"Pais e filhos", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo

Os rumos tomados pelos protestos contra o plano de reorganização do ensino estadual evidenciam seu caráter político-ideológico, com “movimentos sociais” coordenando a invasão de escolas. A ida das manifestações de estudantes para as ruas, bloqueando a circulação de pessoas e veículos, mostra uma perigosa tendência. Em nome de uma melhor educação, estudantes tentam impor o caos na cidade, atuando à margem da lei. Esperar que esse tipo de comportamento possa trazer algum benefício para o ensino público é algo que escapa à compreensão.

A contradição, no entanto, não para aí. Ao invés de atuarem como o seu dever lhes exige, alguns pais se têm colocado a favor das badernas dos filhos, como se o menor de idade tivesse, pelo simples fato de ser estudante, permissão para atuar como delinquente. Nunca é demais lembrar que os pais são os responsáveis legais de seus filhos menores de idade e, portanto, têm o dever de impedir que seus pupilos cometam ilegalidades.

No início, os protestos contra a reorganização da rede estadual de ensino estavam concentrados na escolas. Nos últimos dias, os alunos foram às ruas. Na terça-feira à noite, por exemplo, um protesto de estudantes bloqueou por quase três horas as duas pistas da Avenida 9 de Julho.

Ontem pela manhã, manifestantes bloquearam a Avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste. Policiais dispersaram a manifestação e encaminharam quatro jovens – dois deles menores de idade – ao 23.º Distrito Policial (Perdizes). Um dos manifestantes, de 20 anos de idade, identificou-se apenas como “Cebola”. Luta em tese por uma escola de qualidade, mas não sabe dizer o seu nome. Prefere esconder-se atrás de um apelido. Mas seu codinome revela mais do que seu nome: não está lá como estudante, e sim como profissional da baderna.

Logo em seguida, apareceram alguns pais no 23.º Distrito Policial. Ao invés de repreenderem seus filhos por seu ilícito comportamento, alguns progenitores protestaram contra a atuação policial. “Eles estão querendo criminalizar os alunos”, afirmou um dos pais presentes na delegacia, em entrevista ao Estado.

A criminalização não é feita pelos policiais. É a lei que determina o que é lícito e o que é ilícito. Respeitar esses limites não é passividade ou falta de consciência crítica – é manifestação de cidadania, de convivência democrática, de respeito ao espaço público e à liberdade de ir e vir. O respeito às leis é uma condição necessária para a convivência em sociedade, e é dever dos pais transmitir, com palavras e atitudes, esse ensinamento a seus filhos.

A reorganização da rede estadual de ensino, anunciada pelo governo do Estado de São Paulo, é um tema importante, que afeta a vida de muitos alunos e merece cuidadosa análise. Uma coisa, no entanto, é que as famílias e os professores queiram esclarecer o alcance das medidas do governo estadual e façam sugestões. Outra coisa, bem diversa, é a manipulação da questão educacional com fins partidários e o emprego da violência pelos manifestantes como tática de intimidação.

O descontentamento com a proposta de reestruturação da rede estadual de ensino não é motivo para bloquear ruas e avenidas. Democracia inclui participação e análise crítica, mas também exige respeito à lei, atitude que também significa respeito ao outro, ao patrimônio público e à cidade.

Com violência, não há avanço possível na educação. Com intimidação, não há melhoria possível no ensino. A delinquência deve ser tratada como delinquência. O aplauso dos pais à delinquência dos filhos apenas deixa mais distante a meta de um ensino público de qualidade. Evidencia, mais uma vez, que a grave situação da educação no País não é apenas resultado do desleixo do poder público. É também resultado da cumplicidade de alguns pais com o mau comportamento de seus filhos. Não é bem essa a educação que devem dar.

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