"Poço sem fundo", editorial da Folha


Folha de S.Paulo


A situação da presidente Dilma Rousseff tornou-se tão delicada que já não há momento oportuno para o PT veicular propaganda partidária na televisão. Esta quinta-feira (6), mesmo assim, foi um dia especialmente infeliz para a legenda tentar negar o óbvio.

No mundo encantado e mentiroso dessas peças publicitárias, o país enfrenta apenas "problemas passageiros na economia", naturalmente originados em turbulências internacionais. Algumas pessoas, contudo, estariam usando tais circunstâncias com o propósito de "criar uma crise política", cujos efeitos poderiam ser ainda piores.

Não há licença poética que justifique tamanha inventividade por parte dos marqueteiros. Os indicadores econômicos apontam para desequilíbrios estruturais e estão aí para quem quiser ver: contração do PIB, picos de inflação, recorde de queda real de renda e dólar em disparada, entre outros.

Quanto à política, coube –veja só– ao melífluo Michel Temer (PMDB) falar com a franqueza exigida pela ocasião. Para azar do governo, o vice-presidente da República sentiu necessidade de fazê-lo exatamente um dia antes de ser difundida a propaganda petista.

"Não vamos ignorar que a situação é razoavelmente grave. Não tenho dúvida de que é grave, e é grave porque há uma crise política se ensaiando", afirmou, para um pouco adiante sentenciar: "É preciso que alguém tenha a capacidade de reunificar a todos".

Ao contrário do que quer fazer crer o programa do PT, a crise já está instalada, e o próprio Temer, ao lançar seu apelo em nome do país, não se lembrou de evocar a liderança da presidente Dilma. Mais que isso, tomou a liberdade de fazer o pedido, "como articulador político do governo".

Estaria se adiantando aos fatos e –de forma calculada ou num ato falho, pouca importa– se apresentando como alternativa para conduzir o Executivo? Ou, sem que lhe tenha ocorrido a destituição de Dilma, somente julgou que a petista carece de condições mínimas para coordenar os diversos atores, Congresso Nacional à frente?

Nenhuma das hipóteses depõe a favor da autoridade presidencial. Tampouco ajuda o Planalto ou o PT que, na mesma quarta-feira (5), PTB e PDT tenham decidido abandonar a suposta base governista.

Completou o quadro o resultado de nova pesquisa Datafolha sobre popularidade da presidente. Dilma Rousseff, reprovada por 71% dos brasileiros (eram 65% em junho) e aprovada por 8% (eram 10%), agora ostenta o pior desempenho na série histórica do instituto.

O recorde até então pertencia a Fernando Collor (rejeição de 68%, aprovação de 9%), registrado em setembro de 1992, pouco antes de seu afastamento da Presidência.

De nada adianta o PT tergiversar: o país já caiu no poço da crise política –e ele se mostra cada vez mais profundo.

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