"O medo vence a esperança", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo


A postura do governo petista em relação ao tumultuado episódio da discussão e votação, no Conselho de Ética da Câmara, da admissibilidade da cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha por quebra de decoro parlamentar coloca em foco outra questão relevante: afinal, por que os petistas se apavoram tanto com a possibilidade de abertura de um processo de cassação do mandato de Dilma Rousseff? Por que a presidente se expõe à suprema humilhação de ceder à chantagem de Eduardo Cunha? A resposta é óbvia: o comando político do governo está convencido de que a instauração de um processo de impeachment resultará, inevitavelmente, no bilhete azul para Dilma Rousseff.

A bem da verdade, essa avaliação é perfeitamente realista. A economia – que pesa decisivamente na avaliação de um governo – vai de mal a pior. Na terça-feira, o IBGE deu mais uma péssima notícia: o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 1,7% no último trimestre, o que ocorre pela sexta vez consecutiva. Ou seja: há exatamente 18 meses – um ano e meio – a economia brasileira vem encolhendo, o que leva analistas a preverem o prolongamento da recessão pelo menos até meados de 2017.

Além disso, a sucessão de escândalos de corrupção envolvendo lideranças petistas e altas autoridades governamentais fez despencar a níveis baixíssimos o apoio popular a Dilma e a seu partido. Este paga, assim, pela inescrupulosa obstinação com que se dedicou primordialmente, nos últimos anos, a seu projeto de poder. A constatação óbvia de que figurões da política têm papel relevante nos esquemas de corrupção, como está sendo claramente demonstrado pelas investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de outros órgãos auxiliares, resulta num salve-se quem puder que interfere pesadamente no curso da administração pública, nos âmbitos tanto do Executivo quanto do Legislativo. O País está praticamente parado, enquanto Dilma Rousseff e Eduardo Cunha concentram suas energias em salvar suas próprias peles.

O papel do PT na novela do Conselho de Ética é simplesmente patético. O partido que foi criado tendo como um de seus objetivos principais restaurar a moralidade na vida pública não se peja de, por baixo do pano, numa articulação na qual Lula deixou suas impressões digitais, aceitar uma barganha indecente com Eduardo Cunha. E os ministros que Lula colocou no Planalto – Jaques Wagner, da Casa Civil, e Ricardo Berzoini, da Secretaria de Governo – partiram para cima dos três deputados petistas que integram o Conselho de Ética, tentando demonstrar que aliviar a pressão sobre o presidente da Câmara é um preço razoável a ser pago para evitar a ameaça do impeachment de Dilma. E também, é claro, pela “governabilidade”, que depende da aprovação parlamentar de medidas de interesse do Planalto. Algo assim como se a alternativa fosse ficar “contra Cunha” ou a favor do governo, ou seja “do povo”.

Dilma e seus ministros cederam à chantagem de Eduardo Cunha e tentam trabalhar para preservar o mandato dele no Conselho de Ética e, se for o caso, no plenário da Câmara. Esse é o preço a pagar pelo engavetamento, pelo espertíssimo Cunha, de qualquer iniciativa relativa ao impeachment da presidente. Para tanto, o governo petista precisa usar a mão do gato, no caso, os deputados petistas. E esses que se virem para explicar a suas respectivas bases eleitorais qual a dúvida sobre votar a favor ou contra um deputado que, segundo as últimas pesquisas, na opinião de 81% dos brasileiros deveria ter o mandato cassado.

O “pragmatismo” de Dilma coloca-a em confronto com o presidente nacional do partido, Rui Falcão, que publicou na internet uma recomendação – na verdade, uma satisfação à militância – para que os deputados do partido tomem posição contra Cunha. Esse aparente conflito sugere uma pergunta: e Lula, o que tem a dizer? Como de hábito em situações delicadas como essa, nada. Se o perigo ronda, o ex-presidente finge-se de morto. Mas há quem garanta que, na moita, autorizou Falcão a divulgar a tal “recomendação”. Faz sentido, porque o presidente do PT não costuma dar um pio sem antes consultar o chefe.

* Este editorial já estava na página do Estadão quando o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, anunciou que dará seguimento a pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Nenhum comentário:

Postar um comentário