Relatório da PF revela jantar ‘a pedido’ de Lula na casa de Odebrecht


Também foram convidados, em 2012, o ex-ministro Antonio Palocci, empresários, banqueiros, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e dois sindicalistas citados na Lava Jato

Ricardo Brandt, Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo - Estadão


Relatório de análise de mídia elaborado pela Polícia Federal revela os bastidores de um jantar em São Paulo, na residência do empresário Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira do País, em 28 de maio de 2012, do qual participou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também foram convidados o ex-ministro Antonio Palocci (Casa Civil – Governo Dilma), empresários, banqueiros, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e dois sindicalistas mencionados na Operação Lava Jato.

“Através da leitura das mensagens acerca deste evento foi possível inferir, grosso modo, que: a) O jantar foi realizado a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, aponta o relatório da PF. “d) Foram enviadas mensagens individuais para cada um dos convidados por I.B.G.”


A relação entre Lula e a construtora Odebrecht é alvo de um procedimento investigatório criminal (PIC) aberto pela Procuradoria da República no Distrito Federal. A suspeita é de que a empreiteira teria obtido vantagens com agentes públicos de outros países por meio de suposto tráfico de influência do petista, que deixou o Palácio do Planalto no fim de 2010. A Odebrecht nega ter sido favorecida. Lula não é investigado na Lava Jato.


Na quinta-feira, 17, o Instituto Lula, criado pelo ex-presidente após sua saída da Presidência, classificou como ‘absolutamente irregular, intempestivo e injustificado’ a abertura do procedimento da Procuradoria da República. A entidade afirmou em nota que ‘serão tomadas as medidas cabíveis para corrigir essa arbitrariedade no âmbito do próprio Ministério Público, sem prejuízo de outras providências juridicamente cabíveis’.


Nas buscas que realizou na casa do empreiteiro, na manhã de 19 de junho, durante a Erga Omnes, 14.ª etapa da Lava Jato, a PF apreendeu documentos, correspondências e mídias. Um HD que estava em um cofre no quarto de Marcelo Odebrecht armazenava troca de mensagens sobre o jantar. Uma delas dizia o motivo do encontro: a economia brasileira.

“Emílio e Marcelo Odebrecht têm o prazer de convidá-la para um jantar com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual será discutida a situação da economia brasileira face a conjuntura internacional”, diz o e-mail enviado pela presidência da Odebrecht para Juvandia Moreira Leite, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, em 17 de maio de 2012.

“Confirmo a minha presença no jantar com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Saudações sindicais”, respondeu Juvandia Leite.



Nesta sexta-feira, 17, o relatório de análise de mídia foi anexado aos autos da Lava Jato – Marcelo Odebrecht e pelo menos quatro ex-dirigentes da empreiteira são alvos de investigação por suspeita de corrupção e cartel nos contratos com a Petrobrás. No documento, a PF aponta para a presença de Juvandia Leite e Sergio Aparecido Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

“Os dois sindicalistas convidados para o evento são também sócios da Editora Gráfica Atitude, empresa apontada pelo empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto como intermediária de pagamentos de propina destinados ao Partido dos Trabalhadores”, registra a PF.

Juvandia Leite e Sergio Nobre são administradores da Editora Gráfica Atitude. Segundo denúncia do Ministério Público Federal, uma parte da propina paga para o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque na Diretoria de Serviços foi direcionada por empresas do grupo Setal Óleo e Gás, controlado por Augusto Mendonça – delator da Lava Jato – para a Editora Gráfica Atitude Ltda.

O pagamento teria sido feito a pedido do então tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Os procuradores da força-tarefa sustentam que existem, ainda, “vários indicativos de ligação da Gráfica Atitude com o PT”.

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