No cárcere, presos do petrolão pedem reformas e comida importada


Natuza Nery - Folha.com


Alpino 

O Tesoureiro do PT já estava todo paramentado para sua caminhada matinal quando se deparou, na quarta-feira (15), com um grupo de policiais federais na porta de sua casa, em São Paulo. "Vocês vieram me buscar, né?"

João Vaccari Neto, 56, ouviu a voz de prisão sem esboçar muito sentimento. Pediu uns minutos; entrou em casa, jogou algumas roupas numa sacola e seguiu ao centro de custódia da PF, em Curitiba.

Lá, a rotina no cárcere tem tido efeito diferente sobre os réus da Lava Jato. Vaccari, por exemplo, quase não fala. Quem acompanha sua rotina o descreve como "frio".

Perfil oposto mostrou Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras. De tão emocional, foi "diagnosticado" pelos agentes com a Síndrome de Estocolmo, transtorno mental no qual alguém submetido a certo grau de privação ou intimidação se afeiçoa pelo algoz.

Quem viu a cena, se espantou. Ao deixar a custódia, após a delação premiada, Costa abraçou policiais e soltou, com lágrimas nos olhos, um curioso "obrigado por tudo".

Passado o choque da detenção, executivos de empreiteiras envolvidas no esquema usaram o tempo para projetar melhorias. Não puderam tocar a obra, mas há relatos de que a água quente passou a beneficiar todos os presos.

Um gaiato chegou a chamar o projeto de "Minha Cela, Minha Vida", alusão irônica ao programa habitacional da presidente Dilma para pessoas de baixa renda.

Os figurões fizeram encomenda de luxo ao se deparar com cobertores de lã que dão alergia. Dias depois, conjuntos de edredons e roupas de cama foram entregues. No delivery, havia também uma cesta de uvas, chocolates suíços e água Perrier. A comida entrou, mas sob a promessa de que a regalia não seria repetida. Já os edredons da marca MMartan foram devolvidos.

Os presos só desistiram do bullying contra um novato que chegaria em abril quando um policial ameaçou os algemar. É que os detentos tramavam recepcionar o ex-deputado André Vargas com o punho cerrado para o alto.

O gesto fora feito por ele, ainda em tempos de liberdade, às costas do então relator do julgamento do mensalão, Joaquim Barbosa. A intenção era simbolizar resistência.

Como os dias demoram a passar, os presos da Lava Jato resolveram ampliar a biblioteca e fazer rodízio. Alguns leem cinco livros por semana, como o doleiro Alberto Youssef, protagonista do esquema.

Já Sérgio Mendes, executivo da Mendes Júnior, se transformou no "personal trainer" dos colegas, colocando-os para se exercitar. Coincidência ou não, o estado de saúde dos demais presos melhorou.

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