui é fundamental para práticas coletivas, atividades musicais, teatrais e outras que estimulem o protagonismo juvenil.

Esse é o modelo de escola que existe em países onde o ensino é de boa qualidade e nas escolas brasileiras bem classificadas nas avaliações nacionais, pois considera-se fundamental a existência de prédios, salas de aulas e equipes pedagógicas específicas para as diferentes faixas etárias.

O modelo pedagógico atual de várias escolas da rede estadual paulista, no qual crianças pequenas, adolescentes e até adultos convivem e ocupam as mesmas salas de aula, desconsidera suas diferenças biológicas, cognitivas e psicológicas. Isso compromete a existência de ambientes de aprendizagem adequados, dificulta a atuação da equipe pedagógica e impede a melhoria da qualidade do ensino.

Consequentemente, a reorganização das escolas paulistas é urgente, necessária e importante. Separar os alunos em diferentes tipos de escolas (crianças de 1ª a 5ª séries; pré-adolescentes de 6ª a 9ª séries; jovens do ensino médio) possibilitará adequar instalações físicas, mobiliários e materiais a cada nível de ensino e de faixa etária.

A medida promove a fixação do corpo docente em uma ou, no máximo, duas escolas. O funcionamento das mesmas séries nos vários turnos da escola (manhã, tarde e noite) ampliará a oferta de aulas aos professores em uma única escola, racionalizando, inclusive, a jornada de trabalho do corpo docente.

Também potencializará a implementação, pela equipe escolar, de um projeto pedagógico para alunos com características semelhantes e diminuirá a prática do "bullying" e de outros tipos de violência contra os mais jovens.

Além disso, a medida dificulta a ação de interceptores de drogas em escolas de crianças e pré-adolescentes pela presença de familiares nas redondezas dessas escolas.

Esse é o modelo de escola que as famílias desejam e que professores comprometidos com a qualidade do ensino consideram mais adequado.

A população não deve se deixar enganar por argumentos falsos de que a evasão irá aumentar, salas ficarão superlotadas e o número de classes será reduzido. São Paulo tem hoje população decrescente e o maior percentual de crianças e jovens brasileiros nas escolas. A reorganização é o salto para o futuro, a garantia de uma melhor educação.

O que ocorrerá se prédios ficarem vazios? Serão transformados em outros equipamentos que a população necessita: escolas técnicas, postos de saúde, pré-escolas e creches.

*ROSE NEUBAUER, 70, é presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e do Instituto Protagonistés. Foi professora da Faculdade de Educação da USP, da PUC-SP e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas

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