Senador do PT recebeu R$ 60 mil em empréstimo de empresário


Rubens Valente - Folha.com


O senador Humberto Costa (PT-PE) recebeu R$ 60 mil de um empresário de Pernambuco que presta serviços à Petrobras. Segundo o parlamentar, trata-se de "um amigo de infância" que lhe concedeu "um empréstimo" que ambos informaram à Receita Federal em sua "declaração de ajuste anual" do Imposto de Renda e terminará de ser quitado no ano que vem.

As informações partiram do próprio Costa, em depoimento que prestou à Polícia Federal na Operação Lava Jato por ordem do ministro relator dos casos no STF (Supremo Tribunal Federal), Teori Zavascki.

O empresário, Mário Barbosa Beltrão, foi citado na Lava Jato em depoimento prestado no ano passado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, que colabora com as autoridades em troca de penas mais brandas. Segundo ele, Beltrão solicitou-lhe R$ 1 milhão "para auxiliar na campanha de Humberto Costa" ao Senado, em 2010. Paulo Roberto disse que repassou o pedido ao doleiro Alberto Youssef "para que fizesse a entrega, como de praxe" e que depois Beltrão "lhe confirmou que os recursos foram recebidos".

Ouvido no ano passado pela PF, Youssef negou que o pagamento tenha passado pelas suas mãos, disse não conhecer Beltrão e opinou que o ex-diretor da Petrobras pode ter se confundido.

Segundo Paulo Roberto Costa, Beltrão era um antigo conhecido seu e atuava "no ramo de guindastes e manutenção". Em Pernambuco, a Petrobras havia construído uma petroquímica.

Empresa na qual Beltrão aparece como sócio-proprietário, a Engeman, declara, em seu site na internet, ter trabalhado para a Petrobras em montagem de tubulação, válvulas e sensores de temperatura nas linhas de um gasoduto. Também afirma ter prestado à Transpetro, em 2006, serviços de caldeiras, fabricação e montagem de linhas de produto e válvulas no terminal da estatal em Suape (PE).

Em seu depoimento, Humberto Costa negou ser "sócio oculto ou em conta de participação" de Beltrão, negou ter feito o pedido de recursos a Paulo Roberto e também afirmou que não recebeu tais recursos em sua campanha eleitoral de 2010.

Segundo Costa, sua relação com Beltrão se dá por meio de uma "convivência entre os núcleos familiares, no âmbito pessoal, e politicamente, apenas com relação aos projetos vinculados à Assimpra" (Associação das Empresas do Estado de Pernambuco), uma organização não governamental presidida por Beltrão que declara não ter fins lucrativos.

De acordo com o senador, por volta de 2011, mesmo ano em que tomou posse como senador em Brasília, ele procurou Beltrão para pedir-lhe os R$ 60 mil emprestados "para complementar" uma parte que devia à sua ex-mulher, de quem acabara de se separar, "na partilha de um terreno e o apartamento que reside em Recife".

Humberto Costa diz que, desde a declaração do valor à Receita, tem feito "depósitos em espécie ou em cheque ou transferências bancárias para a conta pessoal" de Beltrão.

Em entrevista à Folha nesta quarta-feira (29), Costa disse lamentar "que se queira fazer qualquer ilação a respeito de ele [Beltrão] ser fornecedor da Petrobras".

"Ele é meu amigo de infância. Pedi a ele o empréstimo de R$ 60 mil e foi tudo documentado. Ele é fornecedor da Petrobras há muitos e muitos anos, e não só da Petrobras", disse o senador.

Sobre a afirmação de Paulo Roberto Costa, o senador disse que ela "não foi confirmada pelo Alberto Youssef, a quem ele teria determinado" o pagamento.

"Youssef nega, o meu amigo nega e eu nego. Então não tem qualquer fundamento. O próprio Paulo Roberto disse que esteve comigo várias vezes mas nunca para tratar desse assunto", disse Humberto Costa.

Em seu depoimento à PF, Humberto Costa afirmou que ele e ex-diretor da estatal só trataram "dos projetos relativos à implantação da refinaria e outras atividades relacionadas à área que Paulo Roberto dirigia na Petrobras".

Mário Beltrão afirmou, também em depoimento à PF, que "absolutamente nunca solicitou qualquer valor em qualquer circunstância ou período" e que "nunca teve contato com Alberto Youssef, como já dito, nem com qualquer preposto ou emissário dele, para tratar de qualquer tipo de doação".

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