Mato alto nas praças e lixo nas calçadas viram cenas comuns em SP


Folha de S.Paulo


"Quando a gente entra no táxi aqui perto é só falar para seguir até a rua do lixo. Todo mundo sabe onde é".

A frase é da confeiteira Maria Pedrosa, 34. Ela se refere ao apelido da rua onde vive, enquanto empurra seu carrinho de doces no lado limpo de uma calçada no Bresser, na zona leste de São Paulo.

Ela mora nessa rua há quatro anos e conta ter perdido as contas de quantas vezes procurou a subprefeitura.

Sem nenhum retorno, afirma, pediu que recolhessem o lixo a céu aberto e colocassem contêineres próprios para o depósito de resíduos.

"O caminhão de lixo passa, mas só pega sacos verdes. O entulho e o lixo aberto uma vez ou outra recolhem", diz Maria, que vive com portas e janelas fechadas por causa do mau cheiro e com medo do mosquito da dengue.

"Outro dia, recebemos parentes em casa. Varremos e lavamos a calçada, senão é uma vergonha".

Nesta semana a Folha percorreu diferentes regiões da cidade e achou cenas parecidas com as da rua João Alves: lixo espalhado –muitas vezes entulhos com água parada– e praças com mato alto.

Próximo à casa de Maria, na rua do Hipódromo, às margens da linha do trem, carcaças de TV, pedaços de madeira e alguns pneus formam uma pilha alta dos dois lados da calçada. Também há carro abandonado.

A estilista Debora Casella, 37, que trabalha em uma fábrica em frente ao lixão, diz que ninguém recolhe a sujeirada. "É o cúmulo do absurdo. Eu moro na Pompeia [zona oeste] e mal vejo isso, já aqui na zona leste é um descaso".

O segurança Edmilson Pereira, 34, que fica o dia todo observando a movimentação na rua, conta que desde novembro não vê nenhum gari por ali e que, quando chove, o lixo para na porta de prédios e lojas. "E o tamanho dos ratos? Parecem gato!"

Em outros bairros, como na Bela Vista, no centro, a situação não é nada diferente.

No entorno do viaduto Júlio de Mesquita Filho há pilhas de resíduos e entulhos nas calçadas. "A limpeza aqui pode melhorar, mas também não dá pra botar a culpa só na prefeitura. O pessoal não tem educação, joga tudo na rua", diz a auxiliar de enfermagem Eliete da Cunha, 56.

FACÃO PRA JARDINAGEM


Mato e lixo acumulados em praça na Rua Ary Ariovaldo Eboli, na Vila Gomes, zona oeste de São Paulo

Na Barra Funda (zona oeste), na praça em frente à Uninove, pilhas de lixo acompanham os pedestres que seguem até a estação de metrô.

"Tá vendo isso aqui, moça? Não é para evitar assalto, não, é para cortar o mato e tirar lixo aí da frente", diz Joana Comarin, 54, enquanto mostra um facão. Ela, que é dona de uma kombi que vende cachorro-quente, trabalha há dois anos ali e fala que a sujeira não tem solução.

"Se não dou uma limpada, nenhum cliente senta. Vive cheio de rato, pernilongo".

Em outra via do bairro, na Padre Luis Alves de Siqueira, atrás do hipermercado Walmart, os pedestres precisam caminhar pela rua para desviar da montanha de lixo cheia de pedaços de madeira, pneus e outros objetos.
"Eles recolhem o lixo e, no outro dia, está igual de novo. Fica um cheiro ruim. Faz meses que está assim", diz Irani Amaro, 44, funcionária do Tribunal Regional do Trabalho, do outro lado da rua.

Na Vila Gomes, na zona oeste, em uma área de dois quarteirões, duas praças e um terreno possuem mato com mais de um metro de altura, além de lixo na rua. Os vizinhos dizem que estão cansados de ligar para a subprefeitura e que, só antes da eleição, no ano passado, foi feita a limpeza.

A cuidadora de idosos Leonor Freitas, 61, diz que já se "acostumou" com a visão do lixo e do matagal.

No local, um barranco sem sistema de escoamento leva a água da chuva com sujeira para dentro de sua casa. "Minha sobrinha pagou R$ 400 para uma caçamba vir pegar o lixo. Se a gente não faz nada, ninguém faz pela gente", diz.

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