"Lula e o partido da boquinha", editorial do Estadão


O ESTADO DE S. PAULO


Lula cruzou o Rubicão. Depois de ter, na semana passada, criticado pesadamente Dilma Rousseff e seu governo, na segunda-feira ele dirigiu sua devastadora artilharia contra o PT, que “precisa, neste momento, construir uma nova utopia”. Ao incorporar a seu discurso os argumentos básicos dos opositores do lulopetismo – inclusive a mídia independente –, o ex-presidente da República lançou a sorte para si mesmo: não poderá, senão a um custo político altíssimo, voltar atrás na condenação de seu próprio legado e terá de sobreviver politicamente, de agora em diante, por conta exclusiva de sua condição de “metamorfose ambulante”. Mas, o que quer que pense fazer doravante, continuará sendo exatamente o mesmo. Só mudará o figurino talhado no desespero da sobrevivência.

Em seu pronunciamento improvisado – assistia, em seu instituto, a uma palestra do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González que, ao final, o convidou para a mesa e ele resolveu então falar –, Lula fez uma crítica radical ao PT, declarando que “é chegada a hora de se fazer uma revolução interna”. “Temos que decidir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou salvar nosso projeto.” Os petistas, afirmou, “perderam a utopia”: “A gente acreditava em sonhos. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego, em ser eleito. Ninguém hoje trabalha mais de graça”.

Essa “autocrítica” – se é que se pode chamar assim uma crítica quase que exclusivamente dirigida a terceiros – só não foi completa porque o chefão do PT evitou cuidadosamente qualquer referência explícita ao mar de lama em que o lulopetismo transformou a administração pública. Em nenhum momento Lula mencionou o mensalão ou o escândalo da Petrobrás, nem mesmo para se defender ou ao PT. Mas a denúncia dos desvios de conduta dos correligionários que “perderam a utopia” e agora só pensam em eleger-se e em manter seus cargos inclui, implicitamente, a condenação da corrupção. Pois, se o idealismo já não mais existe, qual a razão pela qual os petistas lutam para manter seus cargos ou se eleger? Lula dá razão ao ex-governador fluminense Anthony Garotinho quando, com inegável conhecimento de causa, definiu o PT como o “partido da boquinha”.

O que Lula ainda não admitiu é que o abandono da utopia começou em seu primeiro ano de governo, em 2003, quando o Fome Zero – um programa complexo de inclusão social, que além de prover auxílio financeiro aos mais necessitados preparava para eles a chamada “porta de saída” de sua condição de miséria – foi trocado pelo Bolsa Família, pragmaticamente destinado, sem maiores complicações e a custo bem menor, a botar o cabresto em “40 milhões de votos”, como proclamava com orgulho o então ministro José Dirceu.

Desde que se deu conta, nos últimos meses, de que Dilma Rousseff, com sua desastrada gestão econômica e as mentiras que disse para se reeleger, acabou por precipitar o País numa grave crise política, econômica e social, levando de arrastão sua própria credibilidade e o prestígio do PT em todos os estratos sociais – diante, enfim, desse panorama devastador para o futuro do lulopetismo –, Lula deu início a uma escalada de críticas à sucessora que ele mesmo escolheu. Críticas públicas e, principalmente, privadas, no âmbito de seu relacionamento mais íntimo e em reuniões com a própria Dilma. Há poucos dias deixou passar a oportunidade de fazer essas críticas no local mais apropriado, o 5.º Congresso do partido reunido em Salvador. A corrente partidária majoritária que lidera houve por bem “dar um tempo” e salvar as aparências num documento oficial anódino e conciliador. 

Mas agora, talvez movido por sua proverbial intuição, Lula dá uma guinada significativa em sua trajetória política, abrindo caminho para descolar sua imagem do governo Dilma e reunir em torno de si uma militância partidária pelo menos temporariamente disposta a trocar o manso desfrute das delícias do poder pelo antigo aguerrimento em desafios eleitorais. E já no ano que vem haverá eleições municipais, que poderão ser um esclarecedor teste para 2018.

Como não poderia deixar de ser, em sua “autocrítica” Lula voltou a atacar a imprensa. Sem liberdade de opinião, Lula não teria chegado onde chegou – e ele sabe disso. Ato falho?

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