"Brincando com a cidade", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo


A ânsia de determinar logo o fechamento da Avenida Paulista para carros aos domingos, antes do prazo que, segundo a Associação Paulista Viva, lhe havia sido dado para estudar o impacto da medida; o anúncio de mais um projeto bombástico – o alargamento de calçadas, como sempre sem apresentar estudos técnicos em que se baseia; e os primeiros acidentes com mortes de pedestres atropelados por ciclistas nas ciclovias constituem novas demonstrações da falta de seriedade com que o prefeito Fernando Haddad trata os problemas da maior cidade do País.

O segundo teste para a adoção da polêmica medida sobre a Paulista será feito no próximo domingo e, antes mesmo de saber seu resultado, Haddad adiantou ser “provável” que ela passe a valer todos os domingos, já a partir do dia 30.

Segundo ele, estudos feitos pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) “vão na direção de que é possível e benéfica para a cidade” aquela medida. Garante que tais estudos levam em conta a necessidade de garantir acesso a hospitais, clubes e condomínios situados na avenida e adjacências.

Diante das insistentes críticas de que seus mirabolantes “projetos” – ou factoides, melhor dizendo – de mobilidade urbana carecem de sustentação técnica, o prefeito passou a se referir a estudos da CET. Mas não dá para levá-los muito a sério, não porque falte técnicos à CET, mas porque ela os vem produzindo aos montes e numa impressionante e suspeita rapidez.

A presidente da Associação Paulista Viva, Vilma Peramezza, demonstrou surpresa com a pressa de Haddad, porque numa reunião com a CET, dia 6 de agosto, ficou acertado que a entidade teria o prazo de 30 dias para fazer um levantamento dos prováveis prejuízos que a medida trará aos estabelecimentos comerciais da Paulista, muitos dos quais já ameaçam fechar.

Pelo visto, para ele isso não conta. Haddad não perderá a oportunidade de fazer estardalhaço com o bloqueio aos domingos da mais famosa avenida da cidade, não importa o preço a pagar por isso.

A mesma ligeireza de comportamento vale para o outro factoide, o do alargamento de calçadas, com a eliminação de faixa de circulação para carros. Um projeto-piloto começará a ser implantado ainda este mês na Rua Vergueiro. Como o atual governo gosta de fazer pirotecnia a baixo custo, na verdade não será um alargamento. Apenas uma faixa exclusiva para pedestres pintada ao longo – pasmem os leitores – da pista de rolamento dos veículos. Tal como nas faixas exclusivas para ônibus e na grande maioria das ciclovias, a Prefeitura pretende continuar sua “revolução” no sistema de circulação da cidade apenas com algumas latas de tinta para demarcar a área extra para os pedestres.

Favorecer e proteger os pedestres é algo que ninguém contesta. E para isso a boa conservação da calçadas, hoje esburacadas, é o item mais importante. Justamente nesse ponto, porém, as ações de Haddad vão no sentido contrário ao interesse dos pedestres. A Lei das Calçadas, destinada a garantir sua manutenção em bom estado, aprovada em 2011, já sofreu no atual governo três modificações que afrouxam o seu rigor. Diante disso, o falso alargamento de calçadas é mais do que pura demagogia. É um atentado contra a integridade física e a vida dos pedestres.

Finalmente, as mortes de dois pedestres atropelados em ciclovias, em apenas uma semana, expõem dramaticamente a sua precariedade, implantadas que foram às pressas, sem qualquer planejamento. A primeira morte foi a de um garoto de 9 anos, atropelado, quando andava de bicicleta, por um micro-ônibus que invadiu a ciclovia que fica no meio de uma avenida – isso mesmo – em São Mateus. A segunda foi a de um aposentado de 78 anos, este atropelado por um ciclista embaixo do Minhocão, onde também existe uma ciclovia e cujas pilastras atrapalham a visão. Essas duas ciclovias foram especialmente criticadas desde o início pelos evidentes perigos que oferecem.

Tudo isso mostra que São Paulo está às voltas com um prefeito que decidiu brincar – e perigosamente – com a cidade.

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