"Agora querem fechar a Paulista", editorial do Estadão


O ESTADO DE S. PAULO

A nova ideia que fez brilhar os olhos do prefeito Fernando Haddad vem confirmar aquilo que os paulistanos têm aprendido a duras penas desde o início de seu mandato – a sua inegável capacidade de surpreender, sempre negativamente. Suas ideias brilhantes não passam de vulgares recursos de marketing para colocá-lo em evidência, hábeis piruetas pelas quais os paulistanos vão acabar pagando caro. E nisso ele tem a cumplicidade de seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto – menos imaginoso, mas notoriamente operoso.

Haddad está querendo simplesmente fechar a Avenida Paulista aos domingos aos carros e até mesmo aos ônibus, deixando-a entregue aos ciclistas, skatistas e pedestres. Segundo ele e seu fiel escudeiro, o bloqueio dessa via será testado no próximo dia 28, quando da inauguração da ciclovia – outra jogada do mesmo tipo –, que ali está sendo construída, no canteiro central. O teste faz parte de estudos que estariam sendo feitos pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), “mas ainda não temos uma decisão tomada”.

Infelizmente, a possibilidade de essa ressalva deixar uma porta aberta para rever tão brilhante ideia deve ser considerada com cautela. O histórico das iniciativas do prefeito na área de transportes indica que se trata mais de uma formalidade, para não parecer que está apresentando como fato consumado puro e simples uma medida de tal envergadura, do que uma oportunidade real de eventual recuo. Quanto aos estudos prometidos, também a julgar pelo que se tem visto, das duas uma: ou serão feitos apenas para tentar justificar decisão prévia ou, num improvável caso contrário, dificilmente serão divulgados.

Onde estão os estudos sérios, consistentes, que justificariam a proliferação de faixas exclusivas para ônibus e de ciclovias? Ninguém sabe, ninguém viu. Não por acaso, a maior parte das ciclovias – é bom lembrar mais uma vez – está em bairros centrais que garantem visibilidade, sendo a da Paulista um bom exemplo, embora elas fiquem quase sempre entregues às moscas, por falta de ciclistas, e não em regiões da periferia, onde provavelmente podem mesmo ser úteis.

Um indício de que o tal estudo sobre a Paulista pode não ser o que deveria é o fato de o secretário estar adiantando conclusões a que ele deve chegar. O cruzamento dessa avenida com a Brigadeiro Luís Antônio, disse ele, não será bloqueado: “Uma recomendação que fizemos é que não feche o cruzamento por causa do ônibus. O motorista do carro desvia, pega as Avenidas 23 de Maio e Brasil”. Independentemente de essa recomendação ser boa ou má, não cabe ao secretário orientar o estudo, sob pena de ele ficar sob suspeita. Dar detalhes de como deve ser o fechamento da Paulista significa que ele já está decidido, que os técnicos não podem concluir, por exemplo, que a medida não é recomendável. É possível levar a sério tal estudo?

Na tentativa de adiantar outra conclusão do estudo – a de que a medida não terá grande impacto negativo –, Tatto diz que a Prefeitura já está acostumada com os frequentes fechamentos da Paulista, referindo-se certamente às manifestações que ali se repetem: “Se tem um lugar que todo mundo tem experiência de fechamento na cidade é a Avenida Paulista”. Alguém precisa explicar ao secretário que o fato de um erro se repetir não o transforma num acerto.

Fechar a Paulista significa perturbar o trânsito em ampla área da cidade e dificultar, quando não impedir, o acesso a uma dezena de hospitais situados nessa avenida e adjacências. Em vez de fechar a Paulista aos domingos, o que a Prefeitura deveria fazer é impedir que ela seja fechada, por qualquer motivo, em qualquer dia.

Outra observação igualmente descabida foi feita por Haddad, ao dizer que segue, nesse caso, uma “tendência internacional” e citar como exemplo o Times Square, em Nova York, que tem trechos fechados desde 2009. Só que essa cidade tem muitas coisas que São Paulo não tem, entre elas um bom sistema de transporte coletivo. Como diria o velho Conselheiro Acácio, só se devem comparar coisas comparáveis.

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