Terreno comprado pela prefeitura de São Paulo para construção de condomínio vira favela


Leandro Machado - Folha.com

João Batista, 45, e sua afilhada Agata, 3, em Guaianases, na zona leste de SP

Sobrou a favela para Maria Cleusa Ramos, 33, e seus cinco filhos. Sem-teto e sem condições de pagar aluguel, a família foi viver em um barraco num terreno da Prefeitura de São Paulo onde deveria existir um condomínio do Minha Casa, Minha Vida.

"Como vou pagar R$ 600 em dois cômodos? E, além disso, ninguém quer alugar para família com crianças. Reclamam do barulho, reclamam de tudo", diz.

Restou a favela. Em Guaianases, extremo da zona leste de São Paulo, uma área da prefeitura reservada para a construção de 456 moradias populares ganhou barracos de madeira e casinhas de alvenaria sem reboco.

O déficit habitacional da capital paulista, calculado em cerca de 230 mil moradias, é um dos temas mais críticos da gestão Fernando Haddad (PT).

O prefeito prometeu entregar 55 mil novas casas a famílias de baixa renda até o fim de 2016, mas, até agora, só cumpriu 9% da meta.

O resultado são invasões cada vez mais frequentes a prédios e terrenos públicos e privados em toda a cidade.

ABANDONO E INVASÃO

Em Guaianases, a área de 12 mil metros quadrados era particular e ficou mais de 15 anos desocupada. Só era usada quando crianças da região pulavam os muros para jogar futebol lá dentro. Os donos deviam décadas de IPTU.

Em 2012, a prefeitura tomou posse do terreno.

Mas ele continuou vazio até agosto de 2014, quando moradores do bairro, que não pertenciam a nenhum grupo organizado de sem-teto, decidiram ocupá-lo.

Pularam o muro e entraram. Uma empresa privada havia sido contratada para vigiar o terreno, mas, no momento da invasão, não havia nenhum funcionário por ali.

Os líderes da invasão se diziam independentes. Queriam que a população de Guaianases que não consegue pagar aluguel fosse privilegiada no rateio das unidades habitacionais.

A entrada no terreno ocorreu em meio a uma onda de invasões do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) no ano passado. Em agosto, a área tinha algumas poucas barracas de lona para marcar território. Quase ninguém de fato morava lá.

Hoje, porém, cerca de 120 famílias vivem no local, em condições precárias. Há "gatos" na instalação elétrica com fios à mostra e apenas um cano libera água para todos os moradores.

Poucos sabem de que se trata de uma área pública destinada a moradias sociais. Os líderes da invasão foram embora, enquanto outras pessoas fugindo do aluguel montavam barracos e casas.

"Quando tem emprego, a gente paga o aluguel. E quando não tem, vive onde?", pergunta o pedreiro João Batista Carvalho, 45. Sem trabalho desde dezembro, ele se mudou para a favela em Guaianases há cinco meses.

O aluguel de dois cômodos no bairro chega a custar R$ 600. Pessoas como o pedreiro, sem dinheiro para a locação na periferia, têm sido público frequente em invasões sem-teto.

REINTEGRAÇÃO

Em maio, uma decisão da Justiça determinou a reintegração de posse do terreno em Guaianases. As famílias da favela poderão ser retiradas a qualquer momento.

Segundo a prefeitura, a construção das moradias começaria no primeiro semestre deste ano. Elas seriam destinadas a famílias de baixa renda, dentro do programa federal de habitação Minha Casa, Minha Vida.

A gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) diz que as famílias que vivem na favela não serão privilegiadas na fila da habitação.

Afirma, também, que o projeto do condomínio terá que ser refeito, pois o terreno foi modificado para a construção dos barracos.

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