PSDB convocará para manifestações contra o governo, diz Aécio


Mariana Haubert - Folha.com

Pedro Ladeira - Folhapress 
Aécio Neves, em convenção nacional do PSDB, em Brasília

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou nesta segunda-feira (27) que o PSDB fará inserções de rádio e televisão para convocar as pessoas a participarem das manifestações contra o governo marcadas para 16 de agosto. Apesar de afirmar que o partido não deve ser protagonista dos protestos, o tucano diz que a legenda também não pode se omitir neste momento.

Segundo o senador, as propagandas do partido apelarão para a indignação dos cidadãos em relação às ações do governo. "Aqueles que estiverem indignados ou até mesmo arrependidos mas, principalmente, cansados, devem sim se movimentar, ir às ruas", disse.

As inserções começarão a ser veiculadas nesta semana. Na primeira fase, o PSDB mostrará suas principais lideranças, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e o senador José Serra (SP). Mesmo com a movimentação interna de integrantes da legenda em torno de possíveis candidaturas à Presidência, Aécio afirmou que a estratégia inicial será mostrar um partido unido.

"Nosso esforço nessa relargada será mostrar uma grande sintonia entre as principais lideranças do PSDB. Temos que estar sintonizados com as ruas e com a população cada vez mais indignada com o que está acontecendo", disse.

"Somos hoje porta-vozes do sentimento de indignação, do sentimento de frustração da sociedade brasileira e até de decepção de eleitores do próprio PT. Nossa aliança tem que ser com a sociedade", completou.

A partir da próxima semana o partido começará a fazer as convocações nas propagandas. Apesar do envolvimento direto nos atos, Aécio diz que a sigla não quer ser protagonista. No entanto, diferentemente das primeiras manifestações contra o governo, diz que agora há uma convergência entre a sociedade e os políticos.

"O PSDB deve participar como uma parcela da sociedade, jamais como protagonista dessas manifestações. Até porque, quanto mais da sociedade elas forem, mais legítimas e representativas elas serão. Mas o PSDB não se furtará, as lideranças individualmente, a estar presente na manifestação que ganha corpo", disse.

"As coisas avançaram e acho que hoje já começa a ter um encontro entre as representações políticas, institucionalizadas, com os movimentos das ruas e isso é bom, é positivo. Vamos estar na dosagem certa", completou. Segundo Aécio, outros partidos de oposição também deverão fazer convocações.

Criticado por não ter participado de outras manifestações anti-governo, Aécio afirmou que ainda não decidiu se irá na próxima. "Meu cuidado maior é que, a partir do momento em que eu disser que eu vou, isso dá uma impressão de que é um movimento de partido e não é. Se eu decidir ir, vou como cidadão", afirmou. "Se simplesmente desconsiderarmos que elas existem, acho que estamos fugindo da realidade. A cobrança dos nossos eleitores é enorme. O que estou tendo é cuidado para manter o equilíbrio", completou.

CRISE DE CONFIANÇA

Aécio afirmou ainda que o governo passa por uma "grave crise de confiança" e que Dilma precisa admitir que mentiu durante a campanha eleitoral de 2014 e que errou na condução da política macroeconômica do país para reconquistar a credibilidade do seu governo.

O tucano criticou também a estratégia de reunir os governadores do país com a presidente para discutir pautas federativas como uma tentativa de Dilma de demonstrar que tem apoio. Para ele, o encontro soa como um "pedido de socorro".

"O encontro de governadores com o presidente da República é natural em qualquer democracia. É absolutamente republicano. Mas tentar cooptar setores da oposição, na verdade, é uma demonstração muito clara da fragilidade do governo e será absolutamente inócua", disse.

A intenção do governo era convidar também governadores da oposição para participarem de uma reunião que estava sendo articulada para acontecer na próxima quinta-feira (30), em Brasília. O encontro seria uma tentativa de selar uma espécie de "pacto pela governabilidade".

A petista já avalia, no entanto, dividir o encontro em viagens pelo país. Segundo o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha (PMDB), a dinâmica pode tornar o diálogo entre os Estados e o governo federal mais eficaz, já que cada região tem seus interesses e demandas específicas.

Não vou recomendar que os governadores deixem de aceitar um convite da presidente. Os governadores terão toda a liberdade para ir. O que o PSDB não está disposto é ajudar a salvar, e vou repetir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aquilo que não deve ser salvo", disse. Para Aécio, Dilma constrange os governadores com o convite e diz que a reunião é desnecessária.

PEDALADAS

O tucano criticou também a condução que o governo tem dado em relação àanálise das contas de 2014 que será feita pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Ele afirma que o Planalto exige uma decisão técnica mas faz gestões políticas junto à Corte.

Na semana passada, a equipe de Dilma entregou ao TCU a defesa do governoem relação às contas de 2014, inclusive no que diz respeito às chamadas "pedaladas fiscais". Por meio das manobras, o governo usou bancos públicos, como a Caixa, para pagar benefícios sociais como Bolsa Família e seguro-desemprego em momentos de falta de recursos no Tesouro Nacional.

"Uma coisa são atrasos eventuais nos pagamentos. Mas ter como estratégia planejada transferir as responsabilidades do Tesouro para as instituições financeiras, você registrar isso como créditos a receber do governo, e isso ficar lá permanente, isso é lesar o artigo 36 da Lei de Responsabilidade Fiscal", disse.

Para Aécio, a defesa do governo em relação às pedaladas fiscais se assemelha aos argumentos usados pelos petistas na defesa da Petrobras. "Eles dizem que, se outros já roubaram antes, então nós também podemos roubar. E aí institucionalizam a corrupção", afirmou.

Após a decisão do TCU, seja ela pela aprovação ou rejeição, as contas serão analisadas pelo Congresso. No entanto, desde 1983, os congressistas não analisam contas do governo. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já organizou as contas pendentes e promete colocar algumas em votação na primeira semana de agosto, quando acaba o recesso parlamentar.

Há, no entanto, uma possibilidade de que as contas de 2014 sejam votadas antes das demais. Regimentalmente, os partidos podem pedir a inversão da pauta de votação para votá-la antes das demais. Especula-se que, se isso acontecer, as demais contas podem continuar esquecidas.

Para Aécio, a inversão da pauta não representará nenhum problema mas defendeu que o ideal é que o Congresso vote todas as contas pendentes. "Não vejo que há polêmica nas contas passadas", disse.

Caso haja a rejeição do balanço contábil de 2014, setores contrários ao governo poderão usar a decisão para pedir o impeachment de Dilma. Aécio, no entanto, afirmou que não acredita neste caminho e espera chegar ao comando do país "pelas urnas". "O que vai acontecer com a presidente depende mais dela do que da oposição. [...] Quando eu tiver a oportunidade de ser presidente, isso acontecerá pelo voto. Para nós, o calendário de 2018 sempre foi o calendário normal", disse.

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