Sem fiscalização, Haddad transforma ruas de São Paulo em camelódromo


Artur Rodrigues e Giba Bergamin Jr - Folha.com


Camelôs ilegais no viaduto Santa Ifigênia, no centro de SP; com afrouxamento da fiscalização, ambulantes voltaram às ruas de São Paulo


Os gritos de "olha o rapa, olha o rapa" estão cada vez menos frequentes no comércio de rua de São Paulo.

Os camelôs, que anunciavam aos berros a chegada da fiscalização e viviam num intenso jogo de gato e rato com policiais e guardas municipais, agora atuam ilegalmente com mais facilidade.

De paus de selfie a cigarros paraguaios, esse tipo de comércio ocorre sem incômodos em diferentes regiões da cidade, conforme a reportagem da Folhaconstatou ao longo da semana passada.

A prática coincide com a redução de policiais da chamada Operação Delegada —o bico oficial pago pela prefeitura no qual PMs atuam no combate aos ilegais.

A operação já chegou a ter cerca de 3.899 PMs, mas hoje o convênio prevê até 1.472 PMs, mais 800 guardas-civis.

A operação foi criada na gestão Gilberto Kassab (PSD), que tinha como bandeira o combate ao comércio ilegal e à pirataria. Sob Fernando Haddad (PT), porém, houve um esvaziamento da ação.

Segundo o petista, o governo do Estado tem disponibilizado menos policiais. Já a PM culpa a administração municipal pela redução (leia texto nesta página).

"Já tivemos 300 policiais na região da 25 de Março. Hoje são cerca de 30, que não dão conta", diz Alexandre Navarro, diretor da União dos Lojistas da 25 de Março.

A proliferação da venda de todo tipo de produto na rua pode ser vista em outros pontos tradicionais da cidade, como Santo Amaro, na zona sul, e o Brás, na região central.

"O camelô aproveita o movimento das lojas para vender na correria. Como a fiscalização diminuiu bastante, ele vai para a rua mesmo", disse o camelô Neilson Paulo, presidente da Acimpe (associação de comerciantes informais), que reúne cerca de 14 mil pessoas na cidade.

No Brás, esteiras tomam as calçadas e parte das ruas nos arredores do Largo da Concórdia. Regularizada, a camelô Rosa Pereira, 52, reclama da desordem. "O problema é que bloqueiam a calçada, ninguém consegue passar, e compram em outras ruas", diz a vendedora de vestidos.

Na Lapa, zona oeste, a venda ilegal acontece no entorno do mercado e da estação de trem. Em parte do dia, um "feirão" é formado nas proximidades da estação, com corredores de bancas de chocolates e de brinquedos.

Se PMs passam a pé pelos arredores, o comércio é interrompido. Mas é retomado minutos depois, logo após o afastamento dos policiais.

O clima é tenso entre PM e camelôs desde o ano passado, quando um comerciante de rua foi morto por um policial que atuava nessa operação.

De acordo com o presidente do Fórum Nacional Contra Pirataria, Edson Vismona, a venda de produtos piratas explodiu. "A prefeitura se omitiu sem qualquer justificativa, e a cidade virou um centro livre de comércio ilegal."

A gestão Kassab afirma ter apreendido 72 milhões de mercadorias ilegais de dezembro de 2010 a outubro de 2012. Já a atual administração diz que apreendeu 926 mil itens em 2013 e, em 2014, 743 mil.

Procuradas, PM e prefeitura trocaram acusações sobre a responsabilidade das fiscalizações.

A gestão Fernando Haddad diz que não é responsável pela redução da operação. Já a Polícia Militar afirma que a responsabilidade pelo combate aos comerciantes ilegais é da administração municipal.

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