"Metrô sofre por suas virtudes", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo


A pesquisa “Caracterização Socioeconômica do Usuário e seus Hábitos de Viagem”, feita pelo Metrô, cujos resultados foram adiantados por reportagem do Estado, traz informações importantes para compreender melhor a situação atual do transporte coletivo da Grande São Paulo como um todo – sistema metroferroviário e serviço de ônibus – e também para determinar os caminhos a seguir para melhorá-lo. Para isso, ela não só traça um perfil dos usuários do metrô, como mostra a preferência cada vez maior dos paulistanos por esse meio de transporte, apesar de sua superlotação.

Um dos dados que mais chamam a atenção é o referente ao aumento do número de usuários e quem são eles. A porcentagem dos que passaram a usar o metrô há um ano ou menos, e que por isso são considerados novos, é significativa – 11%. Segundo o perfil desses passageiros, traçado pela coordenadora da pesquisa, Cecília Helena Fuentes Guedes, a maioria deles é constituída por mulheres, com idade entre 18 e 36 anos, com ensino superior incompleto, numa indicação de que pelo menos boa parte delas ainda estuda, e que não possui carro.

As mulheres também predominam no conjunto dos passageiros, novos e antigos. A maioria, até 2003, era de homens – 54%. Em 2005, os dois sexos ficaram em igualdade e hoje as mulheres já são maioria – 55%. Quanto à profissão, a maior parte declara trabalhar em escritório (24%).

Que os paulistanos preferem o metrô é coisa conhecida há muito. O que impressiona é como essa preferência se acentuou no último ano. Entre as causas disso, de acordo com Cecília Guedes, estão a demora no deslocamento por carro, o aumento da velocidade dos ônibus nas faixas exclusivas, que facilitam a chegada às estações, e a abertura de novas estações na Linha 2 – Verde e na Linha 4 – Amarela, que permitem fazer mais conexões e por isso oferecem mais opções de trajetos.

A essas causas se deve acrescentar aquelas que sempre foram e continuam sendo as mais importantes atrações do metrô – a rapidez do deslocamento e o respeito aos horários dos trens. Para os usuários, antigos e novos, ouvidos pela reportagem, essas vantagens compensam a superlotação do metrô. Como diz um deles, “a pessoa que vai tomar (essa) condução sabe que não é confortável”, mas aceita isso porque “é mais rápido ir de metrô”.

A primeira conclusão que se impõe, e que também não é de hoje, é que o metrô continua a pagar caro por suas evidentes vantagens sobre o serviço de ônibus, em geral lento, desconfortável e incapaz de respeitar os horários, submetendo os seus usuários a longas esperas nos pontos, principalmente nos horários de pico. Por isso, o número de seus passageiros continua a aumentar, e em ritmo crescente, pois 11% em apenas um ano é algo considerável.

Como sua expansão será lenta, mesmo com pesados investimentos, o metrô não tem condições de atender a essa demanda. Já está superlotado e operando no limite de sua capacidade, o que explica a ocorrência de paralisações nas linhas. O serviço de ônibus deveria estar absorvendo usuários do metrô, para aliviá-lo, e não o contrário, como se constata.

Tendo em vista as próprias características dos outros dois meios de transporte coletivo da região metropolitana – metrô e Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) –, o ônibus é o único serviço que pode ser melhorado a curto prazo. Isso é sabido há muito tempo, mas nem por isso os governos municipais da capital que se sucederam nas últimas décadas fizeram o que deviam nesse sentido. Nenhum deles teve coragem de enfrentar a resistência das empresas de ônibus que dominam o setor, ganham muito bem com a situação atual e, portanto, não têm interesse em mudá-la.

Na licitação que se prepara para a escolha dos concessionários do serviço, já que os atuais contratos venceram, o governo de Fernando Haddad terá a oportunidade de demonstrar se vai seguir o caminho dos que o antecederam ou se está disposto a inovar. Logo saberemos. Infelizmente, suas pirotecnias nessa área não permitem otimismo.

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